Eu, herói…

  • Eugenio Mussak

Todos os dias cumprimos a nossa jornada do herói, aprendemos mais sobre nós e sobre o outro. Basta ficar atento

 

Em 1981, foi lançado o filme Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida. Fui logo assistir e, claro, adorei. Indiana, até então desconhecido, rapidamente se transformou em um dos mais carismáticos e ilustres personagens da filmografia mundial.

Gostei do Indiana logo de cara e ainda o carrego como um desses ícones fictícios de que tanto precisamos desde sempre. E que surgiram já nas primeiras histórias e na literatura ancestral. No século 9 a.C., Homero criou aquele que talvez seja o maior de todos, Ulisses, que lutou durante dez anos em Troia até a vitória, e depois levou mais dez para voltar para casa em Ítaca, e encontrar sua Penélope, passando por poucas e boas.

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Mas, por que será que precisamos de heróis? Uma boa fonte para essa resposta são os estudos de um professor americano, o mitologista Joseph Campbell (1904-1987), resumidos em dois livros: O Herói de Mil Faces, e O Poder do Mito, este, do jornalista Bill Moyers, e que também virou um badalado documentário. Campbell bebeu em várias fontes, inclusive em Freud e Jung, para chegar à conclusão que precisamos de heróis como símbolos inspiradores, pelo simples fato de que as aventuras de um herói mitológico encontram incrível paralelo com o cotidiano de qualquer pessoa. A descrição que ele faz da jornada do herói é muito estimulante, e costumamos nos identificar com ela. 

Vamos à luta

É composta por fases que podem ser agrupadas em: partida, iniciação (a jornada propriamente dita, cheia de perigos) e retorno. Todas as fases podem ser identificadas até no cotidiano rotineiro de cada um de nós. Afinal, saímos de casa, vamos “à luta”, como já se consagrou dizer, e voltamos no final do dia, apenas para nos preparar para a próxima jornada. Todas têm suas dificuldades, inclusive o retorno, pois o herói tem que escolher se voltará para casa ou não, uma vez que, se ele voltar, verá que não pertence mais àquele lugar, considerando que ele mesmo se transformou na jornada. 

No primeiro filme, Indiana viaja meio mundo, enfrenta selvagens, assassinos e nazistas, além de cobras, aranhas e armadilhas mortais, em busca de indícios da existência da Arca da Aliança, onde, segundo pistas da Bíblia, estariam guardadas as tábuas dos Dez Mandamentos e outros objetos sagrados. Quem a encontrasse teria um canal direto para falar com Deus. Por isso os nazistas não mediam esforços para encontrá-la. 

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Ele volta sem a arca, mas com o sentimento de que cumpriu seu dever. O filme é incrivelmente bem escrito e dirigido. Jones acorda todos os dias sabendo que terá o que enfrentar, ainda que não faça ideia do que será. E sempre é pior do que ele esperava. Mas ele sempre encontra uma saída. Em uma cena engraçadíssima, após muitas dificuldades, o herói consegue um lugar a bordo de um navio mercante, junto com sua companheira de aventura, sua ex-namorada e grande amor de sua vida, Marion. Enquanto Indi examinava seu rosto machucado num espelho, Marion, sem querer, vira o espelho e lhe dá uma pancada no queixo, equivalente ao soco de um boxeador. Essa é apenas uma das cenas que mostram que os perigos surgirão de lugares inesperados. 

Ir em frente

Os livros de gestão, especialmente aqueles voltados ao empreendedorismo, exploram temas como “contingências”. Alem de assuntos, como: “revisão da estratégia”, “gestão de crises”, “curva senoidal da economia”, “mudanças estruturantes”, entre outras medidas administrativas, e todas elas cabem na vida de Indiana e dos heróis míticos. Quem é, então, o verdadeiro herói? O cantor e compositor Freddie Mercury escreveu We are the Champions, em que diz que todos cometemos erros, cumprimos sentenças, pagamos nossas dívidas lentamente, levamos areia na cara, e todos os dias seguimos em frente. Sim, somos os campeões, os heróis. 

Estou escrevendo este texto numa manhã de uma segunda-feira chuvosa. A um toque, meu computador mostra minha agenda da semana. Viagens, reuniões, palestras, aulas, decisões a tomar. A agenda eletrônica só não mostra os socos inesperados de espelhos giratórios, nem as cobras que se aninharam na mala. E também não dá conta das ajudas inesperadas, das pessoas que estarão comigo nessa jornada, nem das surpresas, boas e ruins, que me aguardam.

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Como explicou Campbell em seu livro: “Não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos a enfrentaram antes de nós. Temos apenas que seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus. E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos. Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro da nossa própria existência. E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo”. E vamos em frente. Vai que encontramos a arca…

 

Eugenio Mussak também viveu aventuras e enfrentou dificuldades em sua vida, muitas delas contadas em textos por aqui. @eugeniomussak


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