Acalmando nossa tempestade interior

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Bulat Silvia (IStock)

Como manter o equilíbrio quando emoções intensas impedem o pensamento racional e retiram o seu equilíbrio? 

Tudo à sua volta está dentro da mais absoluta calma, mas dentro da sua cabeça há um mar agitado por ondas gigantes. Um pensamento vem, depois outro, depois outro. Há uma espécie de looping. A sensação é que a qualquer momento, você vai sair de dentro de você. Chega o fim do dia e, apesar da exaustão, a tempestade não passou. Você se prepara para encerrar um dia de trabalho, mas eis que surge mais uma tarefa. Algo simples, mas você vai às lágrimas. A meio da noite, você acorda. Olha o relógio. São três horas da madrugada. Você tenta voltar a dormir, mas o cérebro está em plena atividade. Está ocupado antecipando as tarefas do novo dia, do futuro; preenchido com o que já passou e com o que não pode ser corrigido. E você — mais uma vez — relembra todas as razões racionais para estar em paz, para voltar a dormir…

Se isso parece familiar, não se preocupe, você não está sozinho. De uma maneira ou de outra, com mais ou menos frequência, somos sacudidos por emoções intensas. E muitas vezes não temos competência para fazer face a elas.

Compreendemos a utilidade das emoções (assunto já tratado por aqui). Elas mostram as nossas necessidades, nos movem para a ação. A raiva entra em ação como um escudo ou uma arma. A alegria nos fortalece, aumenta a nossa força. A rejeição treina as nossas defesas. Sim. As emoções são nossas aliadas. Mas em doses elevadas — ou com muita intensidade — elas podem destruir o nosso gosto pela vida. Podem nos adoecer.

O que sentimos fazem o que somos

Ao longo do nosso processo de amadurecimento, aprendemos (ou não!) a regular o que sentimos. Há pessoas que lidam bem com a raiva, outras perdem a cabeça. Há quem quase não sofra com um rompimento amoroso e há quem perca o gosto em viver. Ao longo da vida, vamos aprendendo a reconhecer e a lidar com o que sentimos. Aprendemos a equilibrar o que sentimos com o que pensamos. Aprendemos que a dor da perda pode ser suavizada com pensamentos racionais. Afinal, sempre podemos “expor” a nós mesmos a faceta negativa de um projeto fracassado. Seguindo a mesma lógica, podemos arrumar distrações e substitutos para uma falta que insiste em doer. Um vazio pode ser preenchido com novas emoções. Podemos construir diques que diminuem o fluxo violento das águas emocionais.

Com mais ou menos sucesso todos “regulamos” as emoções. É como se quebrássemos em pequenos pedaços as pedras grandes que temos que carregar. Kierkegaard, filósofo dinamarquês, afirma que não temos o poder de fazer com que as emoções desapareçam, mas podemos acalmá-las, diminuir a sua força e assim, conseguimos tolerá-las melhor.

O problema é que nem sempre somos bem-sucedidos. Às vezes, o que sentimos é mais forte do que nós. É mais forte do que o nosso racional, superam as nossas manobras de diversão. Opressoras e desoladoras, as emoções ­­— é preciso que se diga — são uma parte de nós. Deveríamos saber lidar com elas. Ocorre que, muitas vezes, não estamos no nosso melhor e a nossa capacidade de luta está enfraquecida. Especialmente quando estamos fragilizados, atingidos por situações excepcionais (como uma pandemia, por exemplo). Mesmo pessoas com um histórico de resiliência podem ser surpreendidas.

Treino precoce

Desde muito cedo, aprendemos a lidar com o que sentimos. E a educação que tivemos diz muito sobre a forma como equilibramos o que sentimos e o que pensamos. Se uma criança teve pais que não validaram ou foram negligentes com o que ela sentia, provavelmente será um adulto com dificuldade em regular suas emoções. Há adultos que são incapazes de lidar com suas emoções porque na infância foram ensinados a escondê-las. E é preciso que se diga, isso é mais comum nos homens — pelo modelo machista de educação.

regulação emocional

Povozniuk (IStock)

O resultado são pessoas que passam a vida a fugir do que sentem. Não são capazes da entrega emocional e têm problemas com compromisso e outras exigências das relações. Geralmente, são adultos superficiais, guiados pelo que os amigos e o meio em que vivem decidem. Não são capazes nem de muita alegria, nem de muita tristeza. Vivem em permanente fuga de si mesmos. E como a fuga permanente não é viável, para manterem-se à tona, precisam de estratégias, como os vícios — cigarro, álcool e outros aditivos ­— os escapes típicos das emoções soterradas.

Mas há quadros piores. Em alguns casos, a incapacidade de lidar com emoções fortes tem como consequência a depressão, a ansiedade, o pensamento suicida e vários tipos de síndromes e transtornos de personalidade. Sem contar, as somatizações, a materialização de distúrbios psíquicos em doenças físicas. Há estudos, por exemplo, que associam às doenças autoimunes as emoções não digeridas.

Regulação emocional

Para quem não está na categoria dos que respiram fundo,­ contam até 10 e arrumam o assunto, o que fazer? Para um primeiro passo, começo por Spinoza. Especialista em tudo o que nos afeta, ele afirma que o sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que formamos dele uma ideia nítida. Depois de saber exatamente com que estamos lidando… aceitar. E aceitação plena. É dizer: ok. Isso me aconteceu, o que faço agora? Proíba-se de remoer o que aconteceu. Concentre-se apenas nos próximos passos. E, nessa fase, não conte apenas com seu pensamento racional, busque reforços. De quem? Do corpo.

Corpo como trincheira

Não é bobagem. Tanto quanto o cérebro, o corpo pode fazer muito por nós. Ele pode ser um grande aliado quando somos dominados por emoções poderosas. Quando o que você sente é grande demais, coloque o corpo no combate. De pé, respire fundo e incline o tronco até suas mãos quase tocarem a ponta dos pés (se conseguir tocar, melhor). Se você tiver medo de cair, há a sugestão de Marsha Linehan, no livro Building a Life Worth Living (Construindo uma vida que vale a pena, não editado no Brasil). Ela recomenda esse exercício na posição sentada. Bem assente nos ísquios, dobre o tronco até a cabeça ficar entre os joelhos. Tanto numa postura como na outra, respire lenta e profundamente e relaxe (de 30 a 60 segundos).  Linehan, psicóloga criadora da Terapia Comportamental Dialética — um tipo de psicoterapia que combina ciência comportamental com conceitos como aceitação e atenção plena — afirma que a flexão para frente ativa nosso sistema nervoso parassimpático. Sistema associado ao descanso e à digestão, ele nos ajuda a desacelerar e acalmar (atenção: quando terminar os exercícios de respiração, convém voltar a posição normal calmamente para evitar quedas). Com a prática assimilada, tente fazer com que a expiração seja mais longa do que a inspiração. Não menospreze o poder da respiração. Funciona!

O que eu sinto?

Após esse primeiro passo, o que se segue é o reconhecimento: saber exatamente o que você sente. Você não vai conseguir aceitar e lidar com uma emoção se você não sabe qual é essa emoção. A falta de repertório emocional é muito comum nas crianças, mas infelizmente, é cada vez mais comum também nos adultos. No que toca as emoções, há adultos que vivem no cenário de um filme de Tim Burton: visibilidade mínima. Perdidos, num constante estado de náusea, vagueiam em meio a emoções sem nome. O que você sente? “Não sei”.

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Volkan Olmez (Unsplash)

Há muito que testemunho o analfabetismo emocional. Atenta a isso, desde muito cedo, tentei ensinar o meu filho. Às vezes, ia apanhá-lo na pré-escola e assim que ele chegava no carro, começava a chorar. Eu vislumbrava logo um dia difícil ­— a pré-escola pode ser um campo de guerra para os rapazes. Começava por tratar do corpo. Tirava-lhe o casaco, dava-lhe água. Perguntava o que houve e ele não dizia nada. Não sabia. E já não valia a pena. Já estava a salvo. Desde essa época, comecei a sua alfabetização nas emoções. Assim que ele entrava no carro, eu dizia: “o meu dia foi péssimo. Aconteceu-me isso e agora eu me sinto assim. Mas, não há problema. Quando eu chegar em casa vou tomar banho, vou relaxar. E você? Como foi o seu dia?”.

Com o tempo vi o meu filho contar que se sentia injustiçado porque foi castigado pela professora. Impotente, porque um “amigo” mais forte o empurrou do escorregador etc. E também notei os avanços. Às vezes, ele chegava, contava o dia ruim e já tinha a solução. Com o seu português precocemente perfeito, disparava: “mamã, o dia correu-me mesmo muito mal e, hoje, eu preciso mesmo dormir contigo”.

Aprendizado para vida

Seja cedo ou seja tarde, o aprendizado sobre as emoções nunca chega ao fim. Nós mudamos. O que não feria quando tínhamos 20 anos, pode nos ferir aos 30. O que alegrava ontem, é distúrbio hoje. E sempre há desafios inéditos. Afinal, o repertório da vida para nos surpreender não tem limites. Sem contar, a complexidade desses tempos. Em doses individuais, todos sabemos o que é raiva, alegria, ciúmes… Mas é quando eles surgem todos juntos e misturados? Como saber se o que você chama de tristeza, não é ansiedade.

Possivelmente é sobre essa avaliação que fala Spinoza. Como combater o que não conhecemos? Quando uma emoção tomar conta de você, tente saber qual foi a origem, o que você pensou, o que aconteceu no seu corpo. Reveja todas as suas reações. Você pensou em fugir, gritar ou atirar objetos. E quais foram suas reais ações? Essas perguntas vão ajudá-lo a nomear suas emoções. Identificadas, lidar com elas será muito mais fácil. As emoções obedecem a regrar: nomear para domar.

Valide-se

A etapa seguinte é acarinhar as emoções reveladas. E aqui pode estar a solução de todos os dramas. Sim, porque, às vezes, o nosso maior inimigo somos nós mesmos. Podemos transformar uma chuva passageira numa tempestade permanente. Às vezes, somos nós que aumentamos a intensidade de uma emoção quando JULGAMOS o que sentimos. Nesse exercício, além dos sentimentos, adicionamos a culpa, a vergonha e a raiva de nós mesmos. É a história do “depois da queda” . “Como não vi esse buraco enorme”. “Fui mesmo estúpida” . “Como fui negligente com a minha vida!”

Seja gentil com você. Validar não quer dizer que você goste da dor, do sofrimento. Significa apenas que você aceita o que está sentindo. Depois da aceitação, depois de compreender o que você sente, combata a emoção com outra emoção contrária. Emoção contra emoção. Você está furioso e ansioso para dizer umas verdadeiras para o seu parceiro ou o seu vizinho barulhento… Pare e tente pensar neles de forma gentil. Tente se lembrar de coisas boas que você aprecia neles, por exemplo. A validação é calmante, é chá de camomila na vida.

Mas sem exageros. Não existe emoção certa ou errada. Só devemos “manipulá-las”, agir contra elas, quando elas ficam fora do controle, se tornam opressoras e nos adoecem. Gostamos de mimar a nossa mente racional, mas a mente emocional também merece ser festejada. Ela não trás apenas dor e raiva, ela também é a casa da alegria. É a fonte da nossa capacidade de amar. E é dela que vem todo o nosso gosto em viver.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e mestre em filosofia. Mora em Portugal há 18 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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