Reperceber: habilidade fundamental para os nossos tempos

  • Tiago Belotte

Reperceber — verbo inventado — é a habilidade de ver o futuro de forma diferente do que costumava ser no passado. Diferente de como é agora e diferente do que você espera.

A busca no Google pelo termo “para iniciantes” cresceu em 65% no ano passado, segundo a própria empresa. Sabe o que isso significa? Que estamos querendo aprender mais coisas do zero. A prova disso é uma outra expressão que também teve grande crescimento nas buscas: passo a passo. Queremos fazer do zero e também precisamos do passo a passo para saber exatamente o que fazer e não nos perdemos. O lado bom é que entendemos, a vida tá pedindo mesmo para gente reiniciar algumas coisas, o desafio é compreender que para boa parte dessas questões não há um passo a passo disponível. Mas voltemos ao começo.

O futurista Pierre Wack fala da importância do verbo reperceber para estarmos no mundo hoje. Ele o descreve como a habilidade de ver o futuro de forma diferente do que costumava ser no passado. Diferente de como é agora e diferente do que você espera. Assim como o verbo é inventado, a habilidade também precisa ser criada em nós. Porque nos acostumamos a projetar o futuro como continuidade do passado e do presente. Das pequenas às grandes coisas. Como se a vida fosse uma sequência lógica de fatos. E veja bem, pode ser que no passado tenha sido assim mesmo. Quando o mundo caminhava mais devagar. Num tempo em que a tecnologia não mudava de uma hora para outra a forma de nos comunicarmos, de nos mantermos saudáveis, de trabalharmos e fazermos quaisquer outras atividades.

reperceber

Percepção do que não é

Essa previsibilidade nos deixava confortáveis para criar expectativas em relação ao amanhã. E criar expectativas é a melhor forma de encontrar decepção e frustração alguns passos adiante. Não quero dizer com isso que deveríamos parar de projetar o que pode nos acontecer ou o que queremos fazer nos próximos dias, meses ou anos. A prática da repercepção implica em abertura para que seja diferente, apenas isso. Pode ser do jeito que você queria e esperava como também pode não ser. Eu sei, essa ambiguidade é terrível. Não fomos preparados para lidar com isso. Inclusive o ambíguo tem uma carga negativa para a maior parte de nós. Queremos fugir da imprecisão, ou é ou não é. Mas o mundo nos pede uma nova postura que abrace mais de uma leitura, especialmente aquelas diferentes das nossas.

Se te pareceu até aqui que reperceber é apenas um desafio, quero te contar que é também um alento, um afago, para quem vive uma realidade dura em dias pandêmicos. E gostaria mesmo que o futuro fosse bem diferente do presente. E para quem tem um passado escrito com dores, lutas e lágrimas também. Praticar a repercepção é também esperançar. Especialistas em tendências do mundo todo, pessoas acostumadas a olhar para o futuro, começam a comparar o momento que estamos vivendo com aquele vivido na Idade Média, com a Peste Negra, epidemia que matou mais de 75 milhões de pessoas. E esta comparação não se dá só no lado da tragédia e sim da esperança. Porque depois da peste veio o Renascimento. Será esse então o movimento de renascença do século 21? A resposta afirmativa depende de estarmos preparados para perceber e criar uma nova realidade.


Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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