O presente da alegria para quem abandona a inveja

  • Keila Bis

Passar a vida se comparando é estar em constante contato com o sofrimento. Aprenda a priorizar o que aquece o coração para viver com mais bem-estar.

Certa vez, um professor de Psicanálise me disse que não devemos perguntar o valor de uma sessão de análise a outro colega. Devemos indagar o preço, o que é diferente. “Por que?”, questionei. “Porque o valor de uma análise é inestimável”, respondeu.

Na época, eu compreendi o que ele disse, mas a ficha caiu mesmo num encontro recente com dois amigos psicanalistas. Falávamos sobre o quanto a nossa vida é transformada quando fazemos análise. Vemos as coisas de outra forma. Nos sentimos de outra maneira. Compreendemos o que realmente nos faz bem. E lá veio a conclusão: o valor de uma análise é inestimável.

Presos no jogo da competição

Uma das grandes belezas da Psicanálise é ajudar as pessoas a se desvencilharem do jogo da competição, da vontade excessiva de querer ser melhor do que o outro. Quando isso é feito, cessa o sentimento de inferioridade – muitas, mas muitas vezes mesmo, nos sentimos inferiores porque queremos ser superiores aos outros mortais.

Quanta besteira! Essa pode ser a conclusão que uma pessoa chega no decorrer da existência quando olha para trás e vê o quanto sofria quando vivia se comparando. Ora se sentindo superior ora se sentindo inferior.

É impossível ter paz e relaxar porque os olhos estão sempre na vida alheia. E, nesse ponto, a grama do vizinho ou da vizinha pode ganhar diferentes nuances: beleza, inteligência, status social, financeiro, profissão, cargo, modelo de carro, estado, ter filhos ou filhas…

De onde vem a inveja

Na adolescência, a inveja pulsa com força total. É durante o processo de formação da autoestima que as comparações tomam grandes proporções. Os bullings têm essa característica autoritária de impor uma regra de como se deve ser, vestir, gostar, falar, dançar,… Ataca-se a pluralidade em nome da massificação.

Assim, é importante já ir ensinando aos jovens que cada um tem sua beleza, seu talento, um determinado tipo de corpo, uma inteligência própria. É o que nos torna únicos. E que essa rica variedade de singularidades torna a vida tão alegre e bonita.

Porém, muitos adultos não conseguem encontrar a paz sendo quem são. Uma das razões pode estar nos valores da família. São criações onde prevalecem a inveja, a arrogância, o exibicionismo ou a autodesvalorização. Com isso, vão tocando a vida reproduzindo esses valores. No piloto automático, sofrendo e não sabendo o que fazer com essa tralha toda.

VEJA TAMBÉM: Schadenfreude, a satisfação pela infelicidade do outro

Como morre a inveja

Sempre é tempo de organizar a casa interna. Algo que pode ajudar no começo do desenlace com a inveja, é refletir: o que realmente aquece o seu coração? O que te preenche de alegria? De paz? De amor? O que realmente importa?

Imagine namorar uma pessoa só por causa da beleza dela e desfilar com ela por aí, inflando a vaidade.

Agora, imagine namorar alguém que você se sente muito bem porque o jeito dela é muito legal.

Outro exemplo: ir a um encontro com outras pessoas, focando sua atenção na inteligência delas ou no dinheiro que elas têm e você não.

Agora, pense em como seria estar nesse encontro focando somente no amor que os une, no querer bem que um tem pelo outro.

Ou ir numa balada e ficar comparando seu corpo com os demais. Ou ir na mesma balada a fim de curtir a música, as pessoas que estão lá.

Tudo muda, não é mesmo?

Faça as pazes com as suas inseguranças

Após essas reflexões, talvez você compreenda: o que nos preenche é a experiência, o sensorial, esse sublime dos encontros, da arte, da dança, de um momento, da sensação de comunidade. Não é o status, a roupa, a beleza, a inteligência e o lugar.

Essas elaborações cabem em várias áreas da vida e podem ser aplicadas sempre que sentir a inveja se avizinhando. Descubra o que compõe o seu bem-estar e comece a priorizá-lo.

Conforme essa sabedoria vai se encaixando melhor dentro do mundo interno, uma transformação começa a ser feita. Leva tempo, mas aprender a estar na vida de outra maneira é muito enriquecedor.

Aos poucos, a roupa velha da inveja é deixada de lado. E um novo traje vai sendo confeccionado. O seu look, que combina com você. Isso não tem valor. É inestimável.

Feliz Natal e feliz passagem de ano. Que o seu coração seja aquecido com aquilo que realmente importa para você.

 


KEILA BIS é psicanalista e jornalista que adora compartilhar segredos do autoconhecimento para um viver sem neuras. Abdicar da inveja sabendo priorizar o que aquece o coração é um deles. Para entrar em contato, mande seu e-mail para: [email protected]

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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