Por que temos horror à incerteza?

  • Margot Cardoso

Sabemos que a vida é um sopro. Quando tudo parece certo, de repente surge um movimento e o que tínhamos como seguro desaparece como bola de sabão. Grande parte do que acontece no mundo —  do feito extraordinário ao acidente, da estranheza ao acaso feliz, da desilusão amorosa à mudança política, da invenção da penicilina à descoberta da América — não foram planejados. A vida é, por definição, o espaço da incerteza e a segurança que sentimos é apenas ilusória. Apesar desse conhecimento, quando o não esperado acontece, ficamos sempre desorientados e perplexos.

E qual é a razão? Seria o caráter incerto da vida um mal novo trazido pelo complexo século XXI e ainda não estamos devidamente adaptados? Não é. Há 2500 anos, o grego Heráclito de Éfeso já afirmava que o mundo ­e nós mesmos mudamos o tempo todo. E não se trata apenas da sua famosa afirmação “um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, pois a cada segundo o rio é outro e o homem também”, para ele, a mudança é contundente. Coisas quentes, esfriam; coisas úmidas, secam. Para Heráclito, nada permanece o mesmo, tudo está em contínua mutação. E apesar desse conhecimento, continuamos perseguidores fanáticos das certezas. Não importa se a certeza é boa ou ruim, queremos é ter certeza  — e certeza absoluta! Se somos amados, se vai dar certo, se somos traídos. Queremos garantias de que vai ser sempre assim, que o outro não vai mudar, que o amor será para sempre. Quais as religiões que predominam no mundo? Aquelas que prometem a vida eterna. A existência num paraíso onde os recursos nunca escasseiam e onde nada muda.

Vivemos sob a égide de certezas que só existem na nossa cabeça e quando somos sacudidos pelas mudanças, tentamos encontrar explicações. Parte-se para o “onde foi que eu errei?”. Porém, não é raro que com a lucidez da retrospectiva perceba-se que a certeza era uma ilusão. Duplo espanto: identificamos um futuro nunca imaginado e junto com ele, a descoberta de um passado que nunca existiu. E com o corpo todo estendido no presente, entendemos o equívoco: a obsessão pela certeza impediu a visão dessa realidade.

Após algumas experiências aprendemos? Não. Sabemos toda a parte teórica, experimentamos a prática e, mesmo assim, não aprendemos. Continuamos a lidar muito mal com aquilo que não prevemos e seguimos na busca insana pelas certezas. Mesmo quando os planos envolvem variáveis instáveis e de pouco crédito, enxergamos a certeza no futuro. E pior, praticamos o mesmo exercício para a vida dos nossos. Há um ditado judeu do início dos tempos que afirma que Deus ri quando você faz planos para o futuro. E dá gargalhadas quando você faz planos para os seus filhos.

Algumas pessoas tornam-se especialistas em certezas, quase um traço da personalidade. São aquelas que desde muito cedo fizeram a opção pelas ciências exatas e orgulham-se disso (o termo “exato” não é inocente!). A inclinação pelas certezas é transformada em profissão. São mais aptos do que a maioria e, mesmo estes, encontram a mesma decepção. As previsões sobre o deficit público viraram piadas, o preço do petróleo continua a ser um mistério insondável. Investir na bolsa tem a mesma ciência da roleta dos casinos. A desilusão com o sistema político é mundial. Todos procuram a causa das falhas, corrigem e garantem que o próximo ano será diferente. Em meio a democratas desesperados e o seu contingente de arrependidos, o cientista político Adan Przeworsky prescreveu a cura: “ame a incerteza e você será democrático”.  Ninguém lhe dá crédito, todos continuam com os olhos fixos e raivosos nas certezas.

À parte os profissionais da certeza, o que fazemos quando algo de grande impacto nos surpreendem? O comportamento é o mesmo: procura-se argumentos para justificar a ocorrência, rastreia-se as causas, faz-se previsões e elabora-se medidas para evitar que o fato não se repita. Vivemos muito esse processo no fim das relações. Fazemos um inventário do que identificamos como erros a não repetir e, mais sábios, acreditamos prontos para acertar. Somos os mesmos do início da relação anterior? Não. Temos os mesmos comportamentos da relação anterior? Não. O mais provável é que iniciaremos a nova história mutilados na nossa essência,  acovardados pela experiência anterior que falhou. Contrariando todas as nossas previsões, somos surpreendidos por entraves completamente inéditos. A incerteza apresenta-se em todo o seu esplendor. E passamos a temê-la ainda mais. O horror a incerteza é tal que está à frente das más notícias. Preferimos uma tragédia à incerteza. Preferimos um diabo conhecido a um anjo desconhecido.

E por que esse horror à incerteza? Primeiro porque a biológica é soberana. A certeza traz a segurança reivindicada pelo nosso instinto de sobrevivência. O incerto é sinônimo de desconhecido, do que traz o perigo e, no seu limite, a morte. A nossa natureza enterra a âncora na areia da margem conhecida. O nosso instinto pede a estabilidade da terra firme, aquilo que os gurus da autoajuda chamam de zona de conforto. Um território onde a escassez, a incerteza e a vulnerabilidade são mínimas. Adoramos a zona de conforto porque é o espaço onde acreditamos ter sob o nosso controle.

Imediatamente a seguir a biologia vem a cultura que prega que somos seres racionais e devemos estar no comando. Mas infelizmente, nem a biologia nem a cultura mudam o caráter da vida. O que se pode fazer, o que está ao nosso alcance é a forma de lidar com ele.

Nietzsche pode ajudar nesse caminho. Toda a sua filosofia é um convite para amar a vida como ela é: sem maquiagem, sem artifícios, sem certezas. Para ele, aquele que habita um mundo de certezas, do “tudo sob controle”, “tudo conforme o planejado” vive num mundo que não existe. Ele chama essas pessoas de niilistas, aqueles que negam a vida. E não é apenas por conta do eterno fluir do mundo. Nietzsche é mais cirúrgico. Vivemos através da nossa consciência e ela não chega.

Um dos seus aforismos é que “a consciência é uma garrafa vazia sobre um oceano de afetos em maremoto.” Passamos a vida inteira estabelecendo relações entre ação e consequência, causa e efeito. Vivemos os nossos dias como se tudo o que fizéssemos fosse intencional, pensado, previsto. Fazemos planos e negociamos com o destino para chegarmos a um ponto exato. O que nos lembra Nietzsche é que a nossa consciência é essa garrafa. Quando olhamos para dentro dela tudo parece tranquilo, sob controle, definido. Porém, no momento seguinte, a imensidão de afetos — seus e dos outros — leva a garrafa para outras paragens.

O emprego dos seus sonhos acaba, o seu grande amor vai embora. Temos muito menos controle sobre a  vida do que imaginamos.  A nossa consciência é uma ínfima parte da nossa imensa psique. O inconsciente — que temos pouco acesso — é um dos grandes senhores do castelo.

Os confiantes racionalistas tem em Nietzsche um feroz opositor. Para ele, quase tudo de mais importante — o que sentimos, por exemplo — não está na nossa consciência, não temos acesso. A recomendação de Nietzsche, assim como a de Adan Przeworsky é: ame a incerteza. E como se faz isso? Com serenidade. Aceite que grande parte do que acontece não depende de você. Aceite que alguns acontecimentos só adquirem sentido quando vistos em perspectiva, no todo.

E quando a incerteza atormentar os seus pensamentos e o temor impedir o seu sono, lembre-se de que o que é realmente importante nem sequer passa pela sua cabeça. O que você pensa é um pequeno pedaço, a maior parte permanece submersa, inacessível, fora do seu controle. Reflita sobre o que a vida traz e reaja a ela, mas aceite que nem tudo tem uma explicação racional e, principalmente, que isso não é um mal. E que, às vezes, não termos o que queremos, é uma sorte.

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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COMENTÁRIOS

  • hiverton.zen

    Muito obrigado por esse presente que nos chega nesta manhã de domingo, Margot. Você soma a grandes pensadores que despertam o melhor da Filosofia.

    Responder
  • Celso

    > Investir na bolsa tem a mesma ciência da roleta dos casinos.

    Com a diferença que na bolsa a marcação a mercado é feita por pessoas/empresas querendo comprar e vender, e no casino o resultado é totalmente ditado pelo acaso (caso não seja um cassino “viciado”). Talvez a ciência quanto a previsão do resultado? Novamente diferente, no primeiro caso, sim, impossível prevê-la. No segundo, estatística pura.

    Parabéns pelo texto e trabalho de vocês

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