Comida é saudade e amor

  • Ana Holanda
  • FOTOGRAFIA: Marissa Price | Unsplash

Um alimento tem essa capacidade bonita de nos conectar com aqueles que amamos, mesmo quando já não estão mais aqui.

Minha avó chamava Esther. Era uma mulher encurvada pelo tempo, sofrimento e trabalho duro. Mãe de oito, mas dois morreram antes de completar duas décadas de vida. Vovó não era de muitas gentilezas, afetos ou carinhos. Quando eu era criança, não entendia. A achava seca. Queria uma avó igual a personagem dona Benta, da literatura de Monteiro Lobato. Esther não era Benta. Mas era a minha avó, a única que tive. Mãe da minha mãe. Ela gostava das plantas mais que das pessoas.

Quando cresci e conheci sua história, pude finalmente a entender. Viúva, nos anos 1950, com seis filhos. Não casou de novo. Sustentou a prole sozinha em uma época de poucas – ou quase nenhuma – regalia para as mulheres. A imagem que tenho dela é de uma mulher magra, de cabelos brancos, finos e curtos. Pernas cobertas de varizes e um sorriso tímido encoberto pelas mãos numa tentativa de esconder a alegria que, talvez, não lhe coubesse. Das poucas coisas que me ensinou estão: plantas entendem nossas palavras e colher pitangas maduras no pé.

Guardar uma dor

Vovó morreu com mais de 80 anos – não lembro a idade exata – em um dia qualquer. Ela estava doente há alguns anos. Alzheimer. Confusa, sem memória, sem história. E eu não disse adeus. Vó Esther morava em Recife e eu e minha família em São Paulo. Mamãe não foi em seu enterro. Por quê? Não sei. Ela tentou, entre lágrimas, percorrer aquele dia como se nada tivesse acontecido. E isso foi – e ainda é – difícil para mim. Naquele dia em que vovó morreu aprendi que deveria guardar minha dor. Para mim.

Anos depois, vinte talvez, numa tarde ensolarada e quente em Salvador, durante uma viagem de férias, parei em uma sorveteria conhecida da cidade: Ribeira. Encantei-me com a infinidade de sabores de sorvetes de fruta. Mas um, em especial, me chamou a atenção: pitanga. Foi a minha opção. Não foram necessárias muitas lambidas na generosa bola de sorvete para que minha alma transbordasse. Minhas lágrimas se confundiram com o doce que escorria por entre os dedos.

Sentimentos escondidos

Saudade. E eu nem sabia que ela estava ali, dentro de mim: Vó Esther. Nesse dia, entendi. A comida percorre caminhos estreitos dentro da gente. É capaz de acessar os sentimentos mais bem escondidos. Lembrei do quintal comprido da casa de vovó, dos pés de manga, caju, das plantas e do pé de pitanga. “Colha apenas as mais vermelhas”, me dizia ela. Vovó será sempre, para mim, saudade que brota junto com a pitanga.

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Mspoli | IStock

Mês passado, tia Lybia, filha de Esther, também morreu. Também Alzheimer. Uma família em que a história cisma em ser apagada da memória, igual borracha que encontra texto escrito a lápis. Lybia era a mais especial das tias, a mais querida e amada. Assim como Esther, também gostava de conversar com as plantas. Mas diferentemente dela, tinha os sentimentos à flor da pela. E nenhuma vergonha de expressá-los. Amável, gentil, carregava uma alma de criança que se admira com aquilo que é simples: o colorido de uma borboleta, uma conchinha na areia, o canto de um pássaro. Tudo a encantava porque o mundo a transpassava.

Tia Lybia também cozinhava muito bem. Biscoito de queijo, escondidinho de carne seca, carne ensopada, galinha a cabidela, bolo de creme de leite, delícia de abacaxi – seu doce mais emblemático. Lybia partiu em 11 de maio, em Recife. Não lhe disse adeus. Mas, dessa vez, não guardei minha dor. Escrevi, minha forma de expressão mais profunda no mundo. Conversando com meus irmãos, concluímos que o doce “delícia de abacaxi” vai ser sempre a lembrança mais querida de nossa tia. A comida tem essa capacidade bonita de nos conectar com aqueles que amamos, mesmo quando já se foram. Ainda bem. É um jeito de resgatar as histórias muito além das dores que uma doença pode causar. É manter a alma e o coração presentes.


Ana Holanda é diretora de conteúdo da Vida Simples, autora dos livros Minha Mãe Fazia e Como se Encontrar na Escrita, ambos da Rocco. Gosta de cozinhar e de escrever, sua maneira de estar no mundo e de lidar com seus sentimentos mais profundos. Escreve mensalmente nesta coluna.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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