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Prestar mais atenção aos seus sentidos pode mudar sua vida
Ruslan Zh | Unsplash
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Já esteve numa situação em que tudo era exatamente como você havia idealizado? Cenário, paisagem, forma e conteúdo… tudo era como você havia sonhado. Só havia um senão: os seus sentidos acusavam algo errado. O racional iniciou o rastreador, tentou encontrar o problema, mas não encontrou nada e seguiu viagem. Diversas vezes, os sentidos insistiam, mas o racional desconsiderava os alertas. E, claro, sempre com justificativas: “Toquei em algum botão ‘sem querer’”; “algo sem importância acionou um gatilho emocional de uma experiência má do passado”; “é o meu sabotador interno que não me deixa ser feliz”.

Na nossa vida de todos os dias, essa dinâmica está sempre se repetindo. Seguimos viagem, mesmo com a discordância dos sentidos. Ocorre que de costas voltadas para os sentidos, a experiência do caminhar fica comprometida. Sem o aval dos sentidos, existimos em modo artificial, diluídos, com a potência diminuída. É a sensação desconfortante de “não estarmos em nós”.

Negligenciar os sentidos

Se você tem memória de uma situação como essa, está com sorte. A maioria das pessoas nem experimenta esse nível, pois a negligência com os sentidos já é tão automática que nem chega ao nível do registro. Os sentidos foram soterrados pela supremacia do racional e pela crença generalizada de que os nossos sentidos — os cinco mais conhecidos — atrapalham. Acredita-se que eles estão obsoletos, foram úteis apenas no nosso passado evolutivo como sistema de defesa.

Assim, desde o cartesiano “Penso, logo existo” que o empirismo — a percepção da vida através dos sentidos — vem perdendo terreno. A modernidade passou a construir sistemas de conhecimento completamente divorciados da experiência sensorial-corporal. O mundo dos sentidos está debilitado, negligenciado pela velocidade tecnológica e soterrado pelo peso do racional.

O resultado é que vivemos uma vida cada vez mais rasa e sem intensidade. Os dados estão substituindo os sentidos. Estamos mais interessados nas informações do rótulo da garrafa do vinho do que no sabor do vinho.

Estamos mais interessados em fotografar uma cidade do que desfrutá-la. Em vez de nos estendermos no perfume de uma floresta, preferimos o registro de uma selfie. No encontro de dois corpos, já não é possível a entrega intensa à experiência física através dos sentidos, um grande pedaço de nós está ocupado com avaliações e comparações de performance.

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Sentir o mundo

Apesar desse cenário desolador, há boas notícias — afinal, a modernidade é mestre em arrumar soluções para os problemas que ela mesmo cria. Há várias vozes que deram o alerta e partiram para reverter a queda livre dos sentidos. Dentre essas vozes, está o cineasta nova-iorquino Joshua Sternlicht que idealizou as Liminal Sessions, uma espécie de workshop dos sentidos que a cada edição conquista adeptos e hoje já forma uma espécie de comunidade. Faz dois anos, Joshua elegeu a mítica Serra de Sintra, em Portugal, para essas experiências. É um convite para sentir o mundo: olhar, cheirar, sentir, escutar e saborear. A “experiência” explora, através dos sentidos, o limiar — ou limite da liminaridade — o espaço intermediário entre o consciente e o inconsciente.

O programa foi inspirado na sua experiência profissional, na forma como o cinema utiliza os sentidos para construir histórias que nos definem, nos formam, nos mudam e que seguem o caminho da nossa mente, das emoções e dos nossos sentidos. De acordo com ele, as práticas sensoriais nos mantêm enraizados e conectados. É o caminho mais direito para entendermos a nós próprios e o mundo à nossa volta. A ideia é trabalhar com toda a percepção sensorial disponível no nosso corpo, na mente e no coração. O consciente e o inconsciente entram em diálogo através dos sentidos, como o exemplo de quando um cheiro específico despoleta uma memória ou emoção da nossa infância, da qual não temos propriamente consciência, mas que nos afeta a um nível consciente e inconsciente.

“Nessa experiência, nós reconstruímos o conceito holístico ao explorar os mundos interior e exterior, imersos na natureza e em cenários intimistas”, diz ele. Músicos da vertente “sons que curam” e comida orgânica compõe a experiência. “Trata-se de uma experiência completa do que significa ser, e não fazer, tentar ou pensar. Uma espécie de curadoria para o despertar dos sentidos”, diz Joshua.

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O corpo primeiro

É preciso que se diga que isso não significa que o racional não é contemplado. O que ocorre é que nessa experiência, o caminho é o inverso do que ocorre no nosso dia a dia, onde o racional está em primeiro plano. A abordagem concentra-se no corpo, nos sentidos e nas respostas instintivas e que depois levam a informação para níveis superiores de organização cerebral. Ora, eis o funcionamento holístico, um campo com muitas opções terapêuticas, uma maior abertura à mudança, transformação.

De acordo com Joshua, a ideia é “reeducar” o corpo. Escutar, descobrir, afinar a sensibilidade dos nossos corpos para abrir espaço a novas revelações e ensinar a mente. O corpo é um instrumento de expressão da nossa natureza. É o que permite o nosso espírito viver, rir, dançar. É o espírito vivo enquanto corpo. Os resultados práticos? “Crescimento e desenvolvimento pessoal, libertação de padrões de pensamentos tóxicos, ressignificação do tempo, abertura de canais criativos. Há uma espécie de reprogramação mental, resgatamos o nosso eu autêntico e faz-se uma espécie de ligação direta aos nossos maiores desejos e os nossos maiores medos”.

Corpos distraídos

Dessa forma, há outras experiências que contemplam esse mesmo objetivo como os retiros. A ideia é eliminar todas as distrações externas que possam comprometer a experiência do corpo. Através de práticas como a meditação, entra-se numa espécie de vivência total dos sentidos. O professor de Filosofia da Universidade de Lisboa, Paulo Borges, autor do livro Presença Plena (Farol Editora) afirma que viver distraído é uma forma cômoda de se desresponsabilizar e há um preço a pagar por isso. “É através das emoções que nós conseguimos dominarmo-nos e crescer interiormente. Se não sentimos, não aprendemos e desperdiçamos oportunidades; não conseguimos de verdade saber quem somos e o que estamos a fazer na Terra”, diz ele.

Para o professor, essa é a missão do ser humano: viver em pleno. “E o viver em pleno é cuidar de todas as nossas partes. E os prejuízos desta desconexão estão à vista. Primeiro vem a doença espiritual, a seguir, a física: o vazio, a depressão. Paulo Borges conduz workshops em Portugal e em outros países onde ensina a prática do enraizamento no aqui e no agora. Um trabalho de conexão entre espírito, mente e corpo com o objetivo de descobrir quem somos e o nosso propósito nesta vida.

O que somos, o que realmente sabemos atravessa o nosso corpo. As grandes aventuras humanas, como o êxtase, a decepção, a entrega, a rejeição, só são vivenciadas, na sua mais completa tradução, pelo corpo.

Não se trata de condenar o racional e o consciente. Somos seres indivisíveis. E o corpo não é apenas o lugar onde vivemos. Nós somos o nosso corpo. As nossas porções mental e espiritual, só existem na materialidade do corpo. É ele que sustenta e serve de base para a nossa essência verdadeira.

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