Ciclo do bem

  • Giuliana Sesso

Fomos criados em uma sociedade que nos ensinou que nossos pertences que gostamos mas não queremos mais são passados entre pais e filhos ou para outros membros da família. No máximo são dados a amigos muito próximos. E os outros, de menor importância e pelos quais não temos mais apego vão para doação.

Assim nossas casas, nosso guarda-roupa, nossos armários vão ficando entulhados de coisas que não nos interessam, mas que nos foram dadas por alguém querido que tem a expectativa de que aquilo seja importante ou bom para nós também, de coisas que compramos, mas não queremos mais, que não combinam mais com o nosso estilo de vida, peças que não nos servem mais (mas temos a esperança de que depois daquela dieta vão voltar a servir!), coisas que que usamos pouquíssimo ou quase nunca.

E assim seguimos, planejando fazer novas compras, sem perceber ou lembrar de toda essa energia presa e espaço ocupado. Até que resolvemos “dar aquela geral” na casa e  não sabemos como nos desprender desses bens, que em geral estão em ótimo estado e com pouco uso.

A questão do acúmulo de roupas, de coisas para a casa, de coisas antigas é ainda mais complicada quando olhamos para o comportamento feminino. A maioria de nós foi criada de uma forma erroneamente competitiva, que nos fazia acreditar que as outras mulheres estavam sempre de olho no que é seu, que você precisava sempre se sentir a mais bonita, a mais bem vestida e inclusive ter o que as outras tem.

Dessa forma fomos comprando e acumulando coisas que usamos pouquíssimo, que muitas vezes tiveram sim um papel especial em algum momento, mas talvez não façam mais sentido. Compramos muitas coisas por impulso ou até com a consciência de que seria algo “de fase”, principalmente quando se trata de consumo de moda.

Mas como se desfazer de bens em ótimo estado, que fizeram parte da nossa história, nos quais fizemos investimentos financeiros, que têm valor emocional?

E como não deixar de ter novas coisas que façam sentido para nós, sem gerar acúmulo e novos gastos altos?

E é aí que surgem duas respostas muito interessantes. Uma exige uma mudança de pensamento, a outra, uma mudança de hábito, para assim formar o que chamo de ciclo do bem.

Primeiro, e esse ponto é especificamente para nós mulheres, precisamos aceitar que já passou da hora de entender a importância da união entre as mulheres, de saber que não devemos competir e sim nos unir e nos apoiar, que somos mais fortes juntas, e principalmente ter empatia para enxergar que cada uma de nós tem suas lutas, seus desafios e também claro, suas glórias e vitórias. Ou seja, cada uma de nós tem uma força incrível, histórias lindas e uma energia poderosa para compartilhar. E sim, essa força, essas histórias e essa energia podem ser muito benéficas e podem ser compartilhadas com outras pessoas através, acredite, dos nossos pertences. A mania de achar que o que é usado, o que é dos outros, pode vir com uma energia ruim ou que por eu não saber quem era o dono não vai ser bom pra mim é coisa do passado e não faz sentido algum.

Já o segundo ponto é para mim a grande solução. Solução que na verdade sempre esteve aí, mas que ao tomar vida no universo online está conseguindo fazer uma revolução poderosa na forma de consumir no mundo todo. Até então a palavra brechó tinha cheiro de naftalina, e logo eles eram vistos apenas como um recurso ingrato para vender nossas coisas por um preço absurdamente baixo, ou de comprar barato, em estado de conservação duvidoso.

Com a chegada dos tantos e incríveis e-commerces de produtos de segunda mão tudo mudou, inclusive a forma que vemos os brechós presenciais, que também se valorizaram, se modernizaram, e cada vez mais entendem a importância de uma boa curadoria de produtos.

Já os brechós online possibilitam que compremos de outras pessoas que estejam em qualquer outra cidade (ou até país), conseguimos tirar dúvidas sobre o estado da peça e tamanhos, negociar valores, ver fotos detalhadas. Podemos comprar e vender de tudo: roupas, acessórios, móveis, livros…

Mas o mais legal é como essa roda gira:  tudo isso é feito com muita transparência, atenção e carinho pelo simples fato de falarmos diretamente com o dono daquela peça. Alguém que tem apreço pelo que está sendo vendido e que entende que aquilo vai fazer mais sentido para você do que para ele.

Entendendo esses dois pontos, fazemos o ciclo do bem acontecer: eu vendo algo que cuidei com carinho para alguém que vê valor e quer comprar meu pertence com a oportunidade de pagar mais barato. E de quebra fazemos parte de uma ação muito importante e positiva para o meio ambiente, que recebe menos lixo dos descartes dos nossos acúmulos e menos resíduos da produção das indústrias.

E ainda nesse processo temos a chance de conhecer um pouco da história dessas pessoas conscientes e interessantes. Já recebi fotos de bebês lindinhos usando as roupinhas da minha filha e da casa de uma pessoa que estava realizando o sonho de se mudar para São Paulo, com as poltronas que eu havia comprado quando recém-casada.

Se você ainda não experimentou, vale a pena se entregar a esse novo movimento consciente de consumo. E quando for mandar seu produto para o novo dono, não esqueça de colocar aquele bilhetinho simpático contando a história da sua peça e desejando que ela faça parte de bons momentos da vida do novo amigo- comprador.

E que esse ciclo do bem siga girando!


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