A cura e o consolo que vem da filosofia

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Giammarco Boscaro | Unsplash

A pergunta “para quê serve a filosofia?” tem sido feita com menos frequência. Nos últimos anos, essa ciência humana por excelência saiu do mundo acadêmico, ganhou palcos e livrarias e está na moda. Muitos tomaram como missão a popularização e a divulgação da filosofia.

A proposta não é nova, é uma espécie de regresso às origens: trazê-la para a praça pública, tal como Sócrates fazia há mais de 2.500 anos. Nas livrarias,  filósofos são best-sellers como o francês Luc Ferry e o suíço Alain de Botton.

No política europeia, jornalistas pedem a opinião de Peter Sloterdijk, o irreverente filósofo alemão com status de celebridade. O australiano Peter Singer, professor na Universidade de Princeton (EUA), é chamado a opinar sobre os desafios éticos dos novos tempos. No Brasil, dois dos mais populares palestrantes do país — Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho — são filósofos. E as iniciativas não param. Em 2008, Alain de Botton fundou uma espécie de escola de filosofia a “The School of Life”, com filiais em várias cidades do mundo, inclusive em São Paulo.

Isso porque o nosso tempo precisa da filosofia. Com o excesso de informação e a falta de nitidez e sentido, as pessoas são obrigadas a refletir sobre conceitos como ética, verdade, justiça, normalidade. Mas, os filósofos não são chamados apenas para os desafios da vida pública, são necessários também para a esfera privada. Desde o lançamento de Mais Platão e Menos Prozac, de Lou Marinoff, o aconselhamento filosófico vem ganhando terreno e conquistando adeptos. Estados de angústia, frustração e vários tipos de depressão (como a sazonal) são desencadeados por expectativas irreais e uma visão desfocada da vida, isto é, problemas filosóficos.

Um campo que também não é novo. Os dramas humanos são parte integrante da história da filosofia. E tão pertinente quanto a “para quê serve a filosofia?”, é a questão “o que a filosofia pode fazer por mim?” Em 523 d.C., o filósofo e estadista romano Anício Boécio fez todas as perguntas que gostaríamos de fazer a própria filosofia. E ela — encarnada e ficcionada em uma zelosa enfermeira —  respondeu. O fantástico encontro entre Boécio e a filosofia foi documentado na obra As Consolações da Filosofia. (Não confundir com a obra de mesmo nome de Alain de Botton).   Descrita como a mais importante e influente obra da filosofia ocidental — e também considerada a última grande obra designada como clássica — descreve boa parte dos dramas humanos, como o fracasso dos sentimentos de vingança, a escassez da boa vontade, o hedonismo descabido e os embates contra as muletas ideológicas.

A filosofia é como uma grande farmácia e apresenta remédios específicos para dores e males. Exemplos? Você vive assombrado pelo alerta de economistas e ecologistas que gritam que é preciso diminuir o consumo. E, para aumentar a sua culpa, você tem a casa soterrada de coisas que não usa e nem sequer lembra porque as comprou? E mesmo assim, o seu cérebro associa fim de semana a shopping?  O que fazer? Guie-se pelas lições epicuristas e pratique a frugalidade. Mas não se preocupe, Epicuro não é contra os prazeres. O que está por trás do conceito é a afirmação de que “aquele que não se satisfaz com pouco, não se satisfaz com nada”. Afinal quem não conhece alguém que tem tudo, pode tudo e não valoriza nada, não vibra com nada e vive entediado?

Há turbulências? Passar por fases difíceis faz parte da dinâmica da vida (mais ainda se a vida for num país propenso à catástrofes, como o Brasil). O que fazer? Lance mão dos ensinamentos dos estoicos. Aqui você ainda terá a vantagem de comprovar a sua eficácia com exemplos dos seus representantes maiores — Zenão de Cítio (o fundador), Sêneca e Epiteto. O estoicismo ensina a ver a vida como ela é, sem falsos romantismos e sem filtros enganadores. Para eles, a prática da virtude é suficiente para a felicidade. Daí vem a calma estoica, a confiança em você mesmo, a coragem para olhar a vida de frente. Pratique o bem e busque a justiça. Se o pior acontecer, você estará preparado e terá mais condições — e munição adequada  — para enfrentar as consequências.

Nada é mais desolador e difícil de suportar do que o amor não correspondido. Nos desgostos de amor peça a intervenção de Arthur Schopenhauer. Como o pessimista rabugento que escreveu “hoje é ruim e cada dia torna-se pior, até que o pior de tudo aconteça” pode consolar uma sublime vítima do cupido? Exatamente por esse contraste. O eminente filósofo, bem nascido e rico, ensinava a menosprezar o insucesso nessa área (e também o sucesso — em teoria, ele era contra o casamento). Nada de dramas românticos, nada de fatalismos. É apenas a biologia fazendo o seu trabalho. O objeto do seu amor nada tem de fabuloso e o encontro com a divinal criatura nada tem a ver com um plano articulado por Deus. Foi simplesmente o que o seu corpo biológico detectou para o banal e incontornável acasalamento. E aí você tem a explicação. E para a rejeição, por o outro não sentir o mesmo? Também não é para se afligir. O outro também não tem domínio sobre isso. Não é nada pessoal, contra você. Todas as histórias de amor são justificativas para algo muito simples: o impulso sexual.

E a contribuição de Schopenhauer não é apenas teórica, ele tinha larga experiência no assunto: foi rejeitado inúmeras vezes. E para que conste, parte do seu insucesso amoroso deve-se ao fato dele figurar na classe dos “sem noção” — uma categoria excessivamente populosa nos dias que correm. Aos 43 anos, Schopenhauer recebeu o último “não” oficialmente documentado, verbalizado pela insensível Flora Weiss. Durante um passeio de barco, onde Schopenhauer abre o seu coração, Flora deixa cair as uvas oferecidas pelo filósofo de propósito. A bonita e sensual beldade de 17 anos afirma que rejeitou as uvas porque sentiu repugnância porque o velho Schopenhauer as havia tocado.  Ok. Olhando assim, em largas pinceladas, parece um consolo um pouco cínico, algo como “as uvas estão verdes”,  mas, acredita, é muito eficiente.

Já houve fases em que você se deparou com uma decisão muito difícil e com desdobramentos ainda mais difíceis? Como um divórcio, por exemplo. A tarefa exige protagonistas em pleno vigor, mas o que há são pessoas em frangalhos, infelizes e com autoestima em escala negativa. E para piorar, você se sente incompreendido e sozinho porque não há um único ser vivo que apoie a sua decisão. Todos acham que você deve esperar e pensar melhor.

Eu estive exatamente nessa situação. E sabe quem me salvou? Nietzsche. Enquanto meus familiares mais próximos e amigos diziam “não faça isso, é uma loucura”,  Nietzsche dizia: “eles não estão na sua pele, não sentem o que você sente. A melhor pessoa para avaliar é você, e só você”. E quando parecia que até o universo tentava me travar e minha disposição fraquejava, Nietzsche segurava na minha mãe e dizia: “É a sua vida que está em causa, não recue diante de nada”.

Quando você estiver envolvido numa grande batalha e precisar encarnar uma personalidade beligerante e altiva que você não tem, mas que precisa para se manter à tona, Nietzsche é o melhor conselheiro que alguém poderia desejar. E vivia o que pregava. Foi um combatente incansável durante quase toda a sua vida. E não se preocupe com as sequelas no fim do embate: você não se transformará em um martelo furioso. Nietzsche, apesar da vida pouco feliz, não era de rancores e ódios, era bondoso e compreensivo. O seu legado é o dos filósofos vitalistas, defensor da vontade humana e da vida como ela é. Foi vencido pela doença, mas lutou até o fim. Debilitado, intercedeu ao ver um cocheiro maltratar um animal e, abraçado ao cavalo que acabara de ser açoitado, Nietzsche teve um colapso.

Seja qual for o consolo que você precisar, você poderá obtê-lo agora, neste momento. E nem sequer é preciso ir a uma livraria. Todas as obras mencionadas, devido a sua antiguidade, são de domínio publico, estão disponíveis na internet, em pdf. Identifique a sua situação, escolha o filósofo e transforme o seu sofá num divã.

 

MARGOT CARDOSO (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, contará histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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