Mais compaixão, por favor

  • TEXTO Bruna Prospero
  • FOTOGRAFIA Jerimy Cai | Unsplash
  • DATA: 04/02/2019

Era manhã de uma quinta-feira qualquer quando decidi entrar em uma loja de artigos naturais em busca de uma opção mais saudável para o lanche. Duas mulheres me chamaram a atenção, pareciam ser amigas de longa data, à procura de alguns óleos essenciais na seção de cosméticos. Não resisti às risadas e papos engraçados entre elas e, confesso, prestei mais atenção nelas do que nas minhas compras. Uma delas, perdida entre milhares de opções, pediu que o atendente lhe mostrasse essências que promovessem “autoestima”, “autoconfiança” e “amor-próprio”, enquanto parecia sublinhar essas palavras em uma página do seu caderno. A outra ficou surpresa em perceber que a amiga buscava “exatamente o que também estava precisando” e confessou que nunca pensaria que a “sua amiga mais bem-sucedida” também precisasse de mais autoestima.

O diálogo não é novo. A busca por um sentimento de aceitação própria é tema que vem sendo refletido e assunto de várias rodas de conversas entre amigos (ou na sala do psicólogo) independentemente de cargos ou status de vida pessoal. Convido-o a reparar nas pessoas do seu convívio e em você mesmo. Estamos todos no mesmo barco à procura desse caminho. Mas o papo entre essas amigas me fez refletir que, de certa forma, crescemos aprendendo a aplaudir os outros e a rebaixar nossas próprias conquistas, talvez pelo medo de parecermos “esnobes”. Muitos estão acostumados a responder um elogio com alguma frase de autodepreciação, mostrando que a realidade não é lá grande coisa. O irônico é que, simultaneamente a esse padrão, a competitividade nos é incentivada desde muito cedo também. Ou seja, a autodesvalorização acontece ao mesmo tempo em que buscamos ser melhores que os outros. É contraditório, mas é real. Sob esse olhar percebi que a autodepreciação, a competitividade e o narcisismo andam lado a lado, de mãos dadas.

Autocompaixão é fundamental

Para tentar assimilar essa dualidade e um caminho saudável para o cultivo do amor-próprio, mergulhei fundo no tema tentando entender como podemos lidar com essas questões com mais leveza. As reflexões foram muitas e, por isso, convido-o a pegar um chá, escolher um lugar confortável para se esticar e embarcar nessa viagem comigo. Ler o livro Autocompaixão — Pare de se Torturar e Deixe a Insegurança para Trás (Lúcida Letra), da pesquisadora que dedica seus estudos ao tema Kristin Neff, foi um alívio para essas aflições. O título, confesso, me pareceu um pouco clichê, mas Kristin mostra por A mais B que a autocompaixão é mais benéfica do que o pensamento de perfeição que vem acompanhado da autoestima. A primeira também nos protege da ingrata autocrítica, mas sem as desvantagens de uma autoestima elevada, que pode nos induzir a nos enxergarmos como pessoas perfeitas ou melhores do que os outros. O que nunca é uma verdade, porque é impossível sermos 100% melhores que alguém.

Nos livrarmos do peso de sermos sempre aprovados ou melhores é uma forma de nos desbloquearmos. Lembrei da fala do escritor brasileiro Frederico Elboni, em um de seus vídeos, disponíveis no YouTube, em que conta que, se fosse imaginar o que cada pessoa pudesse pensar ao ler seus textos, ele simplesmente não escreveria nada. Essa frase me tocou e percebi que isso vale para o processo criativo dele (e meu!), mas também para as pequenas decisões diárias. Parar de criar expectativas (negativas ou positivas) nos poupa do medo de não “sermos bons o suficiente” e além disso nos ajuda a acolher uma possível opinião desagradável sobre nós.

Se procurarmos estar apenas confiantes o tempo todo, qualquer obstáculo nesse caminho poderá nos desestruturar. Se alguma circunstância nos mostrar que não somos tão bons quanto a autoestima nos afirma, teremos dificuldades em lidar com a frustração. Uma nota abaixo da nossa expectativa, um corte de cabelo que não sai como esperado, a dieta que não muda os ponteiros da balança, o elogio que não vem… Somos humanos. Acredite, certamente todos nós encontraremos algumas pedrinhas no fluxo do rio da vida e, se encararmos esses desvios com compaixão, certamente percorreremos um rio mais tranquilo, com um percurso mais leve.

O rio é a metáfora que a monja Jetsunma Tenzin Palmo usa para falar sobre o assunto no livro No Coração da Vida — Sabedoria e Compaixão para o Cotidiano (Lúcida Letra). Ela mostra que, assim como um rio, a vida é fluida e não temos o poder de controlá-la. Em uma das passagens ela comenta sobre um insight que teve em um momento de extrema mudança em sua trajetória: “A verdadeira segurança reside não em se agarrar à segurança, mas em se sentir seguro dentro da insegurança”. Percebe que aceitar nossas supostas limitações é mais poderoso do que buscar uma segurança eterna?

Percebi que a palavra que faltava no caderno da moça em busca dos óleos essenciais — e talvez a que falte nas nossas rodas de conversas — é “compaixão”, com ela mesma e com os que estão em volta. Sim, porque antes de dar colo e acolher a si próprio é preciso desenvolver a compaixão pelos outros também. Criticar a performance do colega em uma reunião, por exemplo, posteriormente nos traz a autocobrança em relação ao nosso próprio desempenho. A mesma coisa acontece quando julgamos o corpo ou a atitude do outro. Tratar os outros com carinho ajuda a nos tratarmos dessa forma diante das frustrações. Além disso, é um jeito de deixarmos a “cultura da competição” de lado e lembrarmos que estamos todos no mesmo barco. Todos temos um pouco daquela mulher à procura dos óleos essenciais ou de outros métodos que façam com que nos sintamos melhor.

E devemos ter cuidado para não confundir autocompaixão com autopiedade, pois são diferentes, mas a linha pode ser tênue. A segunda tende a nos colocar em um lugar de “vítima” e com isso pode nos boicotar em vários aspectos. A autocompaixão sempre vai olhar com carinho para nossas imperfeições e pensar em como podemos melhorá-las através da autorresponsabilidade, enquanto a piedade as olha com pena, conformismo e geralmente culpa os outros.

Por onde começo?

Se você, assim como eu, depois de refletir sobre isso já está se cobrando e se criticando, pode parar! Como Kristin diz, o primeiro passo é aceitar que a nossa cultura não nos incentiva a sermos autocompassivos, mas podemos começar a mudar esses padrões pouco a pouco; e não se culpar por isso é um ótimo começo! Tenha paciência durante o processo.

Tenho, ainda, uma boa notícia para compartilhar com quem está em busca desse caminho: não estamos procurando nada que está fora de nós. Durante os segundos finais de um workshop com a monja Jetsunma, que esteve no Brasil no mês de abril, ouvi o seguinte: “Nossa essência é amor e compaixão, não é preciso procurar fora. É preciso olhar para dentro”. É o que também me disse a nutricionista Marise Berg, que preza uma alimentação consciente. Ela nos convida a olhar para dentro e refletir sobre o que nos nutre verdadeiramente. “Em geral, não estamos familiarizados com o mundo interno. Estamos acostumados a tentar desvendar os mistérios do que está acontecendo lá fora, mas temos pouco conhecimento de como a nossa mente funciona, como os pensamentos influenciam nossas emoções, e como — muitas vezes — eles refletem no corpo, causando tensão nas costas, constipação ou soltando o intestino, por exemplo.” E, por isso, é comum que muitas pessoas se alimentem para preencher um vazio ou para mudar uma sensação ruim. E aqui estamos falando sobre a nutrição do corpo, da mente e da alma. Tudo que recebemos pelos sentidos é alimento. Pense não só em relação a comida mas também a cultura, conversas, leituras, companhia, clima, viagens.

Foi em busca de algo que a nutrisse (em todos os sentidos) que a ortoptista Ana Paula Capolleto resolveu sair do “script” e ir surfar. Depois de anos deixando essa vontade de lado, ela olhou para dentro e percebeu que isso a nutre verdadeiramente. Pegar onda tem sido uma atividade que ela faz feliz, mesmo que tenha que descer a serra sem a companhia da família (filho e marido) — mas vai com um sorriso enorme. “Descobri um grupo de mulheres que fazia viagens para a praia com aulas de surfe, e embarquei nessa. Foi simplesmente maravilhoso!”, conta. Além de ter olhado para dentro com amorosidade e ter encontrado algo que fizesse sentido para ela, Ana Paula pode compartilhar suas alegrias e aflições com um grupo. E é esse o caminho! Segundo a pesquisadora Kristin Neff, a autocompaixão é sustentada por três principais pilares: a capacidade de praticar a autobondade, o reconhecimento de que estamos todos juntos nessa experiência e a habilidade de olharmos para os fatos como um observador externo (atenção plena). Em resumo, é preciso olhar e aceitar as nossas dores e delícias de sermos exatamente o que somos, sabendo que compartilhamos das mesmas sensações e emoções, mas que as trilhas percorridas podem ser diferentes. E para encontrá-las é preciso nos livrarmos dos acontecimentos externos.

Mas eu ainda sentia que faltava alguma coisa nesse tripé e fui conversar com a terapeuta holística Renata Puga. Por fim, ela me lembrou que é importante sermos gentis com nossas próprias falhas, mas também é preciso reconhecer nossas virtudes. Não ter vergonha de aplausos e, acima de tudo, conseguir bater palmas para suas conquistas. “Não se sabote pensando que teve sorte em conseguir alguma coisa, provavelmente as conquistas vieram de um esforço e capacidade suas.” Esse processo de “não merecimento” é uma ilusão e pode atrapalhar o sentimento de gratidão pelas conquistas. Todos nós, afinal, merecemos a felicidade. Estamos neste mesmo barco, ufa!


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COMENTÁRIOS

  • Milena

    Que sincronia ter cruzado com este texto! Cresci em meio à tantos pensamentos de escassez que criar o sentimento de me sentir merecedora tem sido um processo intenso e libertador! Obrigada pela matéria! Amei!

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