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Um texto para quem precisa desacelerar
Lou Lou B Photo

Escrevo este texto para você e para mim. Desde as minhas mais antigas memórias, estive a caminho de outro lugar. Seguramente posso lhe dizer que grande parte do meu tempo acordada neste planeta azul foi gasto em uma de duas tarefas: planejamento ou ralação.

Pode ser que você se identifique com esse relato. E eu adoraria te dizer que a nossa correria é um efeito colateral dos tempos modernos. Adoraria dizer que a culpa é da tecnologia. Mas, veja. Bem antes da existência do Vale do Silício, William James atribuiu o sofrimento humano à correria frenética acompanhada do sentimento de que deveríamos estar fazendo outra coisa. Pois é, isso foi mais ou menos 150 anos atrás. 

Somos parte de uma espécie que está sempre caminhando para outro lugar. Uma boa descrição dessa sina humana é o mito grego de Sísifo, condenado pelos deuses a empurrar uma pedra morro acima. Sísifo se esforçava e trabalhava duro para arrastar a pedra, mas, toda vez que conseguia cumprir seu objetivo, a pedra rolava novamente morro abaixo. Às vezes, me sinto como Sísifo, condenada a ticar a minha lista de afazeres até o último item, por toda a eternidade. 

 

Uma lista sem fim 

Queremos uma vida melhor. Portanto, colocamos na lista de afazeres tarefas que nos permitam aperfeiçoar o mundo, o outro e a nós mesmos. Até aí, tudo bem. O problema é que achamos que podemos concluir a lista, trabalhando dobrado, para viver depois.

Alocamos todo o nosso tempo para gestão da vida e não nos sobra tempo para viver. Esquecemos de colocar na conta o fato de que algo sempre estará inacabado, imperfeito, insuficiente. 

Pode ser libertador entender que “bom o suficiente” é um conceito platônico. Veja, o que não pode ser aprimorado é por definição perfeito, e a perfeição só existe no mundo das ideias. Tudo o que é real tem um potencial de evolução infinito. E se cada vez que você percebe que algo pode melhorar, dúzias de tarefas entram em sua lista, pois é, a lista nunca chegará ao fim.

Claro, não tem nada de errado em ter uma grande lista, contanto que você consiga construir a capacidade de pausar – apesar da lista. Afinal, a felicidade, o encanto, a conexão consigo e com quem você ama só acontece quando você pausa.

 

Por que tirar as mãos do controle?

Eu não vou negar que, às vezes, fazer em excesso produz resultados positivos e importantes. Por exemplo, trabalhar dobrado pode antecipar a promoção e estudar mais pode aumentar as chances de passar no vestibular. A questão é quando este esforço – que deveria ser aplicado em prol de um objetivo pontual – se torna um modo de vida. Você estuda intensamente para passar no vestibular, depois para manter a bolsa de estudos, então trabalha dobrado para conquistar a promoção, daí assume o contraturno para aumentar a renda, vende as férias para pagar a pós-graduação. 

Mesmo quando o que você faz lhe rende bons frutos, estabelecer um equilíbrio entre o fazer e o desfrutar é fundamental para que você seja mais feliz, criativo, saudável, e para que tenha melhores relacionamentos. Pausar é importante para que você interaja com aquilo que te importa. Às vezes, precisamos tirar as mãos do controle simplesmente para que a vida não passe despercebida. 

Sabe quando você come um bolo e a massa gruda no céu da boca? São enormes as chances de ele ter sido batido além do necessário. Da mesma forma, muitas vezes tentamos controlar com tanto afinco que estragamos aquilo que queremos melhorar. Vou te dar um exemplo (embora consiga pensar em inúmeros). Pais orientam os filhos para ajudá-los a evoluir. No entanto, aqueles que os corrigem o tempo inteiro, sempre apontando o que poderia ter sido melhor, instalam a insegurança e o sentimento de insuficiência. E, claro, fazemos isso conosco também. 

O processo de envelhecimento, a doença, o comportamento dos outros, são coisas que não podemos controlar. Precisamos saber quando é sensato tirar as mãos do controle por isso também. 

 

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Não existe luz sem sombra

Talvez a capacidade de pausar passe pela aceitação de que tudo é composto de luz e sombra. Afinal, corremos porque temos pressa em nos livrar da nossa sombra (ou pior, para nos livrar da sombra do outro). Queremos ser apenas luz – competentes em tudo, admirados por todos, bem quistos sempre. Mas, por mais que você, as coisas, e as pessoas evoluam, tudo na vida sempre será, ao mesmo tempo, bom e ruim. Para todo o sempre.

A questão é que, no piloto automático, a nossa atenção se direciona para o negativo – neste caso, para a sombra – simplesmente porque fomos programados desta forma. Os problemas nos chamam mais atenção. Isto faz parte da natureza humana. E quando somos tomados pela ideia de que algo não está bom o suficiente, é natural sentirmos medo, ansiedade, raiva. Em seguida, é natural sermos tomados pela compulsão de consertar, controlar, fazer com que as coisas e as pessoas se tornem aquilo que achamos que devem ser. 

 

O piloto automático

Acontece que este modo de funcionamento automático é tão habitual quanto nocivo. O modo “resolução de problemas” recruta o nosso cérebro de uma forma específica. Somos incapazes de enxergar a situação por uma perspectiva mais ampla. Literalmente, inclusive. Já escrevi por aqui, mas vale repetir que muitas pessoas morrem em incêndios porque, em pânico, querem sair pela mesma porta que entraram. Alternativas mais criativas e promissoras – como a escada ou a janela – se tornam inconcebíveis.

No modo resolução de problemas, vemos apenas a sombra e não a luz. Queremos consertar em vez de nos conectar com aquilo que já existe de bom. Com medo, interferimos em tudo como se soubéssemos a resposta para todas as coisas e como se o bem do universo dependesse de nós. Nos tornamos exigentes, controladores, manipuladores.

Com medo, somos incapazes de abrir espaço para que as coisas encontrem o seu caminho no seu tempo.  

Certa vez, ouvi Tara Brach contar uma história que ilustra bem a questão. Era sobre um discípulo que perguntou ao monge que o ensinava: “quanto tempo levarei para iluminar?” O monge respondeu, “dez anos”. “Mas, dez anos? E se eu me esforçar o dobro?” Perguntou o discípulo. “Neste caso, vinte anos”, respondeu o monge.  

 

O controle é uma estratégia de defesa

Mas o intuito deste texto não é te convencer a fazer pausas. Aliás, se você está aqui, é porque já sabe que precisa ter tempo para você, para a sua vida e para aqueles que você ama. A questão é que abrir mão do controle não é tão fácil quanto parece. 

Aprendemos desde pequenos a nos defender do medo, da rejeição, da incerteza e insegurança controlando as situações, impressionando as pessoas, dobrando os esforços, performando mais. Se pensarmos no nosso mundo interno como composto de diversos eus, podemos pensar no eu controlador como uma parte assustada, que já viu e ouviu falar no pior da vida, e que teme pelo futuro. O senso de urgência o impede de se conectar com aquilo de bom que já existe. Mais do que isso, ele não consegue viver em paz sabendo que há coisas a consertar. 

 

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Dissolvendo os padrões

Pode ser que você perceba que há tempos está caindo no mesmo padrão – a necessidade de fazer mais, conquistar mais, ou se provar o tempo inteiro. Nestes momentos, lembre-se que está em ação um eu controlador assustado, e que julgá-lo, ou tentar dominá-lo, costuma resultar em respostas defensivas. Por exemplo, costumamos usar justificativas ou promessas que não se cumprem. Quem nunca prometeu que no próximo ano ou depois de determinada conquista as coisas iriam mudar? 

Portanto, é mais produtivo observar-se procurando perceber qual a necessidade você busca resolver agindo desta forma. Por exemplo, talvez você perceba que busca a autossuficiência e o controle porque, no passado, a experiência de depender do outro foi traumática para você. Ou então, pode ser que perceba que quer se provar o tempo inteiro porque não se sentiu aceito e valorizado quando era importante. Para muitos de nós, o fazer compulsivo é uma tentativa de corrigir um sentimento de inadequação. Pause, observe o seu comportamento, perceba a necessidade que procura preencher.

Em seguida, em vez de tentar mudar qualquer coisa, diga para você mesmo palavras que diria para um amigo querido. Lembre-se que você está tentando o seu melhor e que há uma história de vida que condicionou este comportamento. Quando você age desta forma, observando, validando e respeitando a si mesmo, você se sente seguro. Então, o seu cérebro funciona de uma outra forma. A sua perspectiva se amplia, você se torna capaz de ver para além da sombra. Portanto, outras opções se tornam possíveis. 

Desta forma – com autocompaixão e mindfulness – podemos, aos poucos, dissolver os padrões. Mas faça sem esperar nenhuma mudança – até porque a pressa de mudança é uma exigência por controle. Pratique porque você se importa com você mesmo. Nada mais.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples

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