Saiba acolher

  • TEXTO Liane Alves
  • DATA: 03/01/2020

Receber um abraço demorado num momento difícil, um colo ou um carinho. Exercitar gestos singelos no dia a dia nos torna mais generosos e humanos não só com os outros mas com a gente mesmo

 

Diga lá: o que faria um pinguim nadar mais de 8 mil quilômetros todos os anos e ir das águas geladas da Patagônia até uma praia de correntes mornas na costa do Rio de Janeiro? Que bússola interna orienta essa pequena ave que a impele a se atirar na água e enfrentar os sofrimentos de uma viagem arriscada? E qual seria o tipo de recompensa que a faz voltar anualmente ao mesmo local? A única resposta é: o cálido acolhimento que ela sentiu por lá.

A história de Dindim, como o pinguim foi batizado, assim como outras que vou contar por aqui, pode nos ensinar muito sobre acolher e ser acolhido. Porque elas falam de nós, de nossas faltas, desejos e condicionamentos, e de  egoísmo, assim como daquilo que verdadeiramente nos traz amor e alegria, mas que a gente esquece. Dindim foi recolhido pelo pescador João de Souza quando o pinguim-de-magalhães surgiu na costa carioca, exausto, faminto e coberto de óleo. Com paciência, o pescador o alimentou com sardinhas e palavras doces. Deu banho e o deixou livre.  Mas Dindim não foi embora. E ficou mais 11 meses ao lado de João. Quando ninguém imaginava que ele fosse retornar para o sul, o pinguim partiu.

Até aí, tudo perfeitamente normal. A grande surpresa de todos na aldeia de pescadores, porém, foi vê-lo voltar durante os últimos cinco anos para visitar o pescador e sentir de novo aquele acolhimento. Carinho, proteção, segurança e alimento é tudo o que João significa para ele. Já a alegria de ter salvo uma vida é a felicidade de João. Um recebe e o outro dá, mas ambos estão igualmente felizes. E eis aí a grande lição do acolhimento amoroso: para receber bem é preciso sair da nossa zona de conforto e estar disponível para o outro. Também é bom aceitar com naturalidade o fato de que quem chega pode perturbar nossa comodidade, mas que mesmo assim vale a pena dar abrigo. Vencida a resistência inicial e a preguiça, o coração fica feliz com isso. Agora vamos conhecer os primeiros passos da estrada do acolhimento, algo que nos torna mais compreensivos e generosos com quem nos rodeia.

Autoacolhimento

Para praticar a arte de bem acolher é preciso, antes de tudo, aceitar-se integralmente. E isso inclui admitir o nosso lado sombrio, a faceta que queremos ocultar dos outros. Para que isso aconteça, porém, é necessário identificar e jogar luz sobre nossos defeitos e limites, sejam eles quais forem. “Ao inspirar de manhã na meditação, acolho a vida em sua inteireza: o bom e o ruim, o feio e o bonito, o dia chuvoso ou o sol escaldante. Simplesmente aceito a vida como ela é, sem querer impor nada. E esse abraço inclui a mim mesma”, diz Lucila Camargo, psicoterapeuta especializada em resolução de conflitos, que mora em São Paulo. E, ao aceitar a vida como ela é, sou também capaz de acolher pessoas com comportamentos diferentes dos meus, inclusive aqueles que eu não aprovo. E Lucila dá um exemplo: “A mãe que vai visitar o filho na cadeia e fala com ele com amor e carinho não está avalizando o crime que ele fez. Ela abraça o filho, que ama tanto, e não o seu erro”.

Com mais consciência de mim mesmo, também me torno mais tolerante e compreensivo: a visão mais nítida de nossos limites arrefece a vontade de jogar pedras nos outros. E mais outro benefício: o que está fora já não nos atinge mais com tanta força. E Lucila conta uma historinha para ilustrar essa capacidade da alma em ser flexível. “Um amigo foi visitar o outro e, depois de tomarem um café, resolveram passar numa banca para comprar jornal. Irritado sem motivo aparente, o dono da banca tratou mal o morador da região. Mas o homem continuou imperturbável. O colega dele ficou estupefato. ‘Como você conseguiu ficar assim, impávido, com aquele estúpido?’, exclamou. E o moço respondeu: ‘Também tenho os meus momentos de irritação. Além disso, não vou dar a ele o poder de perturbar a minha paz interior. O mau humor é dele, e não meu’.”

A história também mostra que acolher o outro com suas características e idiossincrasias pode ser o resultado de uma decisão interna inteligente, baseada no reconhecimento dos próprios defeitos (quando os conhecemos bem) e a exata percepção do que é meu e o que é do outro. Ficamos mais pacíficos e imperturbáveis assim. O próximo passo também é muito importante. Vejamos.

Saindo do próprio umbigo

“Para oferecer hospitalidade e acolhimento, e aceitar o outro como ele é, com suas diferenças e características, é necessário sair de si mesmo e de seus esquemas habituais”, diz o padre José Rosa, pároco da igreja Nossa Senhora da Saúde e decano responsável por todas as paróquias de Campos do Jordão, região serrana de São Paulo. E sair da zona de conforto, vencer a resistência inicial e não se render à preguiça, por si só, já ocasiona várias transformações. No acolhimento deixamos de focalizar apenas o próprio umbigo, o “eu”, o “mim” e, principalmente, o “para mim”, para deslocar o olhar para o outro. Passamos a considerar o que ele mais necessita naquele momento e o que nós podemos oferecer para aliviar seu desconforto. É uma mudança radical e transformadora do “eu” para o “nós”, um salto que pode nos modificar para sempre, principalmente se essa experiência for repetida mais vezes.

Atualmente, o acolhimento ao próximo pode se manifestar de muitas formas, não só ao oferecer abrigo, que sempre pode ser arriscado caso a pessoa seja completamente estranha, mas também ao acompanhar alguém até uma instituição que a receba de maneira responsável. Além disso, sempre é possível ajudar com palavras, auxílio material concreto, apoio e estímulo, ou ainda um longo abraço.

Simbolicamente, hóspedes e visitas também podem ser vistos como anjos disfarçados que costumam trazer uma mensagem muito importante para determinado momento. Nessa visão, o incômodo se torna uma bênção inesperada: um toque que precisamos ouvir ou uma ação do visitante que gera outros benefícios. Isso pode realmente acontecer, mas não é bom contar muito com essa possibilidade: muitas vezes o benefício gerado por uma ação generosa chega depois, por meio de outras pessoas, em circunstâncias bem diferentes. “Se pensarmos apenas numa recompensa imediata, essa boa ação se transforma num desejo de troca e deixa de ter valor”, diz com precisão o padre José Rosa.

A dor da rejeição

Se falamos do lado de quem acolhe, não podemos nos esquecer daquele que deseja ser acolhido. “Quem quer acolhimento precisa insistir e bater na porta mais vezes. É igual ao que acontece numa oração e precisamos repetir nossas preces”, exemplifica o sacerdote. Por isso, diante de uma porta fechada na vida, não desista tão facilmente. Insista, peça ajuda, organize-se melhor, reavalie seus planos. A resposta sempre pode mudar. Mas, se mesmo assim acontecer a rejeição, lembre-se de que existem várias maneiras de um coração enfrentar esse que é um dos mais doloridos sentimentos que podemos experimentar. Diante dela, é possível sofrer sem medidas e se deixar submergir ou sofrer para depois reagir e ir em frente. O melhor mesmo é não ligar muito para ela nem exagerar sua importância.

E esse é um bom momento para contar a história de Eudes, garoto caiçara de Boiçucanga, praia do litoral norte de São Paulo, e de como ele enfrentou a rejeição de sua cultura e condição social para se tornar um grande chef, com carimbos de diversos países em seu passaporte, e fonte de inspiração para um bem-sucedido projeto social.

Banana-verde e peixe azul

Eudes Assis tinha tudo para sofrer rejeição: era de uma família pobre, caiçara descendente de branco, negro e índio, e foi criado num bananal de onde quase não saía. “A verdade é que pertencia a uma cultura desvalorizada. Nunca passei necessidade extrema em casa, tínhamos tudo: peixe, tubérculos, ervas. Mas ninguém conhecia ou dava importância à imensa riqueza dos nossos valores culturais”, conta. Essa dolorosa realidade ele só foi entender muitos anos mais tarde, depois de viajar por vários países e estudar em Lyon, o maior centro gastronômico da França, onde trabalhou em cozinhas variadas.

A grande chance de Eudes chegou quando ele era adolescente. Luciano Boseggia, chef do estrelado restaurante Fasano, em São Paulo, deu um workshop num restaurante do litoral. O garoto se candidatou como assistente, Luciano se encantou com a habilidade dele na cozinha (que o menino aprendeu com a avó) e imediatamente o convidou para trabalhar com ele.

Já como profissional, e com bastante determinação, o rapaz levou um ano para juntar os 4 mil euros necessários para morar na França e estudar no sofisticado curso de gastronomia Le Cordon Bleu. Foi na Europa que, já adulto, Eudes presenciou um fato marcante. “Um dia, vi grandes chefs europeus quase chegarem aos tapas para defender as qualidades de determinado queijo da região de um, ou brigar pela excelência do vinho de outra. O que me espantou é que cada um deles sabia valorizar os produtos de onde vinham e que conheciam profundamente suas características. Percebi que nós, brasileiros, não tínhamos a menor ideia de como isso é importante para valorizar uma cultura.”

Por isso, quando voltou para cá, resolveu resgatar a culinária e os produtos de onde havia sido criado. Mais: transformou aquilo que era motivo de rejeição em orgulho para as 120 crianças caiçaras que atualmente participam do Projeto Buscapé, um programa educacional que as ensina a desenvolver sua consciência de cidadãos e devolver a autoestima por meio de aulas de cozinha, artes marciais e outras atividades.

Além do acolhimento dessas crianças (“acredito que tenhamos de devolver as bênçãos que recebemos na vida”, ele diz com humildade), Eudes é capaz de outras proezas: ganhou prêmio de chef revelação, dá workshops em Londres, tem um bufê que serve casamentos na praia e é reverenciado por profissionais da área. Ele também segue  valorizando sua cultura no restaurante Taioba, que mantém em Camburi, a poucos metros de onde nasceu. Um dos pratos principais do lugar é o peixe azul-marinho com banana-verde, que na panela de ferro ganha essa coloração azulada. Prato típico caiçara que aprendeu com a avó.

Assim, quando se sentir excluído e desprezado, lembre-se de Eudes. Seu exemplo mostra como existem mesmo diferentes formas de reagir à rejeição e ao não acolhimento.

Bonito como cavalo escovado

Ser acolhido é também sinônimo de ser amado, aceito, o mais arraigado e profundo dos desejos humanos. Quem não quer ser bem tratado e receber carinho por onde passa? Pois essa é a realidade cotidiana de um casal de aventureiros que roda pelo Brasil numa Kombi há mais de quatro meses, dentro do projeto Vivendo Mundo Afora. Os descolados e divertidos vídeos dos catarinenses Otaviano Marques Oliveira e Vanessa Monnier Corrêa já alcançaram um público considerável de cerca de 40 mil internautas que esperam ansiosamente, todos os dias, às 17 horas, para assistir a mais uma de suas aventuras (todas elas podem ser vistas no canal deles do YouTube). Então foi com alegria que os recebi em minha casa, em Campos do Jordão, para saber como foram acolhidos em estados variados do país. Não tive qualquer surpresa: foram bem recebidíssimos. E descobri logo o porquê. Os dois transmitem pureza, honestidade, seriedade e uma contagiante alegria. E, além disso, contam dezenas de boas histórias acontecidas em suas rotas. Quem não gostaria de ter gente assim por perto? “Somos recebidos em casas desconhecidas como parte da família, na maioria dos casos. E é impressionante a hospitalidade e o desejo das pessoas de ajudar e prestar serviço”, me diz Otaviano.

Quando os entrevistei, o casal já tinha acumulado perto de 700 convites de hospedagem de gente que os acompanha pelas redes sociais. Para atender a generosidade alheia, eles retribuem com o mesmo acolhimento, não dentro da Maria Eugênia, como é chamada a Kombi do casal, mas em encontros informais nas pizzarias das cidades por onde passam. “Nessas reuniões ganhamos doces, lembranças e muito carinho”, conta Vanessa.

Antes de me visitarem, Otaviano passou gel no cabelo (e ficou bonito como um cavalo escovado, segundo a expressão usada por ele) e Vanessa, que quase nunca faz maquiagem, contornou os olhos com lápis para realçá-los. Esses detalhes nos revelam outro segredo que faz alguém ser aceito de bom grado: eles deram importância à visita que iriam fazer, e se prepararam para ela. Além disso, os dois também não abusam do horário, tanto de chegada quanto de saída, só aceitam algo depois de muita insistência (como um lanchinho de bolo e uvas para comer no caminho) e, quando possível, retribuem as lembranças que recebem (nos deram um pedacinho de incenso de pau santo ao ganharem um rosário para pendurar no carro).

Durante a conversa, respeitam quem os escuta e dão oportunidade para todos se expressarem. Dessa forma, o casal nos dá boas chaves de como ter um acolhimento atencioso sem forçar ninguém a isso: não falam exclusivamente de si mesmos e se interessam pelas experiências dos outros. Tudo isso já é um bom caminho para começar.

Quando tudo se desfaz

Mas, vamos admitir também, tem vezes em que essa gentileza e consideração não é possível: é quando tudo desmorona em nossa vida e desabamos no colo de alguém. Em crises profundas, nossas bases, esperanças e certezas vão para o brejo. Tudo o que desejamos é sentir a força do holding, palavra em inglês usada por psicólogos que encerra vários sentidos, como apoio, segurança, afeto, proteção. Nesses instantes, só conseguimos vislumbrar o outro como uma tábua de salvação, alguém que nos consola e ampara, e que pode nos livrar da agudeza da dor. E, quando isso acontece, não pensamos se vamos ser incômodos, chatos ou inconvenientes. Simplesmente desabamos. Tudo o que queremos é ser confortados.

Nesses momentos também podemos buscar auxílio não só com os amigos mas com um bom terapeuta, ou mesmo em livros (a leitura de vida simples também ajuda). Práticas espirituais, independentemente da fé de cada um, também são válidas. Muitas pinturas de Jesus e Nossa Senhora, assim como divindades budistas como Tara e Kuan Yin, por exemplo, oferecem esse olhar de amor que tanto desejamos receber ao buscar conforto. São imagens que revelam compaixão. E, para muitos, pode ser mais fácil encontrá- la no céu do que na terra.

Na vida cotidiana, é o lado humanitário ou espiritual de quem ampara que é capaz de suportar esse peso que vem de quem precisa. Por isso, quando pedirem esse auxílio para você, não fuja. Tenha certeza de que essa generosidade vai retornar a você. O acolhimento que proporcionou vai ser transformado em instantes felizes em que você vai se sentir amado e aceito, da mesma forma como fez com alguém que precisava do seu abraço. Tudo está interligado e se corresponde. Acolher e sentir-se acolhido é uma moeda com dois lados. Só é possível ter um se temos o outro.

Liane Alves ama receber. Ela participou de um episódio do Vivendo Mundo Afora: youtu.be/GGfKIhamI_o


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