Saiba identificar o comportamento e se aproximar do filho adolescente
A adolescência é um período de mudanças e desafios, e a falta de diálogo pode afastar pais e filhos. Por isso, é fundamental estabelecer um ambiente saudável e com aberturas

Nunca é uma experiência individual quando se trata de casas com adolescentes. Cada pessoa ocupa um espaço, mas, muitas vezes, ninguém realmente se encontra. Em um cômodo, o filho adolescente passa horas no quarto, com fones de ouvido e os olhos direcionados para a tela do celular.
Os pais, sentados na sala, entretidos também com seus celulares, trocam olhares de preocupação: “Ele quase não sai do quarto, só vem comer algo e volta correndo.” Este é um cenário cada vez mais comum nas famílias, onde o diálogo entre pais e filhos se torna um desafio constante.
A adolescência sempre foi uma fase de amadurecimento, mas no mundo hiperconectado surgem novas questões. Redes sociais, pressão estética, excesso de informação e um isolamento que nem sempre é aparente são alguns dos desafios desse período.
O livro “A geração do quarto: quando crianças e adolescentes nos ensinam a amar”, de Hugo Monteiro Ferreira, define bem esse fenômeno: jovens que passam longos períodos no quarto, com pouca ou nenhuma interação com a família, têm dificuldades para expressar sentimentos e sofrem um alto risco de violência, tanto contra si mesmos quanto contra os outros.
Um exemplo é a série “Adolescência“, que retrata os perigos do tempo excessivo nas telas, abordando temas como cyberbullying, vingança e violência extrema. O “quarto”, nesse contexto, funciona como uma metáfora para o isolamento diante da dor, em vez de expressá-la ou pedir ajuda. Nesse cenário, surge uma questão essencial: como os pais podem compreender melhor o comportamento de seus filhos e estabelecer um diálogo aberto e acolhedor?
Sinais de que o adolescente tem dificuldade em se abrir
Para a psicóloga Tatiana Serra, nem sempre os adolescentes vão expressar claramente seus problemas emocionais ou cotidianos que acontecem na escola ou em relacionamentos, o que cria cenários de isolamento que desencadeiam em questões psicológicas, como ansiedade, ataque de pânico e depressão.
“As redes sociais são um fonte de conexões tanto positivas como negativas e para os adolescentes é quase uma armadilha entre o que é real e o que é editado. Com isso, muitos adolescentes se tornam emocionalmente frágeis, o que reduz sua capacidade de análise crítica e os torna facilmente influenciáveis pelo que veem nas redes sociais”, afirma.
Alguns sinais que podem indicar dificuldades incluem:
- Isolamento excessivo, não apenas da família, mas também dos amigos;
- Irritabilidade frequente;
- Alterações nos padrões de sono, como insônia ou sono excessivo;
- Uso elevado de videogames, comida ou álcool;
- Falta de interesse por atividades que antes eram prazerosas.
A fase das ‘primeiras vezes’
Antes de acolher e compreender o comportamento de um adolescente, é essencial lembrar que ele está passando por um período de transição natural. O desenvolvimento do córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole e pela tomada de decisão, ainda está progredindo conforme a idade, o que pode explicar reações impulsivas e dificuldades na regulação emocional.
Temas como sexualidade, saúde mental, bullying e relacionamentos são assuntos que ajudam na formação dos adolescentes, mas muitos pais evitam abordá-los por desconforto ou falta de preparo sobre o tema. O problema é que, na ausência de um diálogo aberto, os jovens buscam informações em fontes não confiáveis ou que tenham desinformações, o que pode resultar em decisões impulsivas e vulnerabilidade a situações de risco.
O anseio pela fase das “primeiras vezes” é também um fator que faz com que o adolescente queira viver todas as experiências e “abraçar” o mundo, como o primeiro relacionamento, as decepções amorosas, as descobertas pessoais, os gostos e costumes que marcarão suas vidas. Esses momentos constroem sua maturidade e os ensinam a lidar com as emoções. No entanto, isso é construído em uma relação baseada na confiança para que os adolescentes se sintam seguros para compartilhar suas dúvidas e preocupações com os pais.
Como abordar temas sensíveis sem criar medo ou culpa?
Todo pai e mãe já se perguntou: “Como abordar temas sensíveis sem criar medo ou culpa nessa situação?”. Estamos tão naturalizados a nos dominar pela sensação do medo que carregamos os nossos próprios conflitos internos sem questionar ou não contar para as pessoas ao redor. Ou seja, muitas das vezes, vivemos nosso sofrimento em silêncio para não “incomodar” ou ser julgado pelos outros. É exatamente assim que a mente de um adolescente pode agir antes de querer contar ou ter um diálogo sensível com os familiares.
“Conversas sobre vida sexual, morte, vivências na escola ou faculdade e muitos outros assuntos que são considerados ‘tabus’ são difíceis, e os pais não suportam o incômodo para falar sobre isso. Uma conversa assim requer profundidade nas relações. Pais ausentes fisicamente e emocionalmente fazem com que seja inalcançável criar uma relação de profundidade com seus filhos, o que gera distanciamento e insegurança emocional”, relata Tatiana.
Para se aproximar e construir um diálogo saudável, o primeiro passo é demonstrar interesse genuíno pelo universo do adolescente. Não é necessário adotar sua linguagem ou forçar uma conexão artificial, mas sim valorizar suas preferências, como músicas, séries e livros, e entender seus gostos sem julgamentos. Pequenos gestos, como perguntar sobre um jogo ou assistir a um vídeo viral, podem abrir espaço para conversas naturais e significativas.
Tudo isso deve ser feito com base em uma comunicação respeitosa e escuta ativa. Em vez de impor regras sem explicação, tente criar acordos e manter um ambiente onde o adolescente se sinta à vontade para compartilhar suas experiências sem medo de julgamentos. E, acima de tudo, esteja atento aos sinais de afastamento para garantir que apoio, segurança e diálogo sejam sempre bem-vindos. “O adolescente precisa saber que pode contar com seus pais por eles serem sua fonte de inspiração para aprender e até questionar as verdades encontradas”, finaliza a psicóloga.
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