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Procedimentos estéticos: vontade própria ou pressão externa?
 (Foto: Joeyy Lee/Unsplash) Procedimentos estéticos devem ser analisados com cautela
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Ao descer pela timeline de qualquer rede social, em algum momento você vai se deparar com influenciadores que estão cada vez mais “iguais”: boca, nariz, formato do rosto, barriga… Pessoas que vemos apenas pela pequena tela de um smarthpone mergulharam em uma onda de procedimentos estéticos semelhantes e, uma hora ou outra, nos atingem de alguma forma, positiva ou negativa. No segundo caso, pode até levar a um quadro de transtorno dismórfico corporal, um distúrbio caracterizado pela preocupação excessiva com imperfeições na aparência.

Com esse bombardeio de conteúdos que levaram a um boom de busca por uma beleza irreal na sociedade, especialistas alertam que, antes de realizar qualquer procedimento estético, é necessário considerar diversos fatores para identificar o que é a própria vontade do indivíduo ou uma influência externa. Essa pressão por procedimentos estéticos não vem apenas da internet, mas também dos núcleos sociais, como família e amigos.

Um estudo realizado pelo cirurgião plástico Alexandre Kataoka mostra esse impacto da mídia na percepção da própria imagem e na saúde mental. As participantes responderam um questionário de Atitudes Socioculturais em relação a aparência (SATAQ-3) e a Escala de Sintomas de Transtorno Dismórfico Corporal.

Das 38 pacientes, 44,74% demonstraram influência direta da mídia sobre sua autoimagem e apresentaram sintomas de transtorno dismórfico corporal. Outras 34,21% também foram influenciadas pela mídia, mas sem sintomas do transtorno, enquanto apenas 21,05% afirmaram não sofrer essa influência e não apresentam sintomas.

Como saber se é vontade própria ou pressão estética?

A psicóloga Priscila Oliveira sugere uma reflexão antes de tomar qualquer decisão: “Se ninguém opinasse sobre sua aparência e você não pudesse postar o resultado nas redes sociais, ainda assim faria esse procedimento?”. Segundo ela, se a resposta for positiva e esse desejo já existia antes de influências externas, há uma grande chance de que seja algo genuíno. Por outro lado, se a vontade surgiu após comparações ou comentários alheios, “é importante refletir melhor”.

Procedimentos estéticos e outros fatores contribuem para a impressão de que há um ideal de corpo perfeito a ser alcançado. Uma busca por um padrão de beleza. Quando a decisão vem acompanhada de muita insegurança e necessidade de aprovação, já é um sinal de alerta. Acreditar que mudanças estéticas vão resolver questões emocionais, como autoestima ou aceitação social, pode ser um engano.

“Filtros, iluminação, poses estratégicas e cirurgias criam um padrão inatingível que muitas pessoas tomam como real”, explica Priscila. Isso faz com que a insatisfação com a própria imagem aumente, levando algumas pessoas a acreditarem que uma intervenção estética será a solução para problemas emocionais e de autoestima.

Para aqueles que estão em dúvida sobre um procedimento estético, a recomendação é parar e refletir. “Se a vontade já existia antes e vem acompanhada de segurança e bem-estar, talvez seja algo a se considerar. Mas se surgir uma comparação ou necessidade de aprovação, é melhor analisar com mais calma”, alerta a psicóloga.

Não é sobre ser contra procedimentos estéticos, mas sim garantir que a escolha seja feita de forma consciente e saudável para, inclusive, evitar arrependimentos. Cirurgia plástica é também qualidade de vida. Mulheres e homens podem passar pela experiência de se sentirem incomodados e afetados emocionalmente por alguma característica física e decidirem recorrer a intervenção cirúrgica.

O papel dos médicos nessa decisão

O cirurgião plástico Alexandre Kataoka afirma que os próprios médicos responsáveis pelas cirurgias podem ajudar os pacientes nesta decisão sensível e importante. Afinal, são mudanças na aparência que, em alguns casos, podem ser revertidas, mas em outros, são permanentes.

Ele também recomenda uma reflexão profunda sobre os reais motivos do desejo. Além disso, sugere conversar com profissionais qualificados e, se possível, fazer acompanhamento com psicólogo. A decisão só deve ser tomada quando houver clareza, segurança e motivação pessoal, livre de pressões estéticas.

“A autonomia do paciente é fundamental, mas o cirurgião plástico deve estar atento a sinais de influência externa. Uma avaliação criteriosa, que inclui escuta ativa e, quando necessário, aplicação de questionários psicológicos ou encaminhamento a psicólogo, pode ajudar a identificar se o desejo parte de uma insatisfação interna genuína ou de pressões externas, como comparações com padrões irreais”, diz.

Alguns sinais dentro do consultório são levados em consideração para identificar quando a pressão estética afeta o paciente: mudanças repentinas de comportamento; discurso pautado em agradar terceiros; referências constantes a celebridades ou influenciadores; expectativas irreais; e insatisfação persistente com múltiplas partes do corpo.

E se houver arrependimento após o procedimento estético?

Nem sempre o resultado vai ser o esperado. Imagina a sensação de se olhar no espelho e não se reconhecer? Em alguns casos, os procedimentos estéticos mudam completamente o rosto e tiram características próprias da pessoa. Características essas que fizeram parte de toda uma vida.

Acolhimento. Essa é a palavra-chave. Nessas situações, Priscila ressalta que o primeiro passo é receber acolhimento e entender o sentimento sem culpa. “Foi uma decisão tomada dentro de um contexto, e se punir por isso não ajuda. O mais importante é reconstruir a autoestima e trabalhar a aceitação corporal, buscando um valor que não dependa apenas da aparência”, explica a psicóloga.

Para Kataoka, também é essencial acolher o paciente e oferecer suporte psicológico. “O cirurgião deve evitar julgamentos e, junto a um psicólogo, auxiliar o paciente a trabalhar a autoaceitação, evitando procedimentos corretivos imediatos sem a devida reflexão”, diz.

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