Receitas de família

  • Ana Holanda

Os cadernos de receitas não são apenas registros das comidinhas preferidas, são fios que nos conduzem pela nossa própria história

 

Dias desses, decidi fazer um prato que há tempos não preparava: batata gratinada. Uma mistura muito gostosa de batatas com creme branco e assadas no forno. Prato da infância, comida de conforto. Como não o fazia há tempos, fui procurar a receita no meu caderno. Sim, eu tenho um. Há anos. Me orgulho das páginas amareladas, com manchas de óleo e sujeiras diversas por estar sempre na bancada da cozinha, ao alcance das mãos, para ser folheado.

É ali que encontro as receitas do dia a dia, aquelas que, um dia, espero deixar como um registro, uma lembrança permanente da minha existência para os meus filhos. Como lembrar do melhor bolo do chocolate do mundo? Ou do brownie, do suflê de milho? Está tudo lá, escrito a mão. Existe ali algo muito também precioso pra mim: folhas avulsas com a letra da minha mãe. Receitas que ela me entregou para que eu também não esquecesse do caminho que me leva a minha infância, a nossa vida em comum, a mim mesma.

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Os cadernos de receitas têm esse poder, o de nos resgatar, de apontar caminhos, de contar a nossa história por meio de sabores. Cadernos de receitas não são só registros de modos de fazer. E quem me ensinou isso foi a pesquisadora Débora Oliveira, nutricionista e historiadora, que mergulhou, por três anos, nos cadernos de diferentes épocas. O resultado disso foi uma tese de mestrado, feita pela Faculdade de História da USP, e no livro “Dos Cadernos de Receitas às Receitas de Latinha – indústria e tradição culinária no Brasil (Senac). Débora me contou que para entender um caderno de receitas de uma família é preciso olhar para a nossa história e o caminhar da sociedade: por que durante décadas as mulheres colavam receitas de jornais e de latinhas nas últimas páginas? Por que anotavam os nomes das pessoas ao lado?

Os cadernos de receitas

Bom, para descobrir isso, é necessário dar muitos passos para trás. Durante a colonização, a cozinha era território das escravas. E o trabalho era pesado: matar, depenar, limpar, e preparar tudo no fogão a lenha. Nada era registrado. Mas preparado no olho e por meio de uma tradição oral passada de mãe para filha. Depois do fim da escravidão, as coisas mudaram. As famílias passaram a se estabelecer na cidade. E a se afastar, cada vez mais, daquela vida na roça. Outro ponto: se não haviam mais escravos, quem iria colocar a mão na massa? Existiam as criadas, claro, mas quem disse que as mulheres sabiam ensiná-las ou mesmo orientá-las sobre o preparo dos pratos? Eram moças de fino trato, educadas para servir aos maridos, receber os convidados e preparar os doces finos, como os delicados camafeus.

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Foi nesse momento, quando a necessidade falou mais alto, que surgiram os primeiros livros de culinária e as mulheres passaram a registrar seus aprendizados. Outros pontos que influenciaram e modificaram esses registros foi o auge da industrialização e a chegada dos alimentos processados, enlatados e dos aparelhos ditos modernos, do liquidificador ao micro-ondas. Como estratégia para divulgar toda essa parafernália vieram as receitas nas latinhas, os livros de refeições preparadas em micro-ondas e por aí vai.

É sobre amor

Adoro essa história, gosto demais de conta-la e recontá-la porque, pra mim, ela dá a real dimensão de como um acessório tão simples pode trazer consigo algo igualmente profundo. Se você tem ainda guardado consigo um desses cadernos, da sua mãe ou da sua avó, folheie. Perceba como ele fala sobre o passar do tempo, sobre a história de todos nós e, principalmente, sobre a sua história, sobre o lanche da tarde na casa da avó, sobre o bolo que só ela sabia fazer, sobre as risadas que permeavam esses encontros, as conversas, as brincadeiras, e sobre o amor. No final das contas é sempre sobre isso, o amor. Às vezes, no formato de um singelo caderno de receitas de família.



Ana Holanda é editora-chefe da revista Vida Simples, autora dos livros Minha Mãe Fazia e Como se Encontrar na Escrita, ambos da Rocco. Gosta de cozinhar e de escrever, sua maneira de estar no mundo e de lidar com seus sentimentos mais profundos. Escreve mensalmente nesta coluna.


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