Espaço para todos

  • TEXTO Eduardo Alves
  • FOTOGRAFIA Slava Bowman | Unsplash
  • DATA: 15/12/2018

Escrevo estas primeiras palavras de um espaço compartilhado, onde se pratica o que chamamos de coworking. O lugar fica na região da avenida Paulista, em São Paulo. Minha inscrição por aqui foi feita pouco antes do convite para conduzir esta reportagem e casou com o início da minha jornada empreendedora: aquele momento em que entendemos que é necessário mudar a rota para dar mais significado ao fazer e ao ser, e criar uma maior conexão entre eles. Encontrar esse caminho, depois de tanto tempo ocupando a mesma mesa, a mesma cadeira, o mesmo endereço e tendo o mesmo cartão de visitas, significa descobrir espaços de acolhida para lidar com as incertezas que o novo faz brotar no peito (e na cabeça). E não estou falando só de um ofício, mas de sentimentos e necessidades que afloram quando nos dispomos a mergulhar em mudanças e a entrar em contato com o significado que estar presente em um ambiente de trabalho – seja qual for – tem em nossa vida.

Nos meus primeiros dias em carreira solo, fiz meu cadastro numa porção de espaços compartilhados. A primeira sensação foi de liberdade, de poder transitar por aí e estar a cada momento num lugar. E a segunda foi de medo, claro, do que poderia encontrar, de lidar com o inesperado. A surpresa de a cada dia abrir portas, ter desafios diferentes e estar com novos colegas, compartilhar a mesa e o espaço do café com desconhecidos. Tudo isso tornou meus movimentos contraditórios por alguns instantes. Resquícios de uma carreira iniciada em outro formato e geração, moldada para nascer e morrer no mesmo lugar. Segui para o futuro mesmo assim, apreensivo e livre.

Para esta reportagem, mais do que conhecer postos de trabalho, fui atrás de histórias de quem descobriu no espaço e na experiência do compartilhamento o significado e o suporte do seu momento de ser e de realizar algo. E essa jornada não é exclusiva do dono do próprio negócio, mas pode fazer parte da carreira de qualquer um – da minha e da sua, por exemplo. Também conversei com especialistas que entendem de gente e de espaços feitos para acolher e conectar. Uma delas foi a psicóloga e coach Gomér Gonzaga, que é, inclusive, adepta de coworkings para seus atendimentos. Ela me contou que ocupar espaços compartilhados pode despertar afinidades e o sentimento de união entre as pessoas. “Muita gente trabalha como autônomo e pode encontrar nesses lugares uma conexão com o outro; e se livrar, muitas vezes, do sentimento de solidão – passando a ter a sensação de estar em um time. Neles, as pessoas não se veem concorrentes entre si, pelo contrário”, aponta ela. “Também são espaços que funcionam muito bem para quem precisa focar e produzir e não encontra isso trabalhando dentro da própria casa”.

Coral Michelin, que é mestre em design estratégico e dissertou sobre casas colaborativas como inovação social, comenta que, no início, as pessoas buscam ambientes compartilhados pensando apenas na redução de custo. Mas a verdade é que, com o tempo, podem descobrir, nesses espaços, outras oportunidades – isso depende muito do perfil de cada um e do lugar que encontram. “É preciso olhar além e trocar mais com o outro, pensar em como contribuir para aquela rede. Esse pode ser um local rico para gerar conhecimento e interação, valorizar mais conexões e convivência e não apenas renda”. Com isso, o ambiente de trabalho ganha outro significado, alinhando desenvolvimento profissional e pessoal na mesma jornada. E o ritmo é você quem dá: diário, semanal ou até de poucas horas.

Em família

Foi percebendo os novos rumos que gostaria de dar à carreira que a designer Thais Scaglione e o marido, Flávio Vieira, publicitário, resolveram deixar São Paulo e retornar para Curitiba, cidade onde se conheceram. Em 2008, abriram uma agência de design, a Sem Dublê. Começaram em casa e alugaram salas quando a empresa começou a crescer e a equipe aumentou. Nesse caminho, perceberam que paredes já não faziam sentido para aquela jornada e voltaram a apostar no home office. Seguros da rota que tomaram, prepararam-se para receber o primeiro filho, hoje com pouco mais de 3 anos. “Já havíamos decidido que eu iria ter seis meses dedicados ao Joaquim”, conta Thaís. Ao final dessa temporada, no entanto, a designer não sentia que estava pronta para se separar do filho e descobriu um espaço compartilhado para famílias, que funcionava como um coworking para que mães (e pais) ficassem mais perto da criançada e pudessem equilibrar a profissão e a dedicação aos pequenos. “Foi maravilhoso, porque eu não queria deixá-lo o dia todo na escola. Conseguir estar próxima dele e retomar aos poucos a minha carreira foi essencial. Além disso, o Flávio sempre nos acompanhava”, recorda-se. Começaram indo algumas horas, em determinados dias da semana e, depois, foram alongando, até chegar a seis horas diárias. “Por lá, percebi também o quão solitário é ser mãe nos dias de hoje. Em outros tempos, as mães trocavam mais entre elas, eram todas vizinhas, conversaram sobre suas dúvidas e inseguranças. Nesse espaço, encontramos a oportunidade de interagir com outros pais e falar de coisas pelas quais todos passamos”, diz ela.

Em 2016, o espaço compartilhado que Thaís e o marido frequentavam foi adquirido por uma escola infantil, a Vila Sofia, que manteve o local para os pais de seus alunos. Conversei com a Natália Ramon, que é mãe do Antônio, de 5 anos, e do Felipe, de 3, e proprietária da escola. Ela conta que quando conheceu o coworking viu a oportunidade de compartilhar um sentimento que sempre tinha tido: não se sentir pela metade sendo mãe ou profissional. “Meus filhos sempre estudaram onde trabalho e conheço todas as pessoas que estão perto deles. Apesar de termos a entrada livre para os pais por aqui, era incômodo pensar que não podiam estar ao lado dos filhos como eu consigo”, conta entusiasmada. Natália revela ainda que, no começo, os pais ficam atentos a todo movimento da criança – o berçário fica ao lado do coworking – mas, com o tempo, a criança e os pais ganham seu lugar. “A professora sente quando a criança precisa de um ‘cheiro’ da mãe e, então, a leva até o espaço compartilhado. Assim se constrói a confiança do pequeno com outros adultos, além dos pais”.

Entre amigos

Não são só as famílias que encontram apoio e carinho em espaços compartilhados. Marluce Santos, ou Mar, como gosta de ser chamada, há um ano desembarcou na frenética São Paulo. Fotógrafa especialista em moda, ela resolveu buscar na capital paulista novos ares e oportunidades para a vida e para o trabalho. “No começo, achei que seria mais fácil me acostumar”, recorda-se. “Conseguia ver meus amigos em Florianópolis com mais frequência. Aqui todos têm outro ritmo”.

Mudar de cidade é o tipo de coisa que nem sempre é muito fácil. Mar se dividia entre o trabalho em casa, para tratamento das imagens e administração do negócio, e estúdios de fotografia alugados para produção. Apesar de serem sempre bem equipados, ela sentia falta de algo nessas locações: de gente. Pesquisando na internet, descobriu os espaços compartilhados e encontrou um que atendia suas duas necessidades: tinha um estúdio para fotografar e a presença de pessoas. Hoje, Mar frequenta, em alguns dias da semana, o LabFashion, que fica perto de sua casa em São Paulo e tem a proposta de atender o mercado de moda. Ela, que adora contar histórias, diz que poder trocar com os outros é um ganho e tanto quando se está em um coworking. “Posso participar dos eventos, interagir, fazer novas amizades e, ainda, apresentar o meu trabalho”, comenta com alegria. Ela também me confidenciou: “às vezes, quando preciso ficar um pouco além do horário no estúdio, já aviso a Bethina e a convido para uma cerveja e um bom papo depois do expediente”.

Bethina, que é sócia e diretora do espaço, também já foi coworker do mesmo lugar no início de sua carreira com a moda. Esse aprendizado, pude perceber, ajudou-a a se aproximar das pessoas. “Continuo sem ter uma sala por aqui; outro dia estava trabalhando no computador na bancada de costura, no ateliê”, disse sorrindo durante minha visita ao local. Ser feliz com o trabalho, para a Mar e para a Bethina, não tem a ver com o ter um espaço para chamar de seu, mas com as relações e realizações que a vivência cotidiana proporciona.

Sem rotina

O carioca Frederico Mattos encontrou no espaço compartilhado sua realização. “Meu dia a dia é bastante dinâmico. Estou sempre em contato com gente de áreas diferentes e em movimento. Fazer a ponte entre pessoas e seus negócios tem muita relação com o que eu estava buscando num ambiente de trabalho”. Depois de anos dedicados à engenharia em obras, diretamente no campo, Frederico decidiu buscar novos ares para fugir da rotina e migrou para o universo corporativo. Há 10 meses na Cyrela, hoje trabalha no coworking no qual a empresa, que tem foco no setor imobiliário, está alocada (sim, tem muita companhia se ajustando também a esse formato). Frederico passa pouco tempo em uma mesa. Isso porque uma de suas atividades é justamente conectar pessoas, mostrar o valor do trabalho em rede e apresentar oportunidades que moram nesse formato.

O que a Thaís, o Flávio, a Natália, a Mar, a Bethina, o Frederico e eu temos em comum é a busca por um espaço que converse com quem somos, que esteja alinhado com nosso momento de vida atual, e que traga, ainda, a sensação de aconchego, de que encontramos nosso lugar no mundo naquilo em que trabalhamos. É o encontro com espaços que contribuem para que a realização nossa de cada dia seja sempre permeada de significado, para nós e para o outro. Ainda na dúvida? Então siga a sugestão da psicóloga Gomér: “vá conhecer esses lugares, sentir a energia deles e das pessoas ali; isso realmente importa para que você escolha um ambiente que lhe o faça feliz”, conclui.

Nessa busca, você pode se deparar com um lugarzinho bem aconchegante, com cara de casa, em sua cidade, ou no formato mais corporativo, que também é válido, se isso o satisfaz. Ou, ainda, descobrir um assento para trabalhar naquele café de que tanto gosta. Hora ou outra, prefiro fazer da minha sala de estar o espaço compartilhado. Convido colegas de profissão para se reunirem por aqui e, apesar de juntos, cada um segue com suas tarefas, trocando risadas e angústias. O que importa é que todos consigam encontrar a própria medida. Você certamente achará a sua.

EDUARDO ALVES é comunicador por formação, mas gosta mesmo é de ser reconhecido como um bom ouvinte e um contador de histórias.


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