Aprenda a se perdoar

  • TEXTO Sibele Oliveira
  • FOTOGRAFIA Fuu | Unsplash
  • DATA: 05/07/2021

Enxergar o que deu errado em nossa história com olhos mais generosos nos libera para seguir mais leves e felizes

O mundo de Flora Darde era feito de cores, brilhos, formas rústicas e delicadas. Com os desenhos criados em sua imaginação, produzia peças para enfeitar mulheres. E isso a fazia feliz. Um dia apareceu um obstáculo inesperado em seu caminho: o diagnóstico feito por um médico reumatologista. Ela estava com artrite psoriática, uma doença autoimune que provoca muitas dores pelo corpo.

Aquela notícia tirou do lugar a vida da moça sonhadora e determinada, que era uma reconhecida designer de acessórios em Florianópolis. Ela não poderia mais espalhar beleza para longe como tanto gostava de fazer. Pelo menos, por um bom tempo. Flora sabia que ali começava sua jornada rumo ao desconhecido que era aquela doença e o que a tinha causado. Mesmo com o corpo doído, ela se debruçou em leituras para entender o que estava acontecendo, criou uma página no Instagram para conhecer pessoas com o mesmo problema, procurou religiões e fez toda sorte de terapias.

Culpa

Durante essa viagem para dentro de si, ouviu de uma psicóloga que precisava se perdoar. Essa descoberta aconteceu quando Flora visitou o passado sem pressa de voltar. A morte do pai tinha sido muito dolorosa para a menina sensível de 8 anos, assim como a perda da melhor amiga no início da adolescência, depois de um dia feliz que passaram juntas.

Mas ela se obrigava a ser forte, a engolir o choro e mostrar que estava tudo bem. E assim se manteve até os 32 anos de idade. Percorrendo cantos escondidos de sua vida pregressa, Flora também percebeu que não havia perdoado algumas pessoas como acreditava. “Fui guardando tudo isso e a minha bagagem ficou pesada demais. Eu criei aquela doença. Todos os profissionais que busquei diziam isso, pois a doença autoimune é o corpo atacando a gente.”

Perdão

Culpou-se por ter causado mal a si mesma. E naquela sessão de terapia se deu conta de que o caminho de volta à saúde passava pelo autoperdão. “Só me perdoando eu ia melhorar.” Inclusive da depressão que esvaziava toda a sua força.

Como Flora, às vezes somos muito duros conosco. Não nos perdoamos pelos erros cometidos, por ter feito mal a alguém mesmo sem intenção, pelas oportunidades perdidas e por escolhas que com o tempo se mostram equivocadas. Castigamos a nossa mente e o nosso corpo sem pensar que não é possível trocá-lo se ele não aguentar o tranco.

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Crédito: Kiyana EpmuI | Unsplash

Como disse o poeta Mario Quintana: “Não importa que a tenham demolido. A gente continua morando na velha casa em que nasceu”. Muitas vezes, essa demolição começa com uma palavra aqui, um gesto ali, uma indecisão ou um pequeno arrependimento que não parece ser nada demais.

Quando menos esperamos, a casa cai.

Peso dos ombros

Quando recebi a encomenda desta reportagem, me lembrei de uma senhora que entrevistei para um documentário sobre cuidados paliativos. Quando perguntei se ela tinha algum arrependimento na vida, fez um gesto afirmativo com a cabeça. “Me arrependo de não ter aprendido a dançar.

É uma bobagem. Mas eu gostaria muito de ter aprendido a dançar.” Deu essa resposta acompanhada de um sorriso, já que era assim que Clara enfrentava o câncer que tomava conta do seu corpo. Mas o riso terminou triste. Aquela expressão revelou que ela não se perdoava por ter perdido a chance de riscar o chão com passos embalados por uma bonita melodia. Cada vez que não aceitamos nossas falhas, acumulamos culpas, mágoas, tristezas, decepções, vergonhas e cobranças internas.

“Esses sentimentos surgem em resposta a situações vividas. E a falta de autoperdão nos prende a essas situações. Ao ficarmos presos ao que aconteceu, paralisamos”, resume Roberta Pohl, psicóloga e doutora em ciências do comportamento pela Universidade de Brasília. E não adianta varrer as feridas da alma para debaixo do tapete, porque basta um pequeno movimento do
manto que cobre o chão ou um buraco na  trama do tecido que elas reaparecem.

Tratar com carinho

Kristin Neff, psicóloga e autora do livro Autocompaixão – Pare de se Torturar e deixe a Insegurança para trás (Editora Letra Lúcida), diz que não há quase ninguém a quem tratemos tão mal quanto a nós mesmos. Não se perdoar funciona como uma punição dada por quem julga sua conduta e se sente culpado por ela. Nós a usamos como um chicote que fica a postos, em caso de necessidade.

“É preciso parar com o autojulgamento e exercitar as autoavaliações. Parar com os rótulos de ‘bom’ ou ‘mau’ e simplesmente se aceitar de coração aberto. Devemos nos tratar com a mesma bondade, carinho e compaixão que dedicamos a um bom amigo ou mesmo a um estranho”, resume a escritora.

Alguns acontecimentos ficaram para trás há tanto tempo que pensamos tê-los esquecidos. Ficam como que cobertos por uma camada grossa de poeira, mas continuam lá, machucando a nossa alma. Temos medo de mexer no que está quieto e que pode doer como um corte em cima de outro que ainda não cicatrizou, sendo que se perdoar é o único jeito de ficarmos livres
de pesos que às vezes carregamos por toda a vida. “O autoperdão permite que a pessoa se aceite, tenha uma avaliação realista de si e volte a crescer. No início pode ser doloroso, porque ela tem que assumir sua condição, suas falhas e retomar um contato maior consigo. Parece que ela cai um pouquinho, mas na realidade está avançando”, afirma Carlos Serbena, professor de psicologia da Universidade Federal do Paraná.

Remédio poderoso

Os sentimentos que travam o autoperdão são fantasmas que não se cansam de nos atormentar. Eles aparecem como um eterno lamento pelo que ocorreu, quando ficamos imaginando como seria se tivéssemos agido de outra forma ou brigamos com o tempo porque ele não volta. Não nos deixam entender que fizemos o nosso melhor no momento ou mesmo lembrar que errar é humano. E que não sabemos o que teria acontecido se nossas decisões fossem outras. Felizmente, esses sentimentos têm conserto. “É possível reparar o mal que fazemos a nós mesmos com o entendimento da situação toda que ficou mal resolvida ou do sentimento que está nos prendendo.

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Crédito: Prottoy Hassan | Unsplash

Entendendo isso, é possível mudar”, diz. Quando nos criticamos, não conseguimos compreender nossas imperfeições. Iniciamos uma discussão insensível dentro de nós que nunca termina, e que abre caminho para doenças emocionais como a ansiedade e a depressão. Para transformá-la num diálogo amável, podemos usar a arma mais eficiente para combater a autocrítica, que é nos olharmos com compreensão. “A autocompaixão pode nos ajudar a navegar por essas corredeiras turbulentas com um coração aberto e sábio”, observa Kristin.

A autora diz que a compaixão por si mesmo é feita de autobondade, reconhecimento de que não somos os únicos a ter decepções e inadequações, e atenção plena, que nos puxa para o presente e permite que a gente viva as experiências com consciência e equilíbrio, sem ignorar a dor nem senti-la com exagero. Autocompaixão significa se tratar com gentileza. Usar a empatia, essa palavra tão na moda, para nós. O aconchego de contarmos conosco traz uma sensação de segurança e relaxamento como sentimos quando recebemos um abraço macio e afetuoso. “Podemos acalmar e confortar a nossa própria dor, assim como uma criança se acalma e é confortada nos braços da mãe”, completa Kristin.

Não é preciso esquecer

Quando não evitamos as emoções negativas, como se elas fossem um assunto proibido, elas vão se tornando suaves até desaparecer. Como uma tempestade que, quando a gente se dá conta, já foi embora. Então o nosso coração vira um terreno preparado para nascerem emoções boas. Não é preciso esquecer o que se passou, até porque as memórias não se apagam.

Podemos conviver com elas sem que nos causem dor. “Com o autoperdão, a gente dá um sentido ao sofrimento. Quem se autoperdoa assume os erros e se transforma para seguir adiante”, enfatiza Carlos. No Novo Testamento, da Bíblia, Jesus orienta Pedro que perdoe até setenta vezes sete, usando uma figura de linguagem para falar sobre ser capaz de perdoar inúmeras vezes. E devemos fazer dessa lição um exercício diário, também perdoando a nós mesmos. Por mais difícil que seja fazer isso, é a única maneira de termos uma autoimagem mais generosa.

As angústias e dores são uma espécie de gruta que nos veda de qualquer contato com o lado de fora, onde é possível encontrar paz e felicidade. É desse lugar que Flora está saindo, dois anos depois de ter descoberto a doença. “A experiência de me conhecer e me aceitar foi grandiosa. Ainda tenho muito o que aprender, mas o caminho está aberto”, diz. De tanto se olhar, ela pensa em mudar de carreira e fazer faculdade de psicologia para ajudar outras pessoas. O mergulho que fez em si a ensinou a escutar seu corpo e suas emoções e não deixar nenhum sentimento mal resolvido.

Flora está animada para saber o que a espera, agora que voltou à superfície.


SIBELE OLIVEIRA acredita que escrever sobre o que sente também ajuda a se perdoar pelo que já passou .


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