Animação ajuda crianças a desenvolverem amor pelo comer de verdade

  • TEXTO Lucas Vasconcellos
  • DATA: 28/02/2021

A Viagem de Gurzi foi criada por equipe multidisciplinar e é uma ferramenta para que pais e educadores ensinem crianças sobre a importância de se alimentar bem

Dados apresentados pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) apontam que quase 20% da população adulta brasileira é obesa. Entre as crianças de 9 a 12 anos de idade, 12,9% se enquadram na categoria. Um desafio e tanto para a saúde, já que a obesidade é fator de risco para vários problemas de saúde. 

Para ajudar pais, educadores e conscientizar crianças, o médico endocrinologista Ricardo Hauy Marum, doutor pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), idealizou a animação A Viagem de Gurzi. 

Na série, Gurzi é um ET que vem a Terra para aprender a comer melhor, já que em seu planeta as pessoas estão ficando doentes. Ao lado de Bia, uma menina que mora no campo, Nico, um menino que mora na cidade, e do pássaro Espiga, conhece alimentos nutritivos, diversificados e que podem salvar vidas. 

A ideia, como nos conta Ricardo Marum, é desenvolver nos pequenos – e por que não nos adultos? – um amor pelo comer de verdade. Nos episódios não há,  por exemplo, a ideia de proibição de produtos ultrapassados (como bolachas recheadas e refrigerantes). Ali são mostrados como um prato colorido pode ser gostoso e atraente. E que tudo deve ser consumido com moderação. Os sete capítulos de A Viagem de Gurzi estão disponíveis nos aplicativos Cirquinho e FunKids (para Android e iOS), e no Amazon Prime Video.

Como surgiu a ideia de criar o Gurzi?

A inspiração surgiu após a leitura do livro “Fast Food Nation”, em 1999. Num dos capítulos deste livro, o autor descreve Walt Disney como o gênio da animação e o primeiro a perceber a criança como público-alvo para os desenhos animados e os produtos licenciados, inaugurando o conceito de sinergismo em marketing.

Eric Schlosser conta também como o Ray Kroc, comprador da rede de Fast Food Mc Donald’s, copiou o Disney e criou seus próprios personagens. Se a indústria de alimentos podia utilizar estes conceitos para divulgar seus produtos, por que nós não faríamos o mesmo, porém com o intuito de seduzir a criança ludicamente e passarmos os conceitos de uma alimentação saudável e equilibrada?

Criamos o conceito dos personagens Gurzi, Bia, Nico e Espiga e coube a um grande animador e ilustrador brasileiro trazê-los a vida. Mais tarde, uma equipe composta de Nutricionistas, Psicóloga Infantil, Psicopedagoga e Endocrinologista juntou-se ao time que criou os conceitos pedagógicos.

Em 2005, começamos a utilizar fantoches dos personagens em creches, com a participação de nutricionistas recebidas aqui, no IBEN (Instituto Brasileiro de Educação Nutricional) graduadas nas principais faculdades da cidade de São Paulo. Em 2019, para expandirmos nossa atuação, iniciamos a criação das séries animadas, “A Viagem de Gurzi”, que podem ser encontradas nos aplicativos (Cirquinho e Funkids) e no Prime Vídeo.

Por que é importante que crianças aprendam a se relacionar com a alimentação?

Os alimentos fornecem ao ser humano, aproximadamente, 20.000 substâncias químicas diferentes, entre as quais 50 são essenciais à vida.

Ninguém duvida que a base de nossa saúde venha da interação destas substâncias, como a nossa herança genética. Embora, do ponto de vista bioquímico, este conhecimento seja complexo, na prática, somente o que precisamos é de uma alimentação com horários estabelecidos e composta de uma variedade de leite e derivados, cereais, leguminosas, frutas, legumes, hortaliças, ovos e todos os tipos de carnes.

A introdução de bons hábitos nutricionais se faz na primeira infância e são a nossa chance de defesa contra a epidemia de obesidade, que acomete o mundo inteiro. É mais fácil prevenir do que remediar, pois um terço das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos já se encaminham ao sobrepeso.

Tem uma idade certa para iniciar crianças as boas práticas alimentares?

As boas práticas alimentares iniciam-se no útero materno. O embrião e o feto, de algum modo recebem informações dos sabores dos alimentos que a mãe consome na gravidez.

Trabalhos científicos comprovam que as crianças, os bebês aos 6 meses quando inicia a introdução de outros alimentos, além do leite, aceitam mais facilmente aqueles que a mãe consumiu durante a gestação. Os pais são os primeiros exemplos observados pela criança e depois as crianças da mesma idade quando se inicia o longo processo de socialização. Não existe, portanto, uma idade mínima para boas práticas alimentares. Aos 3 anos, em média, a criança tem capacidade cognitiva desenvolvida para aprender alguns conceitos, com a participação dos pais e educadores. Por isso, o “Universo Gurzi” foi desenhado para faixa etária dos 3 aos 6 anos.

IMPORTÂNCIA DE SE ALIMENTAR BEM

Muitas vezes, o comer exagerado e a preferência pelos alimentos altamente palatáveis está associada à fome emocional. Quando ensinamos crianças a fazerem escolhas alimentares melhores, ajudamos também para que elas lidem com isso na vida adulta?

Exatamente isto, e um pouco mais. Os alimentos mais próximos da natureza (in natura) possuem uma composição química que sinaliza para uma região do sistema central chamada de hipotálamo, que promove um bom equilíbrio de nutrientes. Mas, os alimentos ultraprocessados e os fast foods são muito ricos em gorduras, açúcares, sal, corantes e realçadores do olfato, paladar e até da visão, de tal modo, que a sua ação é sobre outras regiões cerebrais: o sistema límbico e centros cerebrais da recompensa, a tal “fome emocional”, pode aumentar sem controle se os alimentos muito palatáveis forem oferecidos com muita frequência, assim como acontece com a reação às drogas. Portanto, primeiro ensinamos os bons hábitos alimentares às crianças e, depois, mantemos uma vigilância constante e equilibrada, nunca ansiosa e nunca exagerada.

Quando se pensa em alimentação saudável, há correntes extremas. É preciso banir os filhos de terem qualquer contato com bolachas recheadas e refrigerantes, por exemplo? Corre-se o risco de criar uma geração de ortoréxicos?

Não, não é este o objetivo da educação alimentar infantil. Aqui, cabe um pouco de história. Todos os países têm pratos tradicionais, que em geral estão em concordância com os conceitos nutricionais modernos. No Brasil, por exemplo, nosso “P.F”, com arroz, feijão, salada e carne é maravilhoso.

Porém, a partir da década de 80 do século passado, o estilo de vida e alimentar dos americanos se espalhou pelo mundo. Não é exagero afirmar que os Estados Unidos exportaram obesidade para o mundo, com excesso de fast food e industrializados, como refrigerantes, que são alimentos e bebidas práticas de alta palatabilidade. Assistimos a essa pandemia de obesidade e suas consequentes comorbidades: Diabetes tipo 2, hipertensão arterial, fígado gorduroso, gordura altas no sangue, aumento de risco de infartos e derrames cerebrais e problemas psiquiátricos e psicológicos, com baixa autoestima e depressão.

Precisamos apenas resgatar tradições alimentares e trabalhar a favor de uma postura equilibrada, combinando com a criança, a frequência certa, o dia certo dos alimentos que são mais divertidos do que necessários. Nos dias de festas, ensinamos a comer sem exageros. Eventualmente, aos sábados e domingos, também, combinamos alguma liberdade dos alimentos “perigosos”. Não há uma fórmula igualzinha para todas as famílias.


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