Você se critica demais?

  • Márcia Inês Coelho
  • FOTOGRAFIA: Toa Heftiba | Unsplash

Já parou para notar quantas vezes por dia você se critica de forma injusta? E por que será que continua fazendo isso se, na verdade, essa autoagressão nunca fez você se sentir melhor?

 

“Não tenho sorte nenhuma. Não sou capaz. Isso não é para mim. Para os outros é mais fácil. Eu sinto as coisas de outra forma. Não nasci para ser feliz. Eu não sou bom em nada. Ninguém gosta de mim. Se falhar de novo, para mim acabou.”

Muitas das nossas narrativas internas são duras, agressivas e disfuncionais, mas, nem por isso, deixamos de as alimentar. É possível que você não só tolere uma voz interna altamente castradora, como também acredite que precisa dela para sobreviver a um mundo tão exigente. Como se o fato de se atacar constantemente ajudasse a prevenir uma dor ainda mais intensa, caso alguém faça isso com você no futuro.

Mas, veja bem: você se imagina dizendo o tipo de coisas que repete para si mesmo a pessoas que ama? Acredita mesmo que isso acolhe, respeita e incentiva o outro? Espero que a sua resposta seja francamente: “não!”.

Saiba que uma autocrítica severa é uma enorme falta de respeito com a sua própria Humanidade. E é justamente por isso que necessito dizer que, assim como a autocrítica vem de uma aprendizagem, a autogentileza também.

Por que aprendemos a ser tão críticos conosco?

No nosso sistema sociocultural, é comum que o castigo, a critica e a repressão sejam usados como forma de “educação”. E, de fato, a gente aprende:

  • Aprende a ficar inseguros com a nossa imperfeição.
  • Aprende que a competitividade é mais importante que a cooperação.
  • Aprende que o “parecer ser” alguma coisa é mais relevante do que ser autêntico.
  • Além disso, a premissa de que ‘’estar bem o tempo todo’’ é sinónimo de sucesso, acaba também por contribuir para uma autocobrança exagerada e níveis elevados de vergonha diante de dificuldades.

De um modo geral, na nossa infância, não nos ensinam a nutrir afeto por quem somos. Ninguém nos ajuda a acolher verdadeiramente a falha, a diferença, a imperfeição. Ninguém nos incentiva a reconhecer mérito nas tentativas-erro, a elogiar os processos naturais de crescimento, nem a assumir honestamente as nossas qualidades. O mundo não sabe lidar com a falha. Seja como for, todo o ser humano – ainda que falho – tem uma necessidade inerente de afeto, validação e incentivo. E, nos primeiros anos de vida, esperamos que o outro preencha essas necessidades para nos desenvolvermos de forma saudável. Só então aprenderemos a confiar na nossa capacidade de lidar com os desafios da vida.

Acontece que existe uma linha muito tênue entre precisar que o outro nos ajude a adaptarmo-nos ao mundo e dependermos exclusivamente dessa validação.

Para além disso, não é a crítica propriamente dita que é o problema. O problema vem quando a crítica substitui o afeto. Quando é usada como forma de manipulação, chantagem ou controle. Assim, acabamos deduzindo que, se não formos como nos dizem que precisamos ser, não seremos dignos da atenção do outro.

Quando a critica não serve um propósito construtivo, você aprende que ela é um sinal de que pode perder o vínculo com alguém. E, de repente (não tão de repente assim…), começa a acreditar que nada daquilo é sobre o seu comportamento, mas sobre quem você é. Por isso, começa a temer a crítica, tanto quanto a usá-la indiscriminadamente. Desenvolve sentimentos de vergonha e usa estratégias de autoperseguição como forma de controlar partes suas que entende como inadequadas.

A autoperseguição é um mecanismo de defesa

A autocrítica refere-se a uma forma de julgamento e autoavaliação negativos que podem ser direcionados a diferentes aspetos do self. Desde a sua aparência física, às suas emoções, pensamentos e comportamentos, passando pela sua personalidade e aspetos intelectuais.

A autoperseguição é uma das estratégias inconscientes utilizadas para a “autocorreção” de comportamentos e características que foram percebidos como errados, maus ou inadequados.

Mas, a verdade, é que a gente se persegue porque tem medo de ser perseguido.

A gente aprende a odiar-se porque tem medo de não ser amado.

A gente aprende a conviver com um crítico interno austero e impiedoso por medo de se sentir vulnerável.

Assim, enquanto treinamos a nossa mente para nos controlar, começamos a viver como se carregássemos ferros pesados nos tornozelos. Segurando chicotes de autoflagelo nas mãos e, no peito, uma ferida aberta, sem tempo nem espaço para se curar.

Nos meus atendimentos de terapia emocional, encontro pessoas que usam tudo para se desmerecer: se falham, é o autoataque. Se acertam, é a autodesvalorização.

E a relação dura que têm consigo mesmas, começa a ser projetada para outros relacionamentos. Todas as suas interações são permeáveis às suas inseguranças. Sentem-se incapazes de receber afeto. Desconfiam dele. Têm medo de aceitá-lo e depois… perdê-lo.

A cura emocional da nossa relação com nós mesmos precisa – urgentemente – passar pelo acolhimento das partes imperfeitas com uma atitude de dignidade, abertura, compaixão.

Precisamos humanizar os nossos buracos emocionais. Eles não são um erro. Eles fazem parte da vida (ou não fossemos nós seres imperfeitos, criados por seres imperfeitos).

Enquanto estivermos ocupados em acusar o mundo das nossas feridas ou a maltratar-nos pelas nossas quedas, não teremos energia para nos reerguermos.

A autocompaixão como caminho para a maturidade emocional

Fortalecemos a voz da autocrítica sempre que alimentamos sentimentos de culpa, raiva e vergonha autodirigidas. Nutrimos esse carrasco interno quando nos punimos e humilhamos diante de falhas para conseguirmos ‘’sentir-nos melhor’’ com quem somos.

Acontece que a vergonha e o autocriticismo são fatores que contribuem diretamente para o adoecimento emocional. Diferentes estudos têm apontado para evidências de que estes dois elementos estão no centro de transtornos como a ansiedade, a depressão, distúrbios alimentares e até transtornos de personalidade.

ANSIEDADE E AFETO: entenda a relação entre ambos

A autocompaixão tem sido apontada como elemento potenciador da diminuição dos sentimentos de exclusão, inadequação, rigidez mental e evitamento emocional.

A autocompaixão pode ser entendida como uma estratégia funcional de regulação emocional. Com ela, as emoções desagradáveis não são evitadas, mas acolhidas com uma consciência clara, gentil, compreensiva. Para além disso, entenda que a culpa e a vergonha tóxicas, são contrárias aos movimentos de adultecimento.

Amadurecer emocionalmente é assumir, de uma vez por todas, que você tem escolha acerca da forma como se trata. E saber que, ainda assim, você prefere se vitimizar, se castigar, se punir.

Olhar para isso desse jeito pode ser realmente duro para a maioria. Mas é fundamental que você entenda que quando alimenta pensamentos onde se vê como quebrado, defeituoso ou errado, você está se livrando da sua autorresponsabilidade. É ela que o faz levantar do chão depois de uma queda. É ela que o relembra de parar de chafurdar na sua própria dor, perda ou falha.

UM CONSELHO: Como viver a sua dor (sem se destruir no caminho!)

Aprender a reconstruir uma relação de afeto, respeito e gentileza consigo mesmo não é algo tão óbvio ou intuitivo quanto parece. Muitos não sabem como fazê-lo e podem inclusive ter medo da compaixão.

Fazer uma jornada de autorresgate, é escolher-se, acima de tudo. Isso significa assumir que a sua vida é… sua. Sua e só sua. De verdade. E que você é o único responsável por cuidar do que sente, pensa e faz com aquilo que lhe dizem, fazem ou acontece.

Exercício para desenvolver a sua autocompaixão

A boa notícia é que a autocompaixão é uma habilidade que pode ser aprendida. Você só precisa se dar tempo e ser consistente.

A seguir, trago uma prática que aplica os três componentes essenciais da autocompaixão: mindfulness (atenção plena), um sentimento de humanidade compartilhada e a autobondade.

  • Pense em uma situação na sua vida que está lhe causando estresse. Escolha um problema que seja de leve a moderado. Precisamos desenvolver essa capacidade de modo gradual e não desejamos que você se frustre ou se sinta ainda pior com esse exercício.
  • Visualize a situação claramente na sua mente. Qual é o contexto? Quem está envolvido? O que está acontecendo? O que pode ver, ouvir e sentir nesse momento? Viva-o como se realmente estivesse a acontecer agora.
  • Nesse exercício é importante que você consiga sentir desconforto em seu corpo enquanto traz à mente essa dificuldade. Caso não sinta, escolha um problema um pouco mais difícil.
  • Agora, pratique uma atitude mindfulness, em que apenas fica com a sua experiência presente. Diga a si mesmo: “Este é um momento de sofrimento”. “Isso é estressante”. “Isso dói, neste momento”.
  • Em seguida, pode dizer a si mesmo: “Sofrer faz parte da vida”. “Não estou sozinho”. “Todos experimentam isso, assim como eu”. “É assim que as pessoas se sentem quando têm essas dificuldades”. Assim, você estará normalizando a sua experiência e a sentir que ela não é diferente, errada nem inadequada. É humana.
  • Por fim, pratique consigo mesmo a autobondade, dizendo: “Que eu possa ser gentil comigo”. “Que eu possa dar a mim mesmo o que preciso”. “Que eu possa ser paciente”. “Que eu possa me perdoar”.
  • Se estiver tendo dificuldades em encontrar as palavras certas, imagine que uma pessoa de quem gosta está tendo o mesmo problema que você. O que diria a essa pessoa? Perceba se você consegue oferecer a mesma compaixão a si mesmo.

No fundo, entenda que ter maturidade emocional não é não precisar dos outros. É saber que você precisa de você. E se você quer estar disponível para celebrar sucessos consigo mesmo, precisa estar disponível para se acolher nos fracassos.

Por isso, ser compassivo com os seus processos é um dos principais indicadores de que amadureceu. Porque só quem aprende a responder à dor com afeto (em vez de fugir dela), é capaz de lidar com a vida de forma segura, leve e potente.

Quer aprender a lidar com as emoções? Conheça o primeiro passo

 


MÁRCIA INÊS COELHO é terapeuta e especialista em inteligência emocional. Ensina pessoas e grupos a gerir suas emoções, a reconstruir a sua autoestima e a conectar-se com uma vida mais livre, leve e autêntica. Compartilha diariamente os seus textos e conteúdos de educação emocional em seu perfil no Instagram (@marciainescoelho).

Leia todos os textos da coluna de Márcia Inês Coelho em Vida Simples.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

 


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COMENTÁRIOS

  • Alexandre Camargo

    Comecei o ano lendo “Devoradores de Estrelas” e acabei, eu, devorando o livro que tem uma narrativa quase cinematográfica e flui muito bem pelos capítulos curtos que entrelaçam o momento presente com o passado, tornando a leitura praticamente uma obsessão para saber como aconteceu tal coisa e o que irá acontecer em seguida.

    Responder
    • Vida Simples

      Obrigada pela indicação e relato, Alexandre. Pode animar outras pessoas!

      Responder
  • Chris

    Que texto!!!!
    Me identifico com algumas situações e agradeço pelas dicas!!

    Responder
    • Vida Simples

      Que bom! Alguma lhe tocou mais, em especial?

      Responder

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