DJ de mim

  • Rodrigo Vergara
  • FOTOGRAFIA: Jens Lelie | Unsplash

Contra o arrependimento, busco parar de julgar minha decisão de ontem com a consciência de hoje.

Você tem um método para tomar decisões? Eu sempre tive. Durante um longo período da minha vida, sempre que uma escolha se apresentava, eu lançava mão do mesmo processo, que tem duas fases. A primeira etapa envolve adiar a decisão até o último instante. Uma vez consumada a escolha, o método dispara a segunda fase, o arrependimento. Às vezes, vem uma terceira etapa: tentar refazer a escolha, com aflição e desespero. Pois é, eu sempre tive problemas em tomar decisões.

E isso independe da importância da escolha. Seja um formulário de vestibular me exigindo uma escolha de carreira para o resto da vida ou a balconista da sorveteria me olhando impaciente com a casquinha na mão, eu emperro.

Tuuuuuuuuudo perfeito

A premissa por trás do meu método é a busca da perfeição. Para evitar fazer uma escolha que possa revelar qualquer tipo de problema posteriormente, eu peso prós e contras em loopings sucessivos, checando cada vantagem e desvantagem. Depois repasso mentalmente tudo em revista, conferindo as notas dadas a cada quesito. Não é raro que, a cada nova volta desse autorama mental, eu descubra um elemento novo na paisagem, que eu não tinha avaliado antes. A aflição atrasa a decisão, reduz o prazo, mas os elementos novos fazem crer que uma nova checagem é necessária. Enfim, um inferno.

Em geral, o prazo acaba antes de eu me dar por satisfeito em meu Grande Prêmio da Indecisão. Seja por um limite burocrático (o fim do prazo para entrega do formulário) ou pelo esgotamento dos mananciais de paciência de quem estiver me acompanhando na sorveteria, sou forçado a estacionar onde estiver no circuito da obsessão.

O de sempre

Por fim, a decisão que nasce daí em geral é pedestre: ou escolho a opção de sempre (“chocolate, por favor”) ou opto por alguma que alguém achou melhor (“Tá certo, pai, vou tentar odontologia”). Porque a segunda premissa do método é correr o menor risco possível.

Talvez você tenha feito a si mesmo, agora, a pergunta que eu demorei muito a me fazer: risco do que? No meu caso, o maior risco é ser criticado por mim mesmo, caso minha escolha dê o menor sinal de não ser perfeita. O que acontece em 120% dos casos.

Porque escolher, decidir ou fazer guardam uma diferença crucial do processo de pensar. Decidir, escolher ou fazer equivalem a abraçar a imperfeição. Na cabeça, tá tudo sempre dominado. Antevejo minha escolha, prevejo como o mundo vai reagir e antecipo minha reação. Aí o mundo vai reagir de certa forma e então eu vou fazer tal e tal coisa. Pronto. Decidido.

decisão

Crédito: Erwan Hesry | Unsplash

Universo teimoso

Seria perfeito, se o mundo colaborasse um pouquinho e obedecesse o script que eu cuidadosamente escrevi para ele. Mas ele nunca faz isso, universo mimadinho. Tem sempre uma surpresinha. Basta eu sair, todo pimpão saltitante com minha decisão perfeita, pensada e repensada.

Logo, o universo bota no meu caminho uma casca ontológica de banana metafísica e eu me esborracho na concretude da realidade. Enquanto me apalpo para conferir os danos (um dente quebrado, um joelho ralado, um orgulho ferido, entre outros males menores), já ecoa nos alto-falantes do salão mental a voz do tirano interno, tirando sarro de mim: “Nota zero!”. Cantando pneus na freada, estaciona ao meu lado o camburão do arrependimento, para me conduzir coercitivamente ao ponto inicial e voltar atrás na escolha.

Tenho uma galeria de imagens das diversas derrotas alcançadas nesse circuito da Indecisão: compras devolvidas, formulários rasurados, viagens canceladas, acordos desfeitos, ausências em encontros.  Se você se identificou em alguma medida com meu método, dá sua mãozinha aqui. Tenho compaixão. E, talvez, uma opção que te atenda.

Dançar o samba de agora

Não faz muito tempo, concebi uma metáfora que me ajuda. A metáfora do equalizador. Sabe aqueles equalizadores de som, em que você pode definir o volume de graves, médios e agudos que você quer nos falantes? Se você nunca viu, vou descrever em poucas palavras: imagine um painel com 10 botões enfileirados, cada um regulando uma determinada frequência de som. O da esquerda aumenta ou diminui os graves. O da direita aumenta ou diminui os agudos. Os do meio são as frequências intermediárias.

Agora imagine que, em vez de frequência de som, cada botão regule uma necessidade ou um desejo. Tem aqueles mais evidentes: fome, conforto, segurança. Tem os mais nobres: empatia, afeto, respeito. E tem os que operam na sombra, fora da nossa vista: ciúme, inveja, vergonha, mesquinhez.

decisão+arrependimento

Crédito: Neonbrand | Unsplash

Eu, DJ

É impossível eu ter consciência da configuração exata desse painel imenso, a cada momento. No entanto, todos os botões estão sempre presentes e operando, influenciando de maneira inconsciente minha percepção sobre a música que o universo coloca para eu dançar. E determinando, em grande medida, minhas escolhas. Se o volume da fome estiver alto, talvez eu nem consiga ouvir a paciência. Se houver muito ciúme nos falantes, minha dança pode ser mais agressiva.

Na minha experiência, essa equalização muda o tempo todo, muito rapidamente. Às vezes, ao perceber que meu dia está com um tom mais cinzento, mais triste, consigo rastrear até identificar a origem do pesar. E muitas vezes foram coisas pontuais que mudaram a equalização: uma notícia, uma mensagem de um familiar, uma lembrança de um desentendimento com um amigo. E esse ruído tem impacto sobre minhas escolhas naquele momento.

Sem arrependimentos

Dessa forma, entender esse processo me ajudou a me criticar menos. E posso dizer que me arrependo bem pouco, desde então. Porque acho muito cruel julgar minhas decisões do passado com a equalização do presente. Seja uma decisão de um ano atrás ou do minuto anterior, naquele momento em que escolhi estavam presentes elementos que hoje não estão, para o bem ou para o mal.

Por fim, essa consciência me permitiu confiar que qualquer decisão tomada foi a melhor para o bolero do momento. E liberou minha atenção para aguçar o ouvido e dançar o samba de agora.

Achei que você gostaria de saber dessa história.


RODRIGO VERGARA escolheu ser jornalista em 1988, ator improvisador em 2014, facilitador de processos de confiança em equipe em 2016 e fundador do PlayGrounded – a Ginástica do Humor, em 2020. Foram as melhores escolhas que ele podia fazer.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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