O mundo é uma quitinete!

  • Lu Gastal
  • FOTOGRAFIA: Alessandro Biascioli | iStock

Encontros, ao acaso, de pessoas queridas, gente que nos ajuda na nossa caminhada e que faz a vida parecer uma cidade bem pequena

 

Você viaja quase 2000 km e, 15 intermináveis horas depois, chega a um lugar até então desconhecido. A ideia é desbravar cada cantinho da peculiar localidade: deixar fluir as próximas 100 horas da vida naquela cidadezinha pacata e sossegada,  longe, muito longe, da cidade grande, barulhenta e agitada. 

Nas primeiras horas, cruzam, literalmente, no seu caminho, pessoas que lá estão no mesmo intuito: respirar arte, cultura, sossego; e numa providencial carona, descobre-se que todos se deslocam ao mesmo local para a refeição “do dia”. 

Ok… a cidade é pequena, mas há variedade de locais para entregar-se ao momento “eu-mereço-e-agora-vou-comer-calmamente”. Logo na entrada do acolhedor espaço, o comum acordo de sentar-se juntos; afinal, já houve a coincidência da carona desde um ponto distante até esse local em comum.

Por que não? Num mundo atual tão digital e individual, em que a maioria das pessoas caminha de cabeça baixa, conectada a seus próprios e particulares universos, sentar-se à mesa com “estranhos” não lhe parece esquisito?  Talvez sim… talvez não! 

No entanto, alguns passos à frente, para sua surpresa, avista alguém querido e especial, que há anos sumiu do seu raio de visão e convívio. Então os olhares se encontram e os sorrisos denunciam: reencontro à vista! 

Esse alguém têm amigos à mesa, e juntos, sentam-se todos. Cinco minutos depois de uma breve roda de apresentações, conclui-se:  há histórias diretamente conectadas entre aqueles 3 grupos de pessoas diferentes e, literalmente,  “tudo a ver”! 

Reza uma lenda oriental que as pessoas destinadas a se encontrarem tem uma linha vermelha imaginária amarrada entre os dedos. Não importa o quanto demore para conhecer essa pessoa, não importa o tempo que você passe sem vê-la, não importa se vive do outro lado do mundo: o fio estica-se ao infinito, mas nunca se parte! Uma linha vermelha que nos conecta às linhas (e corações) de outras pessoas.

Dizem que, quem está ligado pela linha vermelha, conecta-se também pela força da própria vida. Assim, são pessoas destinadas a viver uma história de aprendizado e apoio mútuo, independente do tempo, distância ou circunstâncias. Dizem que as linhas vermelhas podem se ESTICAR, se CRUZAR, EMBARAÇAR, mas nunca serão ROMPIDAS.

Ou seja, uma teia de vida, de relacionamentos, de encontros. Os orientais pensam que esses encontros de vidas não decorrem de sorte, e que não somos tão poderosos quanto pensamos; visto que não decidimos certas coisas sobre nossas vidas.

Além disso, conversas cruzadas acontecem ao redor daquela mesa, aliás, dizem que ela, a mesa, é um instrumento imprescindível para a arte do encontro. Em poucos minutos, histórias entre pessoas de diversos cantos do país estão ali conectadas, entrelaçadas por imaginários fios vermelhos. 

Tenho um pequeno livro na cabeceira da minha cama; daquelas leituras rápidas e leves, poderosas para ensejar reflexões preciosas em fatos cotidianos que pouco paramos pra pensar. Com o título “Roube como um artista”, o autor Austin Kleon sugere 10 preceitos sobre situações palpáveis do dia-a-dia, e o oitavo preceito é o que reverbera em meus pensamentos: SEJA LEGAL! O mundo é uma cidade pequena!

Em suma, pensando na arte do encontro, e nas linhas vermelhas que se emaranham pelas cidades, ao redor de mesas e por lugares mais variados da vida, alguém diz:  o mundo é uma quitinete.

 

Lu Gastal trocou o mundo das formalidades pelo das manualidades. Advogada por formação, artesã por convicção. É autora do livro “Relicário de afetos” e participa de palestras por todos os cantos. Desde que escolheu tecer seus sonhos e compartilhar suas ideias criativas, não parou mais de colorir o mundo ao seu redor. Seu instagram é @lugastal.

 


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 243, maio de 2022 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*