O medo da morte e a (nova?) normalidade

  • Margot Cardoso

Enquanto os olhos contemplam a tempestade e a ausência de um destino à vista no Covid-19, a reflexão e a serenidade mantém as nossas duas mãos no leme

 

Depois de quase seis meses do mergulho em apneia no Covid-19, convém fazer um ponto de situação. Mais ou menos no início do mês de março de 2020, a vida — ou pelo menos a vida que se pensava que se vivia — fez vários giros de 360 graus. A rapidez do movimento deixou o mundo atordoado. Assimilado os giros, constatou-se que tudo tinha invertido o sentido. O desvario do sistema capitalista que projetava tudo para a frente, teve que — tal como acontece nos jogos pedagógicos — recuar várias casas. As famílias que faziam o caminho casa-escola, tiveram de voltar para casa com os filhos. Na esfera do trabalho, o caos instalou-se. Profissões e serviços foram divididos nas categorias “essencial” e “não essencial”, com fronteiras que até agora não são exatamente claras.

ASSINE VIDA SIMPLES

E nós, na nossa esfera existencial-física? Estávamos imersos no delírio da negação da morte, animados com a evolução da medicina e teorias transumanistas que diziam que estávamos muito perto de vencer a morte, que a eternidade nos esperava. Nós, os modernos, muito mais espertos do que Ulisses, estávamos prontos a dizer sim à proposta de Calipso: sim, queríamos a eternidade e a juventude. Mas de repente… eis que chega um vírus, sacode-nos do delírio e exibe o nosso corpo frágil e mortal.

Quem vem ao nosso socorro?

O que fazemos nos cenários de grandes catástrofes? Pedimos ajuda. E primeiro pedimos para quem está mais próximo. Um parente, um vizinho? Não se podia. Os outros passavam pelo mesmo e havia o receio de já estarem contaminados pelo vírus. E mais: os outros também tinham medo de nós, afinal também poderíamos estar infectados. Então, olhamos para o alto, de onde se espera que venha o socorro: o estado. “O que fazemos?”. A resposta: “Não há nada a fazer”. “Fique em casa”. Buscou-se o conforto das informações. Nenhum conforto. O digital e a disseminação das redes sociais dificulta a distinção entre verdade e mentira, fato ou manipulação.

Quem poderá vir ao nosso socorro? Ah! Claro. A ciência. As respostas também não vieram daí. Eles também precisavam de tempo para estudar o vírus. E nem mesmo sobre as medidas de proteção — como o uso de máscaras — havia consenso. Quando não somos capazes de enfrentar um inimigo, o que manda o nosso instinto? A fuga. Não há fuga possível, o vírus espalhou-se. O caos é global.

ASSINE VIDA SIMPLES

Depois de quase meio ano, não há um fim à vista. Porém, a instabilidade permanente não é viável. Não podemos caminhar sob constante ameaça. Então, enquanto a solução não vem, o mais sensato é minimizar os medos — ou pelo menos o medo maior. Talvez você nem tenha conseguido identificá-lo, mas ele está aí, velado, escondido; acompanhando tudo o que você faz. Trata-se do medo da morte.

Morrer? Eu?

Ok. Racionalmente já não nos sentimos tão indefesos diante da pandemia. Hoje já temos muito mais informação. Sabemos quais são os procedimentos e atitudes que minimizam o risco do contágio. Já aderirmos à regras de segurança e já conseguimos ser agentes ativos para nos mantermos sãos e para não infectarmos outros. Mas as mortes continuam, o medo da morte continua. E ninguém é indiferente ao número de óbitos atualizados diariamente.

ASSINE VIDA SIMPLES

O medo da morte é muito difícil de ser superado pelo ser humano porque esse não é um medo racional. O medo da morte com sofrimento é racional. Mas é racional por conta do sofrimento, não da morte. Como?! Um ponto precisa ser esclarecido: os seres humanos não são racionais. Há um esforço, uma inclinação para a racionalidade. Mas daí afirmar que somos seres racionais, vai um longo caminho. Os exemplos estão por ai, como a recente —  só para ficarmos dentro da assunto — corrida para a compra de papel higiênico. E não foi apenas no Brasil, foi no mundo inteiro. Há uma explicação racional? Não.

Ainda estamos aqui

É por não ser um medo racional que Epicuro não consegue nos convencer quando afirma que “a morte não significa nada para nós. Ela é uma quimera, porque enquanto eu existo, ela não existe; e enquanto ela existe, eu já não existo”. Então o que é possível fazer? Como lidar com o espanto — e o escândalo — de que vamos morrer? Munidos de uma racionalidade sensível, podemos reduzir os níveis do medo. Há muitas estratégias para esse enfrentamento. Podemos ir desde informações práticas até reflexões filosóficas.

ASSINE VIDA SIMPLES

Primeiramente é preciso que se diga que morte não acontece apenas em momentos críticos. Pode-se morrer a qualquer momento. E no campo filosófico, a oferta é imensa. É tanta que Schopenhauer diz que a morte é a grande musa da filosofia. Afinal, podemos dizer que a vida “é a morte iminente em cada instante”. Essa consciência, apesar de expor a nossa fragilidade, tem um efeito colateral maravilhoso: mostra o quanto a vida é valiosa, justamente porque podemos perdê-la a qualquer momento. Por enquanto, agora mesmo, ainda estamos vivos. E não há motivo melhor, que mais mereça celebração, do que isso. Ainda estamos aqui. Ainda estamos vivos.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 222, agosto de 2020 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Podemos deixar para trás a ideia de que ser feliz é uma incansável procura pela vida perfeita. Desfrutar do aqui e do agora nos desperta para esse sentimento que vive dentro de nós



TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*