CARNE, de Camila Kater (Brasil, 2020)

  • Suzana Vidigal

Confesso que minha pauta era outra, mas o cinema tem dessas coisas. Ele chega sem pedir licença, às vezes pequeno, mas não menos potente, e te vira do avesso. Solta uma faísca que acende um fogo, que só para de incomodar quando olhamos pra ele de verdade. E de perto.

Ia falar de filme grande, daqueles que todo mundo viu – ou vai ver –, de assunto que todo mundo fala – ou deveria falar. Aí um curtinho passou pela minha frente, me deu uma rasteira e me obrigou a olhar para algo além do filme em si. Segui minha intuição de pisciana de que algo me dizia que precisamos falar sobre isso. Precisamos, claro – não é à toa que filmes, seja pequeno, médio ou grande, estão falando sobre mulheres, para mulheres, a partir de mulheres.

Nosso corpo de cada e todo dia

Vamos falar sobre corpos, num curta-metragem documental de animação que se chama Carne. Quem me acompanha no Cine Garimpo sabe bem o quanto eu adoro olhar de perto para os títulos dos filmes – eles dizem muito sobre as nuances embaixo das camadas da narrativa. Carne é assim – direto e cheio de nuances.

É o filme de estreia da cineasta Camila Kater e já foi qualificado para o Oscar 2021 – isso quer dizer que foi selecionado em vários festivais, conquistou 70 prêmios e agora entra na corrida para integrar a lista final dos indicados ao Oscar deste ano. A pergunta que o documentário faz é: por que o corpo da mulher é sempre uma questão? Por que é que estamos sempre falando disso. Padrão de beleza, gordofobia, culto à imagem, sexualidade, sensualidade, liberdade, prisão, violência, abuso – são alguns dos temas que vem à tona nos relatos de cinco personagens, envelopados em capítulos que abordam as diversas etapas da vida de uma mulher.

À flor da carne

“Crua” vai falar da menina gordinha na escola, que não acompanhava as demandas da aula de esporte e tinha que lidar com as expectativas da mãe que queria uma filha magra. “Mal Passada” aborda a adolescente que menstrua aos 12 e fica maravilhada com as mudanças que acontecem no corpo. “Ao Ponto” traz de uma mulher adulta, trans e “morena cor do pecado”, que reflete sobre a hipersexualização da mulher negra. Em “Passada”, uma mulher lésbica, sem filhos, fala do climatério, das mudanças hormonais e do direito viver uma nova primavera. E “Bem Passada” olha para um corpo de atriz que carrega abusos, tem pavor da velhice e olha para o corpo como algo que prende a mulher à uma “materialidade da qual não dá fugir sem sofrimento”.

Carne pra que te quero

Tudo isso pra dizer que Carne, que tem uma animação divertida e colorida, me soa como um reflexo desses tempos, em que mulheres têm tomado a palavra – e as câmeras, os microfones – pra falar de si, de nós. Têm se perguntado por que é que o corpo tem que ser o que ele não é, ou tem que ganhar formas que ele não tem, ou precisa representar o que essencialmente não somos. Acho que é por isso que tantas mulheres não aceitam seus corpos e passam uma vida inteira querendo estar dentro de outra carne que possa ser consumida mais facilmente pelos outros, pelo instagram. Isso, a carne do título está intimamente ligada ao consumo da figura feminina.

O corpo tinha que ser a casa da alma. Nossa casa-ambulante, nossa casa móvel, igual caramujo. Dentro dela, estamos seguros, firmes, protegidos em qualquer lugar. É o externo que representa nossa intimidade. A carne que envolve nossa energia vital.

Para assistir: plataforma gratuita New York Times Op-Docs


Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião


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