Saiba se reinventar

  • TEXTO Débora Gomes
  • FOTOGRAFIA Seth Macey | Unsplash
  • DATA: 29/12/2018

Sempre que ouço a palavra mudança, sinto junto um tremendo frio na barriga. Às vezes penso: “ainda bem! É sinal de que estou viva”. Noutras, confesso, vem também um medo nem tão desconhecido que, devagar, ganha formas diante de mim. De um jeitinho sútil, a vida frequentemente nos convida a nos reinventar. Ela nos desenha caminhos novos, lança desafios entre riscos e tropeços, mostra que nem tudo na nossa jornada é permanente. E isso nem sempre vai ser ruim. Lembro que quando fui demitida, no final de 2016, por alguns dias cheguei a pensar que fosse mesmo o fim. Entre tantos “o que é que eu vou fazer agora?”, só depois de algum tempo, compreendi que aquele era um dos vários empurrões que a vida estava me dando, já havia uma porção de meses, para me encorajar a modificar a minha rota – eu sabia, dentro de mim, que as coisas já não estavam bem.

A partir dali, percorrido um longo caminho de partidas e reencontros necessários, a saída do antigo trabalho me levou a pensar mais em mim, em meus desejos e no próprio tempo de uma maneira mais gentil. E aquela ideia de “viver mais devagar”, que já me habitava havia alguns anos, aos poucos foi me afastando das incertezas e aproximando de mim o que realmente era importante. A primeira decisão foi deixar a capital, Belo Horizonte, e voltar para o interior de Minas Gerais, onde cresci, na tentativa de reunir partes minhas que fui perdendo ao longo da estrada. Há um ano e meio, trilho esse caminho de redescobertas. “Os fatos acontecem, estão ali, e não temos nenhum tipo de controle em relação a eles. Mas podemos controlar nossas reações. Temos sempre a oportunidade de modificar nossa forma de lidar com esses acontecimentos”, me explicou a coach e professora da The School of Life Brasil, em São Paulo, Mônica Barroso. Na chamada “escola da vida”, Mônica dá aulas sobre carreira, rumos do trabalho, insatisfação profissional e o que fazer com este sentimento sempre tão angustiante.

Além disso, há pouco mais de 15 anos, Mônica desenvolve um trabalho focado em jornadas de transformação, auxiliando gente, como eu e você, a desenvolver um olhar mais sensível e generoso diante das mudanças que, como ela diz, são a única constante em nossa vida. “Em um primeiro momento, quando uma mudança inesperada acontece, a impressão que temos é de que perdemos tudo. Entramos em um período de vazio e angústia”, conta. Esse sentimento, tão comum a todos nós, é decisivo dentro das escolhas de nossa trajetória. Podemos optar por ficar e lamentar aquilo que se transformou, ou reagir e ir adiante, segurando firme o que sobrou. Já com a poeira mais baixa, conseguimos identificar novas oportunidades e encontrar maneiras de seguir de um jeito menos dolorido. “Às vezes, um acontecimento mais duro nos reconecta com a luz do futuro”, completa Mônica. E isso também estabelece uma reconexão com nós mesmos e com a nossa verdadeira essência.

Em busca de nossos talentos

No entanto, nem sempre a prática vai ser assim tão simples como a teoria. Quem já passou por períodos de turbulência, de instabilidade, sabe bem disso. Às vezes é uma demissão num período de poucas ou nenhuma reserva; às vezes é a falência daquele negócio em que você acreditava tanto; às vezes é você que se sente totalmente inadequado, insatisfeito, diante dos papéis que está vivendo, seja na carreira ou no relacionamento a dois. O tempo todo vamos nos deparar com obstáculos diante dessa busca pelo que nos é essencial e instantaneamente faremos diversos questionamentos sobre nossos próprios desejos e trajetória. Para esses momentos de tantas incertezas, Mônica sugere que olhemos para dentro e resgatemos, lá no passado, a criança que fomos, ainda sem tantos medos e rejeições. Segundo ela, é na própria história de vida que temos a chance de encontrar a principal conexão com as verdadeiras paixões, e descobrir talentos, que muito podem auxiliar em nosso processo de reinvenção e mudança. “Quando somos crianças, nossos talentos e paixões são mais visíveis. Costumo comparar isso a um bebezinho, que nasce nu. Conforme crescemos, vamos ‘vestindo roupas’ e chegamos à vida adulta tão cheios de camadas, que esquecemos em que somos bons”, analisa Mônica. Essas camadas muitas vezes chegam até nós por meio de influências que recebemos de familiares, da escola ou até mesmo do trabalho que escolhemos. Quando tiramos essas expectativas e cobranças que vestimos ao longo da vida, ficamos mais leves. Consequentemente, nos reconectamos ao elo que nos une à infância e temos a chance de nos aproximar mais de nós mesmos e daquilo que encobrimos por medo da decepção ou da rejeição, ficando também mais próximos ao que é a nossa verdadeira vocação e que pode realmente nos trazer alguma felicidade. Então, tente fazer esse exercício: recorde o que gostava de fazer na meninice, o que o deixava animado, que tipo de atividade. Muitas vezes, as respostas não são diretas como imaginamos. Por exemplo, você gostava de brincar de cientista. Vá além e se pergunte: por que? O que o movia era a sua curiosidade, era a vontade de descobrir como as coisas eram feitas? Mergulhe nessas perguntas e sensações, elas podem lhe apontar um interessante caminho de redescobertas.

Foi mais ou menos assim que aconteceu com a empreendedora Talita Viza. Hoje, ela comanda a Alento, uma marca mineira de sorvetes artesanais que, com seus sabores diferenciados, ganha cada vez mais espaço no mercado e nos sonhos da produtora. Mas nem sempre foi assim. Talita me contou que, antes de cursar gastronomia, desejo guardado desde menina, o direito e suas leis passaram por sua vida e a transformaram. “Passei no vestibular para os dois cursos, mas segui pelo direito, que era o sonho da minha mãe. Meus familiares acreditavam que, nesse caminho, eu teria mais realização financeira e assim o escolhi”, conta. No meio desse processo de estudos, a mãe de Talita adoeceu e isso fez com que ela mergulhasse ainda mais no curso. “Eu sentia que devia isso a ela. Fiz especialização em direito da saúde, para poder ajudá-la de alguma forma”, comenta. Só que, mesmo com o curso concluído, os trabalhos realizados e todo o tempo de dedicação, Talita ainda sentia que faltava alguma coisa. “O tempo passou, minha mãe melhorou e eu continuei não me sentido bem com minha profissão e, principalmente, comigo mesma. Percebi que era o momento de olhar para mim, e então fiz o curso de cozinheiro, no Senac”, lembra. Aí, com o talento desperto, as coisas começaram a acontecer de uma forma mais genuína e as portas foram se abrindo para que ela se reencontrasse com sua verdadeira vocação. Claro que no começo não foi fácil: Talita cuidava de tudo sozinha, desde a produção dos sorvetes até a distribuição. Mas hoje, com três anos, a Alento cresceu e, recentemente, ganhou sua primeira loja física em Belo Horizonte, com sabores e aromas que vão da lavanda ao manjericão. “É um sonho realizado. Me sinto muito feliz e completa diante de tudo que conquistei. Sou outra pessoa”.

Essa compreensão de nossos sonhos como algo possível diante da realidade é um grande passo na descoberta de nossa verdadeira vocação ou propósito. Por mais que nos distanciemos disso com o passar do tempo, eles nunca vão deixar de existir e de guiar nossos passos. Por isso é tão importante que, em momentos de dúvidas e mudanças, façamos a nós mesmos perguntas simples como: o que me inspira? Quais são minhas paixões? O que eu amava fazer quando mais jovem e deixei se perder pelo caminho? O que eu realmente amo dentro do que vivo hoje? Algumas dessas respostas podem até não escancarar portas, mas podem clarear nossas escolhas e direcionar nossa atenção para a luz no fim do túnel que, na verdade, nada mais é que uma chance vestida de recomeço.

Abrir-se para o novo

Ao mesmo tempo em que nossos talentos estão guardados lá na infância como algo que já visitamos ou já vimos passar por nós, muitas vezes eles podem também se apresentar como algo novo, justamente por entrarem na parcela de coisas que ainda não vivenciamos ou das possibilidades que esquecemos de enxergar diante da rotina. Para um olhar habituado aos sentidos que criamos para nós mesmos, ver essas oportunidades como guias para outras direções nem sempre vai ser uma tarefa fácil. “Às vezes estamos tão presos ao negativismo, que não conseguimos perceber como algo que inicialmente parece ruim vem para nos ensinar diversas lições”, segundo Olga Durães. Olga é instrutora de meditação e mindfulness desde 2016, quando foi diagnosticada com esclerose múltipla, uma doença autoimune que afeta o cérebro e a medula espinhal. Na época, ela estava prestes a concluir sua pós-graduação, estudava para concursos e tinha o foco total em seguir carreira em relações internacionais, sua primeira formação. Só que a transformação chegou antes.

Com a descoberta da doença, Olga se viu diante de diversos impasses e fragilidades, que a levaram a seguir por um outro caminho: o da meditação. “Fui me vinculando a práticas de meditação desde o diagnóstico. Mas o start mesmo surgiu após uma viagem e, em seguida, um curso de 12 dias com uma monja que veio para Minas. Ali, naqueles dias de imersão, vi que realmente era aquilo que fazia meu coração acelerar”, conta Olga. Foi então que ela começou seu processo de reinvenção. Com o projeto “Em Meditação” (@em.meditacao), passou a dar aulas em parques de Belo Horizonte e a se abrir para outras mulheres também com esclerose múltipla, em encontros semanais, com o intuito de motivar e levar um pouco mais de conforto e compreensão diante de uma dor, que é tão presente na vida de todas elas. “A meditação ajuda a amenizar nossos sofrimentos e a encontrar paz e tranquilidade. Através dela, pude viver a experiência de trabalhar com um constante brilho nos olhos”, completa Olga.

Muitas vezes, ficamos condicionados à ideia de que o trabalho em si não foi feito para ser prazeroso, e sim uma obrigação, completamente distante de nós mesmos e do outro. Aí pronto: ligamos aquele modo automático, do qual não conseguimos nos desassociar tão facilmente, e o estendemos para todos os setores de nossa vida. Mônica Barroso me explicou que isso também acontece como herança de nosso passado. Antes, o trabalho era encarado como uma coisa completamente separada da vida pessoal e, seguindo essa crença, acabamos entrando em caminhos distantes daquilo que nos faz feliz, simplesmente por não compreendermos que dá, sim, para juntar as duas coisas dentro de uma mesma perspectiva. Só quando nos deparamos com alguma adversidade, algo fora do curso natural das coisas, como aconteceu com a Talita e a Olga, é que entendemos a real necessidade de nos reinventar e descobrir o que nos motiva. “A Olga de hoje é mais feliz, é mais livre. Isso de ter uma doença grave coloca você mais perto da morte. Você pensa: eu vou morrer algum dia. E, aí, vou ficar levando essa vida mesquinha até quando?”, conclui.

Em paz com as mudanças

Em sua obra Livre Para Voar (Sextante), o motivador e evangelizador Fábio Teruel nos convida a pensar justamente sobre a forma como encaramos e experimentamos o nosso dia a dia. Ele vai além da esfera profissional, na qual focamos muito até aqui, e tenta nos levar a refletir também sobre aquelas mudanças que nos atropelam nas relações e nas nossas buscas pessoais. Ao longo de 13 capítulos, Teruel nos direciona a revisitar memórias e acontecimentos do passado, principalmente aqueles que impedem nossas escolhas e aceitação diante de novos caminhos. “Vivemos em uma época de sofrimento. Ficamos presos ao pensamento de que só conseguimos fazer um tipo específico de trabalho, de viver de uma única forma, e não ampliamos os nossos horizontes”, observa.

O medo da falta de certezas faz com que fechemos o coração para as mudanças, acreditando que não daremos conta de continuar sem a nossa rota habitual. Assim, seguimos presos a relacionamentos doentios, a empregos que não nos trazem alegria, a uma casa que já não nos cabe mais, a uma vida que às vezes não se parece mais conosco e com aquilo em que acreditamos. Perdemos, então, muitas chances de reinventar o nosso próprio caminho, justamente por não olharmos para nós mesmos com um pouco mais de fé e compaixão, e, como disse Teruel, morremos deixando guardados todos os nossos sucessos. “Toda mudança é um processo de crescimento através da dor. Quando sentimos aquela inquietude por dentro, é sinal de que precisamos fazer com que a mudança aconteça, seguir nossa bússola interna”, completa. Essa bússola, além de nos apontar direções, mostra também que tudo tem seu tempo para acontecer, o seu momento. Mas, também, que nunca é tarde para esse despertar. Isso independe da idade e da fase da vida. Cada um aproveita suas experiências de forma bastante particular, e acelerar os processos de transformação pode trazer ainda mais frustrações e trancar definitivamente nossas portas internas. “Você não pode se fechar, nem deixar que o mundo o impeça de crescer. As pessoas não se valorizam, não se amam, não confiam em si mesmas. Talvez esse seja um dos pontos principais: fortalecer nossa autoconfiança e entender que todos nós temos algo para deixar nesse mundo”, afirma Teruel.

O que nos move?

Pensar sobre o que temos a deixar por aqui, em nossa existência, pode tornar menos pesada a nossa trajetória e nos aproximar de uma forma mais gentil de lidar com nós mesmos. Aquele amor que não deu certo, o trabalho que chegou ao fim, a perda de alguém querido: quando entendemos que tudo são processos pelos quais precisamos passar para crescer, externa e internamente, assumimos uma postura mais firme e corajosa diante de nós mesmos e das mudanças impostas pelo tempo. “Descobri que sou uma pessoa corajosa ao lidar com essas adversidades. Mas não estou sozinha. As pessoas próximas me incentivam, e ter esse apoio foi essencial”, avalia Olga Durães.

Refletir sobre o que nos move, quais as nossas verdadeiras paixões e reais objetivos dentro daquilo que somos torna mais leve a certeza de que alguns ciclos sempre vão se fechar para que outros se abram. O que importa mesmo em nossa trajetória é não nos perdermos da nossa essência e daquilo que nos faz vibrar. Enquanto seguirmos essa bússola, sempre estaremos preparados para nos reinventar, quantas vezes for preciso.

 

DÉBORA GOMES escreve para o @ascoresdela_ e faz aquarelas para a @aafeto_, projetos que a ajudaram a se reencontrar quando decidiu também se reinventar.

 



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