Perdendo a vergonha de falar em público

  • Keila Bis

O que é importante saber sobre si mesmo para descobrir o que gerou essa inibição e se libertar dela

 

*O uso do x em algumas palavras faz referência aos gêneros masculino e feminino.

 

Todas as vezes que precisa fazer alguma apresentação no trabalho, o sofrimento começa. Não dorme bem, o estômago dói, fica pensando que as pessoas vão perceber a sua vergonha, que não vai conseguir falar. Quando chega o dia, o nervosismo é tão grande a ponto de, depois, nem se lembrar do que falou. É o mesmo medo e a mesma ansiedade sentidos quando criança nas apresentações de trabalho da escola.

Elx tem vontade de olhá-lx. Está interessadx nelx, mas fica inibidx em manter os olhos nos olhos da paquera. Não entende o motivo de se sentir assim. Acha o olhar muito sensual, mas quando chega o momento de sustentar essa troca e mostrar ax outrx que está interessadx, simplesmente não consegue.

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Está com um pequeno grupo de amigxs. Cada um diz o seu ponto de vista sobre um determinado assunto. Quando alguém lhe pergunta: “E você? O que você pensa sobre isso?”. No momento em que sente as pessoas olhando para elx, vem a timidez. Se retrai. Perde a espontaneidade, a desenvoltura. Gagueja, se sente constrangidx.

Onde a vergonha se manifesta

O desejo é de ir para o centro da pista e se divertir com xs colegas. Dançar como bem entender, se soltar, relaxar. Porém, a vergonha aparece. Queria ser aquelx que está alí só se divertindo, mas para elx isso é muito difícil. Vai um pouco, dança mais ou menos e depois dá um jeitinho de voltar para um canto qualquer.

Todos esses exemplos revelam as inúmeras formas que a vergonha se manifesta. Um acanhamento que surge quando a pessoa está sendo olhada – seja na vida profissional, num momento de lazer ou na vida íntima. Inúmeras podem ser as razões que causam esse desconforto que limita o viver e traz tanta ansiedade.

Onde nasce a vergonha

Traumas na infância, como aquelas experiências em que a criança estava se exibindo e foi ridicularizada ou julgada de forma negativa acabam por tirar a liberdade em se mostrar ao outro. Pode ser num momento em que está dançando, lendo, escrevendo, brincando, praticando um exercício. Ou ser ironizada em algum aspecto físico ou no jeito de falar de andar. O processo de aprendizado também pode ser traumático se não for conduzido com cuidado, de forma a incentivar, e não pressionar – o que pode deixar registros na psique, como: não sou inteligente, sou lerdx, sou desajeitadx, sou feix…

Outra razão desse tipo de timidez tem a ver com a sexualidade. Para muitas pessoas, lidar com o sexo, com a própria sexualidade, com a libido, com o tesão do corpo, não é fácil. Talvez por ter vivido momentos de muita repressão sexual, por ter sido educadx em doutrinas religiosas que não tratam do assunto de forma natural. Ou ter crescido com famílias muito conservadoras que não veem o prazer sexual como algo que existe e que pode ser desfrutado com tranquilidade. Ao falar em público, os desejos sexuais reprimidos – portanto, inconscientes – podem levar à inibição. Como se naquele momento, a sexualidade reprimida fosse desnudada.

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O medo de se expor e não agradar e não ser aprovado também tiram o prazer sentido ao se falar em público ou para grupos pequenos. Será que uma autocobrança excessiva está por trás?  Um perfeccionismo cruel? Acertar sempre, não poder errar nunca, para agradar x outrx? Um não saber olhar para si sem repreensão? Um querer ser perfeitx para ser tudx para a outra pessoa, para ter admiração, reconhecimento? Ou será que é uma vontade reprimida de querer ser melhor, superior ax outrx?

Não se reprima

Muitas pessoas rejeitam a sua vontade de ser apreciada, olhada, admirada, de ter sucesso, como se isso fosse algo feio. A boa educação não deixa? Qual é o problema em querer ser o centro das atenções, em atrair todos os olhares de uma festa ou numa reunião de trabalho ou onde quer que seja? Por que não se apropriar dessa vontade e desse gostinho de: “uau, eu arrasei. Todo mundo olhou para mim com admiração!”.  Pode ser que, dependendo da educação e valores recebidos, isso não é aceitável, não é do bem, como se somente a humildade fosse bem vista.

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Essas investigações são importantes de serem feitas para que se descubra o que está guardado no inconsciente que acaba por gerar o medo de falar em público. São muitos os desejos e vontades reprimidos por conta de uma educação muito moralista assim como traumas que não foram olhados, reconhecidos e falados. Dar esse mergulho na vida psíquica é um passo importante rumo à liberdade e o prazer de falar em público e se sentir à vontade diante do olhar dx outrx.

 

Keila Bis é jornalista de bem-estar, terapeuta floral e psicanalista. Há alguns anos vem se dedicando a estar mais próxima do seu mundo interior. Além disso, escreve na primeira terça-feira de cada mês aqui no Portal. Para entrar em contato, mande seu e-mail para: [email protected]

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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