SOUL, de Pete Docter

  • Suzana Vidigal

Por que Soul?

Soul quer dizer alma, mas se refere também a um gênero musical que remete, diretamente, à experiência vivida pela comunidade negra. Combina elementos do jazz, do rhythm and blues, do gospel. Confesso que sou analfabeta musical, mas arrisco dizer que o soul carrega, naturalmente, uma carga fundamental de personalidade e de energia vital, que faz com que cada performance seja única.

Dito isso, Soul, a animação, traz esses dois carimbos – da alma e da música – estampados no protagonista Joe: um professor de música alto astral, que é grande fonte de inspiração para seus alunos e sonha em tocar numa banda de jazz. Como nunca rolou uma oportunidade, ele toca a vida, alimenta esse sonho e se sente, vamos dizer, frustrado. Incompleto. Sempre almejando algo que não tem e se sentindo menor por causa disso.

Alma penada

Soul é da Disney-Pixar – o estúdio que nos dá de presente filmes genais. Também são do diretor Pete Docter a animação Divertida Mente – e quem se lembra da descrição que Docter faz da mente humana nesse filme, vai logo identificar em Soul o talento didático do diretor e roteirista ao explicar, aqui, o inexplicável: como é que as almas nascem, se preparam, vivem e morrem.

Para isso, Soul fala de morte. Mas é só pra explicar a vida. Alimentando sua ilusão de um sonho não realizado, um dia Joe morre e fica desesperado querendo voltar pra Terra. Não realizou o que queria, o sonho estava prestes a se tornar realidade, não deu tempo, veio o acidente e acabou com tudo. Inconformado, transgride a lei da morte e vai parar num outro plano espiritual, onde as almas são preparadas pra nascer, e conhece 22, uma alma que não quer viver.

Alimento da alma

Com humor e talento gráfico infinito pra desenhar o que seria esse plano, dar forma a tudo que não é tangível, que não pertence a este mundo e que não está sob nosso controle, Soul nos mostra como Joe, que tem talento pra música e quer viver, e 22, que diz não ter encontrado seu propósito, vão descobrir o que é sentir-se feliz.

Os diálogos são preciosos, mas uma fala chama atenção e fecha todo esse raciocínio – sempre com simbologia das cores, realismos das relações e dos sentimentos. “Almas perdidas ficam obcecadas por coisas que as fazem se desconectar da vida.” Joe vai compreender, finalmente, que viver com uma ideia fixa de realizar um sonho fez com que se desconectasse da sua essência e das pessoas amadas; 22 vai compreender que embora não tenha um talento específico, ver a beleza no espetáculo simples do cotidiano – como as folhas amareladas caindo no outono – pode ser seu propósito de vida. Cada um do seu jeito, autêntico, sem fórmula mágica, assim como é o gênero musical soul.

Em tempos de valorização extrema das performances, das aparências e dos rótulos, saber simplesmente viver pode ser o grande alimento da alma.


Onde assistir: Disney +


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