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Não existe saúde mental sem o bem coletivo
Andrés Gómez

Como cuidar da saúde mental coletiva? O culto à individualidade e à competição é o oposto do que nós enquanto seres humanos precisamos para florescer.


 

Falar de saúde mental em uma sociedade que cultua a positividade tóxica, aquele otimismo que finge que não existem todas as mazelas do mundo externo e do mundo interno, é bastante desafiador.

Por quê? Somos seres sociais, nosso cérebro é um órgão que só se desenvolve no cuidado do outro e no afeto. Não teríamos evoluído até aqui enquanto sociedade se não fosse pela solidariedade, pelo senso de comunidade e pela união.

E o culto à individualidade, à competição que o capitalismo neoliberal promove é o oposto do que nós enquanto seres humanos precisamos para florescer. “Não consegue ter dinheiro pra fechar o mês? Acorde mais cedo e trabalhe mais! Só depende de você! Tendo força, foco e fé você consegue o que quiser! Pense positivo e você terá sucesso” são algumas pérolas do nosso tempo, onde o hiperindivualismo apaga o estrutural, as dificuldades sociais.

 

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Em tempos de volta pro mapa da fome, de milhões de brasileiros sem emprego, de mães que se desdobram e mesmo assim não conseguem criar sozinhas seus filhos que foram abandonados pelos pais, falar que apenas querer é conseguir tem o poder de mandar as pessoas para um buraco bem profundo: o da auto culpabilização.

Não há espaço para saúde mental onde o básico não está posto. Onde a dignidade não reside. Onde a sobrevivência não deixa espaço para a vivência. Onde a luta não dá lugar para o descanso. Onde o coletivo compete e não colabora. Onde só sobra o virtual, porque o real é muito duro, pesado e adoecedor.

Saúde mental começa com uma sociedade mais equalitária, com promoção de saúde. As pessoas precisam sentir o relaxamento de saber que haverá comida na mesa, escola pros pequenos e um teto sobre a cabeça por muito tempo, não só pra esse mês. A sobrecarga é muito falada como um dos pilares do adoecimento feminino, mas pouco se fala da luta pela sobrevivência, que está um passo antes da sobrecarga.

Se você está lendo e pensando que esse cenário está muito longe da sua realidade, saiba que você também é afetado. Nenhuma pessoa consegue ter paz de espírito, sentir segurança e confiança na vida (os grandes promotores da saúde mental) assistindo aos seus semelhantes comendo do lixo, escolhendo entre pagar o aluguel ou comer.

Não existe saúde mental sem o bem coletivo. Saúde mental é coisa social, antes de ser individual. Terapia não cura preocupação com a sobrevivência. As pessoas têm o direito à sua dignidade assegurada, e é pra isso que a gente se organizou em sociedade. É, não é?

 

 


THAIS BASILE é psicanalista, escritora, especialista em psicopedagogia institucional, palestrante, feminista pelos direitos das mulheres e crianças e mãe da Lorena. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @thaisbasile.psi.

Leia todos os textos da coluna de Thais Basile em Vida Simples.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

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