Culto ao inculto

  • Fabio Gandour

Hoje, a ignorância é voluntária. Deliberada. Consciente. Produz um certo orgulho arrogante. E o que é realmente estranho é que a ignorância se manifesta como um tipo de iluminação

 

Culto pode ser um substantivo ou um adjetivo. No primeiro caso, culto é o momento para se praticar um conjunto de atitudes e rituais, de caráter religioso, de respeito, homenagem e veneração. No segundo caso, alguém é chamado culto quando tem cultura, conhecimento, erudição. Ser culto, civilizado, educado e gentil são atributos de seres humanos. Uma qualificação positiva.

A ausência destes atributos qualifica uma pessoa como ignorante. A ignorância, um atributo também humano, se refere à falta de conhecimento. Ignorante é um substantivo que se aplica a uma pessoa sem conhecimentos. Uma qualificação negativa.

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A observação do mundo atual mostra que, a cada dia, aparecem mais pessoas que praticam um estado consciente e deliberado de desconhecimento. Uma espécie de veneração à falta de conhecimento. Culto à ignorância. Um culto à falta de cultura. Um culto ao inculto.

Nova contracultura?

Seria o culto à falta de cultura uma nova contracultura? Contracultura foi um movimento surgido em meados da década de 60, a partir de um estilo de mobilização e contestação social, utilizando os novos meios de comunicação em massa que surgiam naquela época. Os jovens adotaram comportamentos mais liberais, mais alternativo, em busca de novos valores, que se opunham aos valores tradicionais da sociedade. O existencialismo de Jean Paul Sartre, o movimento hippie e o festival de Woodstock foram respectivamente, a base teórica, a mobilização global e a maior celebração da contracultura. E o lema da contracultura foi “paz e amor”, que sobrevive até hoje perenizado pelo símbolo característico e de fácil reconhecimento.

Apesar da frequente associação da contracultura com ideários políticos, a sua essência era não-violenta e de combate às guerras, principalmente a do Vietnan, que se estendeu até 1975.

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Preocupações com preservação ambiental e emancipação sexual também eram parte daquela contracultura dos anos 60. Definitivamente, nada a ver com o culto à ignorância dos dias atuais.

O que anda por aí

Sim, o aparecimento de novas formas de comunicação tem tudo a ver com este novo homem. Novo e que se renova de forma cada vez mais rápida e em prazos cada vez mais curtos. Já foram geração X. Já foram “millennials”. E agora são alguma coisa entre Z e o que vier depois.

Fonte: Colégio Constelação

Muito já se tem dito desta transformação geracional, que apresenta traços típicos como a fácil convivência com o mundo digital, onde os átomos perdem a relevância em relação aos bits e, portanto, a matéria é menos importante do que a sua representação em alguma tela de cristal líquido.

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Tanto mais se observa a evolução destes grupos de novos humanos, mais se identifica alguns traços às vezes antagônicos e outras vezes paradoxais. Um exemplo: a um narcisismo e egocentrismo evidentes, a necessidade de pertencer a algum agregado populacional é também essencial. Querem ser um “eu” mas pertencer a um “nós”. A necessidade de pertencimento é mais que uma questão de afirmação. É sobrevivência. Mas no mesmo processo que cria toda esta transformação, certos comportamentos inspiram cautela. E para entender o porque da cautela, vamos ao culto ao inculto.

Positivo x Negativo

Ninguém quer ser menos no que é positivo. Todos nós queremos ser mais. Queremos ser mais no que é positivo e menos no que é negativo. Por isto, traços de comportamentos tradicionalmente negativos, como intolerância, racismo, ódio, xenofobia, ganância, despeito, crueldade foram sempre considerados inaceitáveis por serem associados ao desconhecimento e falta de cultura. Portanto, sintomas de ignorância.

No entanto, o entendimento e a aceitação do que é considerado positivo e negativo está se transformando. Se mostrar ignorante ou simplesmente ignorar conhecimentos básicos de forma explícita passou a ser considerado em certos agregados humanos, um comportamento positivo.

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Hoje, a ignorância é voluntária. Deliberada. Consciente. Produz um certo orgulho arrogante. E o que é realmente estranho é que a ignorância se manifesta como um tipo de iluminação. No mesmo arcabouço digital que criou egos e narcisos, prolifera um semi-mundo tragicômico onde cada manifestação de ignorância, em fotos, textos, vídeos e memes, tem plateia confirmada e aplausos garantidos. Além da inevitável replicação exponencial.

Por enquanto, o semi-mundo é tragicômico, mas o componente da tragédia pode crescer mais do que o da comédia. Por isto, há que se ter cautela diante deste culto à ignorância.

Culto à ignorância

A sociologia moderna já identificou os componentes desta mudança. Por trás dela, está a dissonância cognitiva, nascida no berço do antagonismo existente entre a ênfase no eu e a necessidade de pertencer ao grupo do nós.  Aí também aparece a regressão à infantilidade, que parece ser mais uma atitude de conveniência. E o narcisismo maligno cujas causas e consequência serão explicadas em algum ponto do futuro. Cada um destes componentes merece uma análise individual e quem sabe, um dia voltemos a eles. Por enquanto, além do alerta de cautela, a recomendação de atenção para comportamentos que ignoram regras sociais de boa convivência e se orgulham disto. É um sintoma de culto à ignorância.

 

Fabio Gandour é colunista da Vida Simples e um permanente observador social. Ele anda preocupado com a sobrevivência da espécie humana.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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