O que a vida pode ensinar, você tem abertura pra aprender?

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: Jef Delgado

Outro dia assisti o documentário AmarElo, em que Emicida, o rapper e gênio da música brasileira conta os bastidores do seu álbum vencedor do Grammy latino de melhor disco de rock ou música alternativa em língua portuguesa.

Por trás de cada letra, uma história, a história da cultura e dos movimentos negros no Brasil. Uma obra que nos ajuda a compreender o hoje, olhando pra ontem. Se você assistiu sabe bem do que estou falando, se ainda não coloca na listinha aí. O fato é que, seja através das músicas ou das entrevistas, Leandro Roque de Oliveira, nascido e crescido no “fundão da zona norte” de São Paulo em uma família com poucos recursos, me impressiona pelo seu repertório imenso.

Em uma mesma frase ou verso de música se juntam cultura pop, filosofia ocidental, religiões orientais e vivências urbano-periféricas. Por isso, no meio do filme, fiquei me perguntado de onde vinha tanta sabedoria em coordenar diferentes informações e produzir tanto sentido. A resposta estava no minuto seguinte, em uma fala do próprio Emicida.

“A horta foi uma faculdadezinha que eu fiz enquanto gravava o disco”.

Durante a produção de AmarElo, o cantor começou a fazer uma horta, inspirado pela biografia de Nelson Mandela. Para o líder sul-africano, cultivar uma horta foi uma forma de se manter são durante o período que esteve preso e também uma metáfora para aspectos da vida. Em cada detalhe, elemento e processo, um aprendizado. Emicida conta que foram as plantas que o ensinaram sobre rotina, respeito ao tempo das coisas, ver crescer o que se planta e se saber o que come. Um curso com diversas disciplinas práticas e utilidade pra vida que vai além do cultivo de legumes e hortaliças.

Da horta de volta ao repertório, Emicida nos ajuda a entender como a atividade de expandir nossos conhecimentos pode ser tão natural quanto o brotar de uma semente. O primeiro passo é tirar a aprendizagem de um espaço e tempo restritos. Não é só na escola, na academia ou em qualquer outra instituição de ensino formal que se adquire conhecimento. É nas faculdadezinhas da vida.

É na horta, na rua e na casa da avó, enquanto comemos broa de fubá com café, e ela conta causos que sintetizam sabedoria popular e ancestral, mas que prestamos quase nenhuma atenção. Aliás, há de se ter muita sabedoria para fazer uma broa de fubá. Mas talvez ainda não estejamos matriculados na matéria que ensinou Leandro a entender mais sobre o que come. E não entendemos que o lugar de aprender é a vida e que os professores são as pessoas e o próprio mundo.

Depois de libertarmos o conhecimento dos muros, vamos também ser capazes de encontrá-lo a qualquer momento. E aí, aquela ansiedade e frustração por não ter tempo para aprender, desaparece. Toda vez que falo sobre repertório, essa é a principal queixa que ouço – não ter tempo para se dedicar a estudar mais. Fico triste, porque acredito que aprender não pode caber em restrições. Aprendizado é liberdade. Anos atrás, André Gravatá criou pra si um conceito lindo de “doutorado informal”, em que conjugava seus reais interesses, seu ritmo, prazer, liberdade e constância. O melhor tempo para aprender é exatamente este sobre o qual o ponteiro do relógio está passando. Nem é preciso se matricular, basta estar presente.


Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.


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