Em tempos de quarentena, sinta mais

  • Lu Gastal

Entre frações de autocuidado físico e mental que passaram a integrar minha rotina, em plena quarentena de isolamento social e abraços apertados, recebo meu novo ano com sorriso no rosto

 

Na primeira página do livro “Uma Gloriosa Liberdade – mulheres maduras, vidas extraordinárias”, a autora Lisa Congdon presenteia o leitor com palavras de Anne Lamott. “A idade me deu aquilo que procurei pela vida inteira – me deu eu mesma. Deu-me tempo e experiência e fracassos e vitórias e amigos duradouros que me ajudaram a assumir a forma que me aguardava. Eu, agora, encaixo-me dentro de mim. Tenho, afinal, uma vida orgânica, não necessariamente aquela que as pessoas imaginavam para mim ou que tentaram fazer com que eu tivesse. Tenho a vida que eu desejava. Tornei-me a mulher que eu mal me atrevia a imaginar que viria a ser”.

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Em plena quarentena, quando o mundo parou em prol de medidas drásticas de isolamento social no combate ao coronavírus, iniciou meu novo ano. Eu, que sempre apreciei abraços reais (apertados, preferencialmente), entendi que, dessa vez, qualquer forma de amor seria bem vinda. Se há duas semanas escrevi o meu artigo dentro de uma sala de CTI,  sem janelas mas com um amor pulsante que lutou ferozmente até o último sopro de vida, hoje compartilho essas palavras diretamente da sua morada. Um lugar amplo, ensolarado, silencioso, onde a paz é tão intensa que acalenta esse coração que vos escreve. Em duas semanas (que me parecem um mês) meu pai partiu. Meu coração se fracionou em pedacinhos e um vírus avassalador obrigou todos nós a mudarmos radicalmente. Tempos para encarar nossos medos!

Mudanças de “idades zeradas”

Em plena quarentena, sem desrespeitar ordens de isolamento social, recebo de braços bem abertos meu 49° ano. Num tempo de surpresas, mudanças, superações e amor intensos. Em época de intensas reflexões, associo a proximidade dos meus 50 anos às crises inerentes dos períodos de “idades zeradas”.

Se aos 20 anos a vida nos parece leve e as dúvidas versam sobre a transição da fase adolescente para adulta, acredito que na virada dos 30 e 40 os questionamentos aumentem proporcionalmente. Ok, somos pessoas diferentes, com maneiras e sentimentos diversos, mas lá no fundo do coração buscamos algo em comum: bem estar e frações de felicidade!

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Cá com meus botões. Não vivi a “crise dos 30”, apenas porque poucos dias antes de zerar minha década dos 20 e tantos, experimentava uma maternidade dupla. Entre a exaustiva e gostosa rotina de amamentar, trocar fraldas, dormir pouco e cuidar de uma filha recém-nascida e sua irmã, que tinha menos de 3 anos e nada entendia sobre a chegada do bebê Lulu, o escasso tempo restante era usado para dormir. Eis que chegaram meus 40, tempo em que também não recordo de nenhuma crise existencial. Há alguns meses havia chutado o balde, com a cara, a coragem e toda força que habitava meu 1m80 para mudar radicalmente minha atividade profissional.  Foi quando a Luciana advogada abriu portas para a Luciana artesã de forma real-oficial.

Sentir o bem-estar

É claro que nesse passar de anos deve ter rolado algum inferno astral, e tá tudo certo. É vida real que temos! Mas depois dos quarenta e vários anos, mudanças chegaram sem pedir licença e bagunçaram meu modus operandi, a começar pela visão, que literalmente despencou. Na sequência, sem ser consultada, recebo a visita da Sra. Menopausa, e aí a bagunça foi grande. Confundia sensações de exaustão e calores dos infernos com sintomas de ansiedade. Na sequência, noites insones me roubaram a energia nos dias seguintes, e por aí a lista de novidades indesejadas não cessou.

Mas os tempos evoluíram, e mesmo que a tal menopausa ainda seja um tema bastante silencioso, e a maioria das mulheres insiste em apenas fingir que não existe, há hoje entre nós diversos conteúdos que versam a respeito, exatamente para auxiliar o mundo feminino a driblar essas dificuldades e curtir a vida do jeito que queremos e merecemos. Onde o bem estar é a estrela da festa. Mas, aos poucos entendi que priorizar atividade física, ações saudáveis e relacionamentos que somam era uma concessão que fazia a mim mesma e resultava num bem estar inexplicável.

Sinta mais do que entenda

Entre frações de autocuidado físico e mental que passaram a integrar minha rotina, em plena quarentena de isolamento social e abraços apertados, recebo meu novo ano com sorriso no rosto e disposição para vivê-lo. Exatamente por ter demandado atenção e cuidados referentes à essa mudança hormonal que me furtava energia e colágeno, entendi que na vida de uma mulher 45+ qualquer ação tem suas implicações e compensações, e que, para viver bem, são necessários cuidados menores do que imaginava.

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Em plena quarentena, tempos de medos e incertezas, quero sentir mais que entender. Talvez a maturidade tenha ensinado que as melhores coisas da vida não têm explicação. E para me despedir dos 48 e do texto de hoje, parafraseio as palavras de Anne Lamott: “a idade me deu eu mesma; tornei-me a mulher que eu mal me atrevia a imaginar que viria a ser”

 

Lu Gastal trocou o mundo das formalidades pelo das manualidades. Advogada por formação, artesã por convicção. É autora do livro “Relicário de afetos” e participa de palestras por todos os cantos. Desde que escolheu tecer seus sonhos e compartilhar suas ideias criativas, não parou mais de colorir o mundo ao seu redor. Seu instagram é @lugastal.


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