A igualdade é possível? Eu respeito você. Respeite-me também

  • Margot Cardoso

O apelo ao respeito resolve o problema na sua fonte. A propaganda lembra que ali não há uma peça da engrenagem; há um vizinho, um familiar, um amigo

 

A igualdade é um princípio ético fundamental do homem. E no Brasil — um país de históricas desigualdades — a sua busca faz parte do DNA. Mas não somos os únicos. O mundo inteiro — do Ocidente ao Oriente — persegue esse mesmo objetivo. Mas será que a igualdade é alcançável? O que se sabe é que há a igualdade formal — todos são iguais perante a lei. Isso quer dizer que cada um pode viver como quiser, desde que cumpra a legislação e não prejudique os outros.

O grande obstáculo é que essa regra só funciona se aplicada entre iguais. Quando há desigualdades, se o estado não interferir, os menos iguais não conseguem viver como querem e ficam cada vez menos iguais. Devido a esse entrave, entra em cena a segunda face da igualdade: a igualdade de oportunidades. O estado deve proporcionar aos menos iguais, condições para que eles se tornem mais iguais. O que também não é fácil. Os não iguais comportam uma enorme diversidade — nacionalidade, etnia, gênero, orientação sexual, religiosa…

Não há para todos

Você já percebeu o problema. Não é por capricho que a filosofia política, desde os pré-socráticos — passando pela liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa — especula sobre o tema. E quando entra em cena as ambições particulares, o quadro é ainda mais confuso. Vamos supor que 10 pessoas possuem numa plantação de abacaxi. Fim de época, o abacaxizal dispõe de oito suculentos frutos. Aqui, uma metáfora da vida: os recursos são escassos — não há para todos. Como fazer uma divisão justa? Todos os trabalhadores, igualados no seu amor pelo cultivo dos frutos, renegam a igualdade na sua distribuição. Um alega que trabalhou mais, portanto reivindica um abacaxi inteiro para si. Outro afirma que seus 100 quilos distribuídos em 1,90 metro demandam mais alimento do que os outros… E assim, cada um reivindica a sua diferença.

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Essa problemática da justiça veio à luz pela mente magnífica de Aristóteles (com uma adaptação minha, claro, na Grécia antiga não havia abacaxis). Para quem vê nesse exemplo uma alegoria infantil, mude o abacaxizal para um orçamento de estado ou a renda de uma família. A pergunta é, quem tem direito a quê e porquê?

Somos iguais?

O que os fanáticos da igualdade esquecem de falar é que — tal como o colesterol — há desigualdades boas e desigualdades ruins. A desigualdade boa é a que vem do esforço, da capacidade criativa e dos talentos de cada um. Nietzsche com a sua visão aguda do mundo ria do conceito de igualdade. Precocemente genial — dos nove aos 15 anos de idade buscou o saber universal e a partir dos 17 ocupou-se da evolução ética e intelectual do homem — desafiava: somos iguais? Então venha conversar comigo.

Ora, todos nós sabemos — e sentimos na pele — essa realidade. Em diversas fases da vida, detectamos pessoas mais capazes intelectualmente do que nós e outras menos capazes; sabemos que há outros com mais dinheiro e outros com menos dinheiro do que nós; contemplamos outros socialmente acima de nós e outros tantos abaixo de nós.

Incertezas

O que se sabe é que a igualdade perante a lei é mínima; e as ações para diminuir as desigualdades são ineficientes. E a recomendação de Aristóteles “Devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”  é difícil de aplicar. Sua prática comporta complexos desdobramentos e muitas incertezas.

Infelizmente, o problema tem-se agravado. Nos países considerados civilizados e cristãos, as desigualdades e a violência gerada por elas, sobem em ritmo vertical. Os crimes de ódio e preconceito fazem as manchetes do dia. O Brasil está em quinto lugar no ranking mundial dos feminicídios — atrás de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. A agressão física e psicológica da mulher são fenômenos em ascensão, apesar de todas as leis de proteção e campanhas de conscientização. E isso para não falar no mundo árabe, onde o tratamento destinado às mulheres e crianças ultrapassa os limites do bárbaro. E não são apenas as mulheres. Minorias religiosas, etnias, homossexuais e imigrantes recebem o  mesmo tratamento.

Acolha o diferente!

Agora na pós-modernidade — talvez devido a sua complexidade — a ideia de igualdade tem gradualmente saído de cena para dar espaço a outra convidada: a diversidade. E ainda bem que o mundo busca estratégias mais eficientes. O neurocientista português António Damásio alerta que a diversidade — o contingente de desiguais — veio para ficar e  “se não houver educação massiva para a aceitação, os seres humanos vão se matar uns aos outros”.

O problema é que o processo educativo é lento. Seus efeitos demoram gerações para serem notados. O que faremos enquanto o gosto pelo outro não chega? Combater a pior desigualdade de todas, causada não pela falta de recursos ou de oportunidades, mas pela falta de respeito. Podemos ser muito diferentes uns dos outros. Mas se nos tratamos com respeito, somos, em termos relacionais, iguais. Enquanto não há pontos de contato, de semelhanças que promovam a relação entre iguais, pode-se fazer um pacto. Em que ponto somos iguais? No respeito. Eu trato você com respeito e você me trata com respeito.

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A noção de que precisamos urgentemente de respeito está em toda parte. Não é sem razão que a campanha “Tudo começa pelo respeito”, idealizada pela Rede Globo já angariou vários prêmios internacionais. Mensagens curtas, estreladas por atores, abordam temas como a violência contra a mulher, brigas de torcidas, Síndrome de Down, homofobia etc. Taís Araújo, em iluminação cinematográfica, diz : “Eu respeito seu sotaque. Eu respeito seu cabelo. Eu respeito a cor da sua pele. Respeito quem você é. Respeite quem eu sou também”. A violência contra a mulher não ficou de fora, com o alerta de Cássia Kis Magro: “Acabar com a violência contra a mulher começa com uma coisa muito simples: o respeito. Eu respeito o seu corpo, respeite o meu também”.

A salvação é o respeito

No entanto, apesar das campanhas focarem as minorias, a falta de respeito é generalizada. Médicos, professores, motoristas de ônibus e outros trabalhadores são agredidos diariamente no seu exercício profissional. Coisificados e vistos como uma peça da engrenagem — que às vezes quebram — são desrespeitados. Recentemente, em Washington, a empresa Metrobus fez uma campanha massiva de apelo ao respeito. Seus funcionários são agredidos, esfaqueados, pulverizados com fluídos, atingidos por objetos arremessados… A situação é gravíssima. Nesse quadro não é apenas a vida do motorista que está em risco, mas também a vida de todos os passageiros a bordo e das pessoas na rua. A campanha, exibida em todos os ônibus, mostrava a foto de um motorista acompanhada de uma breve biografia. “Mãe. Amiga. Motorista da Metrobus – Espero que você veja todas as coisas que eu sou e me respeite, como eu respeito você”.

O apelo ao respeito resolve o problema na sua fonte. A propaganda lembra que ali não há uma peça da engrenagem; há um vizinho, um familiar, um amigo. Mas, ali está uma pessoa que tem muita coisa em comum com você, que respeita e quer ser respeitada. Hoje, da aldeia global prometida pela internet, avista-se pequenas tribos polarizadas e raivosas, onde o ódio e a intolerância tem livre trânsito. Nesse palco, a nossa salvação, o nosso último recurso, é mesmo o respeito.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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