Um viver sem tanta tagarelice mental

  • Keila Bis
  • FOTOGRAFIA: Istock

Muitas podem ser as razões de se ter uma mente excessivamente falante. Reprimir-se o tempo todo e ficar distante do próprio desejo são algumas das causas principais

ElaEle não se dava liberdade para pensar e nem para sentir e desejar. Vivia comprimidado por ordens e punições internas. Quando, por exemplo, os pais pisavam na bola com elaele e, nesses momentos, sentia raiva e vontade de que eles simplesmente desaparecessem, a repressão dizia: “Como assim pensar isso, afinal, você só está vivavo, por causa deles?”. Carolinas e Thiagos davam, então, um jeito de botar rapidamente todo esse sentimento para debaixo do tapete e depois… bom, depois vinha a culpa. Claro, mereciam ser punidos por serem tão ruins.

E do outro lado, acontecia o mesmo. Mãe e pai não foram feitos para amar incondicionalmente seus filhos? Como, então, um dia se arrepender de tê-los tido? “Esconde logo esse pensamento, pelo amor de Deus, que ser do mal você é por sentir isso”.

Noutros momentos, Cristianos e Marias se culpavam por sentir desejos sexuais que não pareciam “normais”. Algumas vezes, tinham fantasias de relações homossexuais e até mesmo extraconjugais. “Foge logo com esse pensamento, afinal, você é heterossexual e jurou amor eterno a essa pessoa com quem está casadoda há anos”. Mais culpa e desejo sendo empurrados para um compartimento dentro de si já abarrotado de coisas.

Eleselaseuvocê também se sentiam péssimos quando algum grande amigo estava passando por uma situação difícil e não sentiam um pingo de vontade de conversar ou ajudar de alguma forma. Como podiam ser tão egoístas? “Corre já com essa vontade horrorosa e vá lá agora oferecer apoio”, era a culpa ordenando.

A vida seguia e as Alessandras e Maurícios adquiriram uma mente muito falante, com pensamentos soltos e repetitivos, que rodavam pela cabeça sem cessar. Tornaram-se também indecisasos e procrastinadorares, parecia que toda ideia que tinham não era legal. Desenvolveram um forte sentimento de culpa e de que não eram suficientemente bons. Passaram também a ter uma obsessão em ajudar, a ser útil, a fazer tudo para o outro e, mais ainda, a querer ser tudo para o outro.

Saras e Josés ainda não tinham percebido que muito desse estrago é feito quando se passa uma vida reprimindo pensamentos, desejos e emoções – diversos são os motivos desse tipo de funcionamento, uma terapia pode ajudar a descobrir.

Quando não se compreende que radicalismos e extremismos não combinam com esse viver, que está sempre nos pedindo a compreensão de que faz parte amar e odiar até mesmo as pessoas que mais nos são caras. Que é importante não ficar refém do ideal de perfeccionismo simplesmente porque não somos deuses e nem temos superpoderes. Que ficar querendo agradar o tempo todo e se achar imprescindível ou insubstituível são, muitas vezes, formas de se abandonar, de não pensar no que quer, no que gosta, em qual rumo quer dar para a própria vida. E também em viver em estado de onipotência.

Se puder, experimente dar um chega pra lá na culpa, nos ideais e nesse jeito reto de existir. Dê espaço para o seu sentir. Chega mais perto do seu desejo. Aos poucos, você vai entender o que Leminski disse: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é, ainda vai nos levar além”.

Keila Bis é jornalista de bem-estar, terapeuta floral e psicanalista. Há alguns anos vem se dedicando a estar mais próxima do seu mundo interior. Escreve na primeira terça-feira de cada mês aqui no Portal. Para entrar em contato, mande seu e-mail para: [email protected]


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COMENTÁRIOS

  • Selma Bor

    Muito boa leitura. Gosto muito da revista e das pautas colocadas. Sobre essa leitura, a um repensar, existe o “pulo do gato” , um refinamento, pq esses pensamentos são constantes em nossos ciclos de vida, e o “pulo do gato” consiste em um lugar próprio em nossa mente onde se refine as tais emoções geradas em consequência dos mesmos pensamentos. Devemos saber pra quê, e pq, e então direciona-las. Qdo conseguimos fazer isso, eles praticamente, qdo aparecem, se diluem, pq se encontram em um sentido e para então uma solução. Enquanto não “criamos” isso ele fica mal direcionado e então gera a culpa.

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