Sonhos: quando persistir, quando desistir

  • Margot Cardoso

O sonho, como sinônimo da vida e origem da felicidade, é tão enraizado que muitos perdem grandes oportunidades. Alguns estão tão formatados no primado do sonho que não aceitam nada que não tenham sonhado primeiro.

 

Você já deve ter ouvido por aí que “o mais importante não é o destino, mas a viagem”. Essa afirmação é a síntese da filosofia do presente, reclamada pelos filósofos vitalistas. O que importa é a vida hoje, no imediatismo do agora. O que conta é o aprendizado proporcionado pelo caminho. Sim. Parece bom. Mas, e tudo o que aprendemos sobre os sonhos, os projetos, os objetivos a curto, médio e longo prazo? Como encaixar o “buscar a todo custo” e o “nunca desistir dos sonhos”. Ou os “se você ainda não os alcançou — continue — é porque ainda não chegou o fim”, “mantenha-se motivado, faça sacrifícios”. A ideia de que devemos perseguir os sonhos brilha como luzes de néon em nossa mente. O problema é que uma vida com todos esses alertas não é boa, nem saudável.

Como é possível desfrutar de uma viagem com tensão e estresse constantes? Os sonhos podem ter um efeito perverso. Se coloco toda a minha energia neles, que força me sobra para a vida que acontece diante dos meus olhos? O que faço com as minhas emoções, com o meu cansaço? Aqueles que pregam a corrida ao longo do arco-íris e o prêmio do pote de ouro no final, esquecem-se que a vida impõe-se ao sonho. Uma vida consumida em buscas futuras, penaliza o presente. Porém, mesmo com a carga extra — e a suspeita de que alguma coisa não bate certo — tentamos conciliar essa impossibilidade. E seguimos fragilizados, sem bem-estar no presente e sem a felicidade que, afinal, está no futuro. Os sonhos são lindos, mas o bem-estar — e todos os seus acessórios — só pode ser alcançado no presente.

Esse cenário é o principal causador da apatia existencial. Depois de tantas mensagens positivas — e aqui já falamos sobre o mal que elas causam — vem a frustração. Fomos perseverantes, determinados, mas depois constatamos que o sonho não faz mais sentido. E ficamos sem nada. Os amigos tentam nos consolar. Os conselhos são inúteis porque há a crença de que a vida que vale a pena é a vida regida por sonhos e sua busca a qualquer custo. Todos — de seus pais aos gurus — dizem que você deve perseguir objetivos. A vida é essa busca. Lute e, no fim, você será feliz.

O sonho, como sinônimo da vida e origem da felicidade, é tão enraizado que muitos perdem grandes oportunidades na vida, com um único argumento: “Ah! Não quero! Nunca sonhei com isso.” Alguns estão tão formatados no primado do sonho que não aceitam nada que não tenham sonhado primeiro. O inesperado, a sorte, o acaso e os estados de serendipidade são completamente desprezados. É preciso sonhar primeiro. “Você me dá um tempo para eu sonhar com essa proposta e, no ano quem, eu te dou um retorno”.

Recentemente constatei a decepção de um jornalista durante uma entrevista ao filósofo Nuno Nabais, o idealizador do centro cultural Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. Um espaço com múltiplas atividades em simultâneo, diferentes estilos de música, exposições, performances, uma livraria, um restaurante — tudo abrigado por salas com nomes de filósofos — só poderia ser a concretização de um grande sonho. O repórter começa a entrevista: “você tinha o projeto de fazer esse empreendimento?” E ele: “não, não tinha projeto nenhum”. Mas você não tinha o desejo de ter esse centro cultural? E ele: “não, não tinha o desejo”. Perante a insistência do repórter ele reafirma que não teve o desejo de ter o centro cultural, estava muito feliz com a sua vida de professor de filosofia na Faculdade de Letras. “Era e sou muito feliz como professor. Há estudantes muito atentos e interessados, todos os anos temos textos novos, caras novas. Tenho imenso prazer na minha atividade”. E o repórter insistiu: “você sempre teve o desejo de ser professor de filosofia?” — Não! Também não (já um pouco incomodado com a repetição). Explicou que abriu o concurso para professor, alguém lhe ligou informando que havia uma vaga e sugeriu que ele poderia concorrer e ele aceitou. Por que a insistência do repórter? Ele estava a espera da clássica história de busca, superação e, no fim, vitória. Porque as boas histórias são aquelas de perseverança, de luta, de heroísmo e no final, de sonhos concretizados, de objetivos cumpridos.

O que é natural, então não aprendemos que na “A Tempestade” de Shakespeare, que o sonho é a substância da qual somos feitos? Temos de tê-los. Desistir deles é para fracassados. Faz mal para a autoestima. Porém, a insistência cega também pode ser muito danosa e a razão número um para que muitos sonhos se transformam em pesadelos. Lidar com verdades estabelecidas ao longo de séculos não é fácil. Mas não endeusar os sonhos pode ser o primeiro passo. O caminho é o do meio: não se deve persegui-los fanaticamente, nem renunciá-los. A sugestão é que se faça uma hierarquia e coloque no topo — acima dos sonhos — o aprendizado. Uma maneira de buscar sonhos — sem sacrificar o presente — é construir um modo de vida que permita que você tenha o que precisa, numa atividade que você goste e onde possa desenvolver suas qualidades. Viva intensamente o presente. Analise o que acontece, detecte onde estão os erros e conserte-os. E vá mudando de rota de acordo com o que a vida apresenta. Em nenhuma época, o foco no presente foi tão importante como hoje. Já não é absurdo você entrar em um curso superior e, no meio do caminho, perceber que o curso já não faz mais sentido no mercado de trabalho. Consciente desse cenário, é preciso considerar que o perseverar e o desistir devem ter o mesmo estatuto e ambos devem ser vistos com neutralidade. Muitas vezes não é preciso desistir de um sonho, mas apenas do caminho. Outras vezes, é preciso desistir mesmo do sonho. E isso deve ser feito sem dramas. Evoluímos, mudamos e, às vezes, o sonho de cinco anos atrás não serve mais, já não satisfaz a pessoa que nos tornamos.

Ainda no capítulo do endeusamento dos sonhos. Questione-os — e com o mesmo cuidado com que você teria ao iniciar um relacionamento a longo prazo. A primeira pergunta é: por que tenho esse sonho? Quais são as razões para ser esse e não aquele sonho. E por que? Para não correr o risco de quando alcançá-lo, ele não se revelar inútil. Muitos sonhos têm como seu reverso o medo. Se o seu sonho é ter muito dinheiro porque você tem medo da miséria. O dinheiro não vai eliminar esse medo. É melhor tratar do medo. Você tem o sonho da notoriedade e da fama? Esse sonho geralmente tem por trás a baixa autoestima e o vazio existencial. Se for assim, arrume um sentido — ou uma causa — para a sua vida. A fama não vai resolver, veja histórias, como a da britânica Amy Winehouse. Antes de sonhar, resolva primeiro os seus medos. Para além de driblar a consciência sobre o que realmente se deseja, os medos distorcem o presente.

Dê espaço aos seus sonhos, mas não negligencie a vida de todos os dias. É como navegar com um GPS. De vez em quando, e muito de vez em quando, vislumbre o mapa completo e aviste o ponto de chegada. Mas é só isso mesmo: ver para onde está indo. Veja o geral, mas volte para o local, preste atenção à indicação que diz para continuar em frente. Este texto vem tarde, você é um irremediável sonhador — e se prefere assim. Não há problema. Arthur Schopenhauer argumenta que esse é mais um indicador para você deve ter os pés bem agarrados no presente. Para ele, a vida de todos os dias e os sonhos são páginas de um único livro. Quando você senta e começa a ler um livro, isso é a vida no presente. Mas quando o cansaço vem e você decide interromper a leitura, entra em cena a hora do repouso. Você continua a folhear o livro, lê a contracapa, dá uma olhada nas páginas do fim, volta à algumas iniciais, relê trechos…. Esse momento de divagação é o mundo do sonho. E eis aqui — na analogia do ato de ler — o sonho e a realidade, mas, alerta Schopenhauer, o livro é sempre o mesmo. O que se extrair daqui é mais um reforço da importância do presente. Aqui, agora, hoje, escolha muito bem o seu livro.

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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