Nutrição amorosa

  • TEXTO Ana Holanda
  • FOTOGRAFIA Pablo Merchán Montes | Unsplash
  • DATA: 12/11/2019

A  nutrição amorosa de Marcia Daskal diz que não existe alimento bom ou ruim, mas aquele que nosso organismo pede ou precisa. O problema é que a gente não está se ouvindo

O consultório da nutricionista paulista Marcia Daskal é fora do padrão. Quando você entra, ainda na sala de espera, avista uma cozinha ampla, com uma mesa grande e acolhedora. Lembra cozinha de casa da avó (ou da mãe). Espaço de aconchego. Diferente. Marcia não usa jaleco, recebe com um abraço caloroso, e o conduz para um cômodo com cadeiras confortáveis (dessas que abraçam) e prateleiras com livros de literatura – e não apenas compêndios sobre nutrição.

Mas, dependendo do dia, pode ser que a nutricionista sugira que o atendimento aconteça na varanda, com um copo de suco para refrescar o dia encalorado. É, Marcia definitivamente não é nada padrão. E, quando ela começa a falar, isso fica bem claro. Difícil até definir quem é, o que faz. Porque ela não enxerga a nutrição como uma equação de calorias, na qual as somas ou subtrações dão origem a um cardápio.

Nutrição amorosa e a mudança de olhar

Para ela, mais importante do que isso, é entender a história das pessoas, seus hábitos alimentares, suas necessidades, e a partir disso ajudá-las a organizar a alimentação. “O problema é que as pessoas estão se impondo regras rígidas demais, sem dar ouvidos para o seu querer mais íntimo”, diz. E a saúde, como fica? Para ela, é claro que a saúde é importante, mas isso vem junto quando passamos a ouvir o que nosso corpo pede ou precisa. “Quando você trata seu corpo com carinho, ele lhe dá isso de volta.”

Marcia começou a carreia como nutricionista em academias de esportes de São Paulo, há quase 20 anos. Mergulhou nesse universo, trabalhou com atletas e escreveu um clássico na área: Nutrição Esportiva: Uma Visão Prática (Manole), para profissionais que trabalham com atividades esportivas de alta performance.

Só que, em determinado momento, a nutrição esportiva passou a não ter mais graça, não fazia brotar paixão dentro dela. Hora de dar uma pausa. Foi o que fez. E depois desse tempo de reflexão e estudos surgiu a atual versão da Recomendo, seu espaço de orientação, como ela gosta de dizer. “O que você faz, afinal, Marcia?”, questiono. “Faço nutrição amorosa. Ajudo a pessoa a encontrar o que precisa naquele momento e, dessa forma, transformar sua maneira de enxergar a comida do dia a dia.” Foi sobre esse olhar amoroso que conversamos.

O que é a nutrição amorosa?

É ajudar a pessoa a encontrar aquilo que faz sentido para ela. Por que você precisa tomar suco verde, com pão integral, uma porção de frutas ou cereais de manhã se não é isso o que quer ou que faz sentido para você? Muita gente faz isso porque alguém, em algum momento, disse que aquilo era saudável. O querer dela mesma, em geral, não é levado em conta.

Além disso, moramos em um país diverso. Em alguns lugares, o café da manhã é pão francês com manteiga e café preto; em outros é tapioca; há lugares que têm açaí com farinha na mesa logo cedo. Como posso ditar o que é certo para alguém? Cada pessoa tem que saber o que é melhor para ela. Não dá para terceirizar o que você deve comer. É você quem tem que saber. Mas estamos tão acostumados a fazer isso de maneira automática que não paramos para perceber se o corpo está pedindo suco verde ou café preto.

A gente não está se ouvindo?

Nem um pouco. E daí comemos de qualquer jeito: em pé, apressado, na marmita, justificando que tudo bem comer assim porque, afinal, aquilo é saudável. Mas não questionamos se é aquilo que queremos. Você come uma fruta e depois um iogurte e depois uma barra de cereal, quando, na verdade, queria apenas um pedaço de chocolate. Por que se enganar? Por que não ir direto para o que quer? No final, acaba comendo mais.

Gosto muito de perguntar para meus pacientes: se nada fizesse mal, o que você gostaria de comer? Na hora eles me respondem que se a lógica for essa, vão engordar facilmente. Não vão. Você vai passar a comer com mais atenção, e não em maior quantidade. A criança escolhe o que quer pelo cheiro, pela cara da comida e, quando está satisfeita, para. Quando desaprendemos a fazer isso? Mas, se é proibido, você quer aquilo de qualquer forma e em quantidade, porque não sabe quando vai saciar sua vontade de novo.

Como voltar a identificar os sinais de fome e de saciedade?

É fácil. É só tentar ser menos condicionado e levar uma vida com menos automatismo. Você pode, por exemplo, começar a comprar em outro supermercado. Pode ser da mesma rede que você gosta, mas em outro endereço. A compra fica menos mecânica, você escolhe com mais atenção, procura tudo com mais interesse. Fica mais presente naquele momento da escolha do que levar ou não para a cozinha. Experimentar um restaurante novo é outra sugestão. Porque você escolhe de maneira menos automática, analisa as possibilidades, está mais atento. Em casa, olhe o que há na geladeira e pense no que está com vontade dentro das opções presentes. É importante parar de pensar só em calorias. Pense: “O que eu quero comer hoje?”

As pessoas estão comendo mais certo ou errado?

Muita gente está comendo certo até demais e outras ainda se alimentam de maneira errada. Mas não é essa a questão. O que é bom ou ruim é variável. Estamos muito obcecados pelas regras, pelo que é saudável. O correto é pensar no que faz sentido para você naquele momento de vida. Então eu não digo para a pessoa que ela precisa comer alfafa – e tem gente que espera isso quando vai ao consultório de um nutricionista. Eu a ajudo a organizar sua rotina alimentar dentro daquilo que ela já come, porque se eu não fizer isso a transformação não acontece. A probabilidade maior é a pessoa pegar a receita, seguir por um período e depois voltar aos hábitos de antes.

Estamos carentes de alguém que nos dê a mão e caminhe junto, carente de uma nutrição amorosa. Não dá para só ditar regras e não olhar para a pessoa que está na sua frente. Se, por exemplo, comer pastel é gostoso para alguém, se aquilo vai tornar seu dia incrivelmente bom, por que não comprar um, de vez em quando?

Mas, se as pessoas ficarem fazendo concessões o tempo todo, isso não vai fazer mal?

Não. Quando a gente trata nosso corpo com carinho, ele retribui esse carinho. E você passa a prestar mais atenção naquilo que lhe faz bem, nas reações do seu organismo. Tem gente que começa, sozinha, a identificar que o alimento excessivamente gorduroso causou um enjoo ou uma dor de cabeça. E daí não vai exagerar naquilo. Ou se dá conta da delícia que é comer uma salada em dia quente, porque percebe que a digestão fica mais tranquila. É ouvir o seu corpo, que é também ouvir a si mesmo.

E, se a pessoa só gosta de comer doces, comidas gordurosas, tudo bem se manter assim?

Neste caso, é preciso fazer um trabalho de ajustar quantidades e qualidade do que se come. Você pode comer de tudo – não significa que deve, pelo menos não em quantidade. Mas o mais importante é aprender a se ouvir. Isso não significa mudar toda a alimentação, mas oferecer a você mesmo novas alternativas, novos caminhos. Quando faz isso, percebe que o corpo não pede só gordura e açúcar. Você mesmo pode se perguntar: “Isso está mesmo gostoso? Eu quero mesmo isso? Isso está alimentando meu corpo, minha alma?” Porque alimentar não é o mesmo que nutrir. É tratar seu corpo com a importância que ele tem; é ter autocompaixão.

A gente se rebaixa demais o tempo todo. Não gosta do corpo, do cabelo. Aprendemos a valorizar só o que não está bom, o que fazemos de errado. Quando estamos nos negligenciando, o corpo reclama – ele dói, a gente engorda, tem insônia. É muito maior que a comida. É muito mais do que apenas nutrientes. Tem paciente que começa desejando mudar o que come, mas percebe que é tão mais profundo que muda de emprego.

O que você diria para alguém que está incomodado com o peso?

Primeiro, é importante se perguntar se o incômodo é mesmo com o peso. Porque as pessoas costumam focar nisso, sem grandes questionamentos. Não existe um modelo para todos: fazer um tipo de exercício (por que treinar corrida se você adora nadar?), comer um tipo específico de comida (precisa comer verdura crua se prefere cozida?), fazer meditação (mas montar quebra-cabeça o coloca em fluxo). A ideia não é comer apenas para emagrecer, mas para se sentir melhor, feliz, com energia e vitalidade. Caso contrário, a pessoa vai, aos poucos, retomar os velhos hábitos, porque aquilo não tem nada a ver com ela. Foi colocado de fora pra dentro. E aí ela passa a colecionar dietas, matrículas de academia, fracassos, e para de acreditar na sua capacidade de mudança.

Como você define seu trabalho?

Sou uma orientadora de nutrição. Mas percebi que é pelo aconchego que consigo dar aquele empurrão que o outro precisa para mudar. Foi através da nutrição amorosa que encontrei a forma para ajudar as pessoas a transformar a vida, a olhar para si mesmas e para seu corpo. É um abraçar pela comida.

foto da nutricionista Marcia Daskal que criou a ideia de Nutrição Amorosa

Marcia Daskal


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