Sua privacidade, seu poder

  • Margot Cardoso

Nem dinheiro e nem corpo, às vezes podem querer apenas a sua identidade para agir em seu nome. Eles podem não estar interessados diretamente em você, mas na sua rede de amigos. Mantenha sua privacidade.

 

Você daria a chave de casa, do carro, a senha do banco ou os seus exames médicos para estranhos?  Provavelmente não. Mas há grandes chances de que você esteja fazendo exatamente isso — e há muito tempo. Tudo aquilo que você considera como sua privacidade — história familiar, fantasias, endereço, medos, perdas, hábitos de consumo, fracassos, traumas, doenças — podem já ser de domínio público.

Sem que ninguém se desse conta, a Google, aplicativos de redes sociais e várias empresas têm a posse de informações sobre você. Essa consciência já é mais ou menos generalizada e aceita por todos. Afinal, as informações que nos interessam chegam como milagre nos banners. Queremos um sofá preto e logo começamos a ver anúncios de todos os sofás pretos existentes no mundo. O nosso computador é como um amigo, sabe do que precisamos e ajuda nas buscas.  Não achamos mal. Adoramos aqueles que sabem sobre nós. Uma festa surpresa de aniversário — e mesmo as felicitações — só são possíveis se outro souber a nossa data de nascimento. O presente perfeito só vem daqueles que conhecem o nosso gosto.

Porém, nem todos usarão informações sobre sua vida pessoal em seu benefício. Há entidades dispostas a usá-las para fraudar identidades, discriminar, extorquir, ameaçar e outras atividades que estão longe de serem benéficas para você. A privacidade dá poder para aqueles que querem fazer o bem, mas também para os que querem fazer o mal.

Invadir a privacidade

privacidade

A sua vida é um livro aberto, você não tem cadáveres enterrados no jardim, não tem nada a esconder ou temer. E mesmo que tivesse, sua privacidade está assegurada porque você não é uma celebridade, é um ilustre anônimo, sem nada de especial ou importante… É um engano. Você é muito importante. Prova disso é que as empresas investem milhões para espioná-lo. Contratam renomados profissionais para sondar seus gostos, suas necessidades e os seus mais íntimos desejos (alguns até desconhecidos de você mesmo).

Eles estudam os mecanismos do vício para que você fique “preso” ao visor. E todo esse investimento tem um único objetivo: eles querem a sua atenção, seu tempo, sua fidelidade e, claro, o seu dinheiro. Alguns podem considerar isso um serviço vantajoso, mas é preciso frisar que essas empresas não estão interessadas no seu bem-estar. Elas não querem saber se o consumo/vício de determinado aplicativo rouba tempo de qualidade com a sua família, torna-o alvo de bullying ou impede suas necessidades básicas, como o sono.

E não é apenas uma questão de anúncios oportunistas e compras na internet. A invasão de privacidade vai muito mais além. Há empresas interessadas em seu corpo — calma —  talvez elas precisem dele como cobaia para experimentos e medicamentos. Nem dinheiro e nem corpo, às vezes podem querer apenas a sua identidade para agir em seu nome. Eles podem não estar interessados diretamente em você, mas na sua rede de amigos. Quantos vezes você não recebeu uma mensagem com um pedido de permissão para acessar os seus contatos ou as suas fotos?

Perspectivas apocalípticas

Talvez eles precisem da sua condição de influencer. Não importa o seu número de seguidores, as empresas esperam usá-lo como porta-voz. Você é um agente político, tem um voto e ele vale muito. Políticos, empresas ou entidades podem precisar de você para eleger um candidato para defender o interesse deles no congresso. Você lembra que Putin foi acusado de manipular as eleições nos EUA?

Vê? Você é uma pessoa muito importante. E por quê todo esse assédio? Porque você é uma fonte de poder. Quem controla os dados — a privacidade das pessoas — pode controlar tudo. A posse de dados é o mais cobiçado poder da atualidade. Não é sem razão que, recentemente, Mark Zuckerberg foi chamado no congresso dos EUA para prestar declarações. Os políticos querem certificar-se que ele tem consciência da sua “enorme responsabilidade” e chamaram atenção para o fato de que nos últimos episódios de notícias falsas e manipulação, o Facebook foi sempre encontrado na cena do crime. Aqui, o que está em causa é a capacidade de A motivar B a pensar ou fazer algo que B de outra forma não teria pensado ou feito.

Vejo com desconfiança perspectivas apocalípticas. Mas não posso deixar de alertar que não são apenas as empresas que querem ter acesso a sua privacidade. Em nome da segurança, governantes estão avançando sobre a vida dos seus cidadãos.  Entre outras possibilidades, o acesso à privacidade oferece aos governos a capacidade de antecipar protestos e até prender preventivamente pessoas que planejam iniciar uma luta.

Resta-nos proteger com fanatismo

E é importante dizer que o poder do algoritmo não vai parar aqui. Dentro de alguns anos, sensores biométricos darão acesso direto ao nosso coração. E não estou sendo poética, refiro-me mesmo ao músculo cardíaco que regula a pressão arterial e grande parte da atividade cerebral. O que isso implica? Os sensores poderão medir a frequência cardíaca do usuário diante do computador. Ele irá medir a reação dos usuários diante da visão de homens e mulheres em poses sensuais, e facilmente poderá identificar a sua opção sexual, por exemplo.

Pode parecer um informação banal, útil apenas para o propaganda dirigida, mas podem significar a diferença entre viver e morrer nos regimes que condenam a homossexualidade com a pena de morte. Esse mesmo medidor biométrico poderá acusar a raiva e o desprezo que vai no coração do cidadão norte-coreano enquanto o seu corpo acena e sorri para o seu ditador Kim Jong-un.

O filósofo Michel Foucault — um estudioso das relações de poder — escreve que o conhecimento em si é uma forma de poder. Daí a necessidade da nossa atenção máxima: quanto mais alguém souber informações sobre você, maior será o poder que ele poderá exercer sobre você. E quanto mais cedo assimilarmos que somos parte essencial desse centro de poder, mas capacidade teremos de nos defender. Mas o que podemos fazer? Já que abster-se da tecnologia não é uma atitude realista, resta-nos proteger com fanatismo a nossa privacidade. E também a dos outros. Não filme ou fotografe pessoas sem consentimento e não compartilhe imagens sem autorização. Tente limitar os dados que você entrega às instituições.  Reveja as configurações dos aplicativos e aumente sua privacidade.

Construção de mentalidades

Porém, a mais importante contribuição de Foucault é a percepção de que o poder não age apenas sobre os seres humanos — ele também constrói sujeitos humanos. Ele constrói certas mentalidades, transforma sensibilidades, cria novas maneiras de estar no mundo. Em resumo, ele faz marionetes. Não permita que o algoritmo transforme você num produto para atender o mercado. Resista. A transformação e construção de nós mesmos, é uma tarefa só nossa. Faz parte da nossa humanidade e é a ferramenta que temos para encontrar sentido na vida e buscar felicidade.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

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