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Como encontrar o nosso ritmo e viver com mais calma
Simon Maage

O horto florestal era o parque da minha infância: as árvores frondosas, os bugios que pareciam dançar entre os galhos, o grande lago na entrada, com pedalinhos que hoje já não existem mais, e as vias cheias de espaço. Era um convite tão bom para aquilo que toda criança (ou ao menos as que eu conhecia) gostava de fazer… Mas sempre tinha um adulto para interceptar a atividade e dizer: “Devagar! Vá devagar!”. É que a gente gostava de correr. O vento balançava os cabelos e também contava um segredo no nosso ouvido: “vai, você está livre por esses instantes, jogue-se no mundo com vontade”. 

Talvez por isso, quando comecei a ficar um pouco crescida, não entendia quando as pessoas grandes diziam “estou correndo”. Aquilo causava um nó, digno de cadarço, nas minhas ideias: “como assim, está correndo?”. Aquele “correr” era bem diferente do correr da minha criança. A pressa que os adultos tinham para levar a vida parecia não ser a mesma que a nossa. Foi aí que entendi a grande diferença: o cheiro do correr da infância era mesmo o de liberdade, mas o do correr adulto era o de aprisionamento. 

Se você também gostava de correr, pode ser que se lembre dos momentos em que também parava e se demorava nas plantinhas do caminho. Nas formigas enfileiradas, no avião que cortava o céu, no cachorro ouriçado da vizinha, nas pombas ligeiras que moram nas calçadas e nos fios de eletricidade. Eu já tinha me esquecido dessas minúcias de uma vida que se alarga nas miudezas, até que meu filho de pouca idade começou a me recordar que, mesmo se ele corre para ver o cachorro ou para tocar na folha, ele está contemplando a vida que a gente, na correria de tantos afazeres, talvez tenha se perdido em reparar. Como é possível, em meio a tantas demandas, obrigações – especialmente agora, no final do ano –, encontrar um ritmo mais ajustado, que nos permite ver a vida e não viver como se estivéssemos apostando uma corrida contra ela? 

Nas miudezas, o cheiro da vida

“Cuidar das minhas plantas com muita delicadeza, o que consiste em tirar pó de folha por folha.” Essa era uma das atividades da agenda lotada da Patricia Merck nas primeiras semanas em que ela passou em casa, depois de sair de um trabalho no qual havia permanecido durante oito anos. Entre tantas atividades, também tinha a de “sentir o doce cheiro de mel que a árvore exalava quando estava menos bonita”, ou “brincar com a cachorra muitas vezes ao dia”. 

Conheci Patricia quando ela me escreveu querendo me apresentar o livro que produziu durante esse período de ócio, o Maybe a Book – Meu Caminho de Volta para Casa. Quando conversamos, as palavras e as ideias de Patricia pareciam atravessar o telefone em um abraço de quem reconhecia como esse universo acelerado parecia não só nos vendar diante do mundo, mas também fazer o corpo adoecer. 

Depois de passar por diversos episódios de estresse e crises de ansiedade que comprometeram a sua saúde, enquanto era gerente de marketing de uma empresa de tecnologia, Patricia percebeu que o modo de vida tão alucinado que ela levava não fazia o menor sentido. “Passei dias me sentindo mal, até que me levaram ao hospital. Minha pressão estava tão alta que os médicos achavam que eu estava drogada. Lá, fui medicada e fiquei uns três dias fora do ar. Descobri que era hipertensa e que aquela rotina de tantas demandas estava prejudicando a minha vida”, relembra. Patricia decidiu que aquele ambiente profissional não lhe fazia mais bem. Então, resolveu dar um salto de confiança na possibilidade de um viver mais alinhado ao que ela sentia. Preparou a sua demissão de forma planejada, refletida, e assim seguiu. “Quando fui me despedir de todos, o principal desejo dos meus colegas de trabalho era: ‘sucesso!’”, lembra. Sucesso… 

Para além de toda a rica história por trás da jornada dela nessa redescoberta de si mesma, de sua carreira profissional e do quanto isso reverberou em um novo jeito de trabalhar e de viver, algo muito valioso se revelou da nossa conversa quando desligamos o telefone: o convite à reflexão sobre o que é ter sucesso, e sobretudo o que é viver no piloto automático da vida, cumprindo tarefas e demandas sem contemplar a caminhada que realmente faz sentido para cada um. “O ritmo, a expectativa, a abundância de informação e até mesmo a tecnologia nos tornaram reféns de algo que nem sempre escolhemos. Parar, avaliar e ressignificar é preciso. Cuidar do corpo e da mente é fundamental”, escreveu Patricia em Maybe a Book.

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 Estamos todos cansados

Eu tinha uma desconfiança de que a forma como boa parte de nós se relaciona com o trabalho poderia, também, representar uma demasiada aceleração e ocupação na rotina, nos tornando pessoas mais fazedoras e menos contemplativas, sem espaço para o respiro da alma. Pois o filósofo sul- -coreano radicado na Alemanha, Byung- -Chul Han, escreveu um importante e já aclamado ensaio exatamente sobre o assunto. No Brasil, foi publicado em forma de livro sob o título Sociedade do Cansaço (Vozes). Na obra, Han reflete sobre como uma sociedade extremamente positiva e multi- tarefas, que reforça a habilidade de fazer diversas coisas ao mesmo tempo e onde tudo é possível, nos coloca num contexto de excesso de estímulos. O resultado disso é uma atenção ampla, mas extremamente rasa, “como a de um animal selvagem”, diz. 

O que Han tem apontado é que esses excessos nos levam a uma inquietação, e nisso buscamos atividades constantemente. Nessa lógica, estamos sempre ocupados, já que nunca podemos parar de ser produtivos. O “fazer alguma coisa” vira um valor supremo, enquanto o “não fazer nada” não nos dignifica. Só que o conhecimento mais consistente da humanidade veio a partir de uma atenção profunda, contemplativa, defende o autor. “Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E haja vista que se tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo”, escreve Han. “Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual.” 

Para sair dessa “rodinha do hamster”, em que os dias passam, as demandas se acumulam e a gente só sente que rendeu se ticou tudo o que foi proposto – e, quando concluídas as tarefas, logo damos um jeito de adiantar as próximas –, o antídoto de Han é dizer não. É negar esse nosso gestor interno que sempre quer mais. Essa capacidade de limitar o excesso de estímulos é mais ativa que a nossa “hiperatividade contemporânea”, ele diz. 

E para falar em desacelerar, em ser capaz de seguir um ritmo interno mais legítimo e menos forjado pelas demandas do mundo, é preciso olhar também para o que temos como valores importantes, a forma como enxergamos a realidade. Culturalmente, há um status em estar sempre ocupado. “A gente leva o referencial de produtividade do trabalho para a esfera pessoal e aí o desocupado é tido como aquele que deu errado na vida. Reclamamos que estamos correndo muito porque assim é sinal de que demos certo, de que somos pessoas de sucesso”, observa Guilherme Spadini, professor na The School of Life sobre temas como fracasso e calma. 

“É algo razoavelmente novo na humanidade, essa ideia de que você pode causar mudanças no mundo. De que você não pode se acomodar. Então a crença é a de que podemos realizar qualquer coisa, dominar o mundo, ficar milionários. Se você não ficou, é porque não se mexeu”, diz Guilherme. Trago a reflexão de que o tempo virou dinheiro ao longo da história, especialmente pós-revolução industrial com a otimização das máquinas e os meios de produção. Guilherme concorda: “É a mercantilização do tempo. Nessa ideia, parar é como perder dinheiro. Então, tem que fazer o tempo render, fazê-lo funcionar para alguma coisa”, observa. Aí, não deixar que esse pensamento se infiltre nas nossas horinhas de descanso e lazer é mesmo o grande desafio. 

Outro fator que, segundo Guilherme, tem nos feito acelerar cada vez mais é o nosso foco no resultado final, porque estamos sempre com o olho lá na frente, em vez de desfrutar da trajetória. “Eu acho que isso também tem a ver com o nosso sistema econômico. O capitalismo parte de uma insatisfação, do correr atrás de algo melhor, dessa confiança no futuro. Num certo sentido, isso nos coloca atrás de alguma coisa, num processo chato para, então, chegar a um lugar bom. É uma correria que também nos acelera. Estamos sempre correndo, e não aproveitando o caminho”, observa. E, se a gente não sabe bem para onde vai, qualquer caminho serve. Por isso, Guilherme diz para nos questionarmos por que é que fazemos o que fazemos. Encontrar um propósito e um sentido naquilo que vai preenchendo nossos dias e nossa vida pode ser um bom jeito de vivenciar melhor toda a caminhada num ritmo mais bem-ajustado. E, também, uma forma de olhar para nossos próprios vazios. O que é que escondemos tanto dentro da gente quando ocupamos demais a vida?

Fim do ano, não fim do mundo

Percebo como essa aceleração parece se potencializar no final do ano. Não sei se também acontece com você, mas sinto que tudo vira uma corrida contra o tempo. Fim de ano letivo, provas, metas nas empresas, festas e encontros de despedida, amigos secretos com diversos grupos, a lista de presentes para o Natal… E aquele nosso jeitinho de deixar tudo para a última hora, o combustível que faz a adrenalina mover essa engrenagem de um jeito alucinante. Quando entendi que essas demandas eram um gatilho para a minha ansiedade, passei a priorizar. Criei o mantra “é o fim do ano, não o fim do mundo”. Se não deu para encontrar todos os amigos antes da virada, no ano seguinte serão 365 oportunidades. E, se aquela lista de presentes puder se transformar em sugestões mais afetuosas e menos pautadas pelo consumo, ótimo. 

“Nessa época, a lógica do nosso sistema se potencializa. E vivemos muito o apelo do consumo, da ideia de que só ama de verdade se puder presentear com itens caros. E isso também faz girar toda a roda da ace- leração”, me diz a professora e jornalista Michelle Prazeres. Michelle é idealizadora da plataforma DesaceleraSP, que agrega pessoas em torno do movimento slow, com eventos, palestras, cursos em empresas e conteúdos para quem quer desacelerar. A velocidade certa, no entanto, não é possível (e nem desejável) ditar. “Desacelerar não é necessariamente ir devagar, mas é humanizar a vida, as relações. É sair do piloto automático”, diz. É o que Michelle chamou de “não, pera”: aquele momento em que nos damos conta de que estamos só seguindo um padrão automático de agir, e não aquilo que verdadeiramente se conecta com o nosso ritmo. “Porque às vezes, naquele contexto, a velocidade faz sentido, e tudo bem. A questão é quando a gente opera num piloto automático. Desacelerar é uma luzinha que se acende: ‘por que estou fazendo isso?’, ‘precisa ser desse jeito? Só correr, sempre correr?’”, observa Michelle. 

Ela me fala que tirar esse pezinho do acelerador da vida é, na verdade, combater os excessos que a sociedade criou: de velocidade, de consumo, de comunicação. E é recobrar os próprios sentidos. Porque, na correria diária, abrimos mão do sentir, da conexão com o corpo, com as pessoas, com as nossas necessidades. “É olhar para esse jeito de estar no mundo que não cessa e problematizar essa correria. Sucesso é sinônimo disso? A que custo?”. E aí me lembro da Patricia, que descobriu seu sucesso nas “horinhas de descuido”, como diria Guimarães Rosa, ressignificando a rotina. “Hoje coloco pequenos cuidados que tornam o dia mais leve, como um café da manhã, que antes eu nunca fazia por estar sempre atrasada”, lembra Patricia. 

Nesse movimento, as nossas escolhas são um ato de coragem, mas é também coletivamente que vamos encontrar um novo caminho. Afinal, não dá para colocar só na nossa conta aquilo que o cenário também impõe. Fico mais certa na ideia de que a vida não precisa ser um saco que se enche de tarefas. Chego em casa e tem alguém olhando lá fora pela janela. Me sento ao lado dele. Vejo o avião se esconder nas nuvens, o cachorro ouriçado da vizinha. Há muita vida para se contemplar.

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