O fascínio de tomar o rumo nas próprias mãos

  • Juliana Reis

Algumas transformações pessoais pedem não só outros ares, como também certa dose de solidão para que aconteçam. Decidi viajar sozinha.

 

Eu aguardava a decolagem já com o cinto afivelado. Que demora! Esperei anos para embarcar numa viagem sozinha e agora não saía do chão. Meu assento ficava na primeira fila e eu era única passageira. Notei minha mãe acenando na pista. Vinha me dar um último adeus. Pediu licença ao piloto, entrou no avião e dirigiu-se a mim carregando uma bebê. Disse que eu precisava observar muita coisa nessa viagem – por isso, a aeronave era transparente (?!). E que a bebê eu levaria junto porque cuidar dela era parte da minha missão. Nos despedimos.

Só lá no alto é que notei: a bebê, acomodada ao meu lado, era eu mesma.

Acordei com meus pais me chamando para o último café da manhã naquela casa. Nos próximos 5 anos eu não voltaria pra lá. Ou melhor, eu nunca voltaria. Pelo menos, não como a pessoa que havia partido. Meu voo de verdade mesmo decolou à tarde. Na poltrona à esquerda, um francês ouvia repetidamente uma canção no volume máximo. E a cada vez que o refrão crescia vazando pelos fones de ouvido, ele me olhava sorrindo e convidando a cantar junto “é a minha vida, é agora ou nunca, não vou viver pra sempre”.

Sozinha confrontando medos

Dizem que sonhos são uma via de acesso a conteúdos reprimidos em nosso inconsciente. Não importa. Antes daquela viagem, eu só tinha a consciência de ser alguém com muitos medos. Medo de estar sozinha, de não ser amada, de não me encaixar…Também tinha medo do escuro, o que me levava ao ridículo de chamar pela minha irmã quando abria os olhos no breu da madrugada.

Um dia, achei que seria boa ideia confrontar os medos até vencê-los. E viajar sozinha daria cabo de todos os meus temores juntos. Então, parti para uma longa temporada sabática pelo mundo, sem companhia. E não foi uma nem duas vezes que, dormindo em hotéis estranhos e quartos coletivos de albergue, gritei sem querer o nome da minha irmã. Com o tempo, venci o escuro e parei de passar essa vergonha.

Do medo da solidão eu fugia muito bem, fazendo amigos viajantes aqui e ali e me encaixando em seus roteiros. Até ser largada sozinha em Valência, na Espanha. Irene e Gernot, intercambistas austríacos da região do Tirol em busca de “fiesta”, me convidaram para um final de semana prolongado e, chegando lá, sumiram.

Sumiram.

Abrir um mapa para buscar outro destino – de preferência popular entre mochileiros – onde eu pudesse me pendurar em outro grupo de viajantes? Ou dar uma chance à pulsante e mediterrânea Valência, a terra da paella, cidade de dois mil anos e de estruturas futuristas? Com raiva de Gernot e Irene, vontade de voltar pra casa e frio na barriga, experimentei o gosto azedo da primeira decisão tomada exclusivamente por mim.

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Gradativamente, meus passos inseguros em Valência ganharam a firmeza com a qual empreendi minha marcha solitária pelo mundo nos próximos anos.

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Um passo para frente, um passo para dentro

Um ano após o sumiço dos austríacos, voltei à Espanha, desta vez para um encontro especial. Escolhi uma pensão barata no País Basco como pausa estratégica: dia de lavar roupas e descansar. E foi no ato aparentemente banal de me dirigir ao vestiário compartilhado, carregando meus pertences – agora reduzidos ao essencial – que notei refletidos no espelho meu poder interno e independência. Finalmente.

Eu vinha da Turquia e seguia para um vilarejo na rota do Caminho de Santiago para interpelar uma certa peregrina: minha mãe. Comprara uma bata cor laranja para usar na ocasião. É que descobri, convivendo tão somente comigo, que o laranja valoriza minha personalidade. Queria que ela me encontrasse em toda minha plenitude.

Passamos poucos dias juntas. Logo nos despedimos e continuei meu rumo por conta própria ainda por muitos anos. Com o tempo, comecei a conversar com minhas coisas e a falar sozinha, o que considerei um exercício saudável de autodesenvolvimento.

O fascínio de ir sozinho, acredito, mora na ideia de que uma viagem solo é um percurso terapêutico. É como a toada de um peregrino: um passo para frente, um passo para dentro. A maneira como enfrentamos as provas que uma viagem solitária nos apresenta define nosso poder de reagir aos contratempos diários da vida em diante.

A maior transformação de viajar sozinha foi a possibilidade de descobrir quem eu sou verdadeiramente. Foi preciso ir longe – e só – para entender o que está dentro.

Hoje já não tenho mais tanta vontade de viajar sem companhia. Quero compartilhar a trajetória com os que amo, dividindo ideias, gargalhadas e até alguns medos que aparecem no caminho. Mas depender totalmente do outro para progredir é algo a ser considerado com cautela. O equilíbrio continua sendo minha solução favorita.

Dia desses reencontrei Irene e Gernot nas redes sociais. Parecem sãos e salvos, de volta ao Tirol. Perguntei onde haviam se metido, afinal! Pelo menos até a publicação desta coluna, não obtive resposta. Mas isso já não importa.

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