Cuide mais de você

  • TEXTO Débora Zanelato
  • FOTOGRAFIA Mark Toller | Unsplash
  • DATA: 30/08/2021

Cultivar práticas de autocuidado nos ajuda a levar a vida com mais leveza e amor-próprio e nos mostra o que, de fato, importa para ser feliz

A hora do banho havia se tornado meu momento particular de cuidado. O frasco com uma mistura de óleo de coco, lavanda e alecrim já tinha seu lugar no box. Eu derrubava um pouco na mão e espalhava pelo corpo, percebendo como a pele recebia aquele convite de cuidado e o olfato também ganhava um carinho.

O toque mais concentrado ficava na barriga: a cada semana maior, ela revelava uma vida que crescia. Eu gostava de perceber como algo banal me trazia tanta consciência do meu corpo e de quem eu era (ou éramos) naquele presente sem tempo para acabar. Eu não tinha ideia de como, em poucas semanas, as minhas práticas de autocuidado seriam viradas do avesso, e o que eu conhecia disso tudo ia escoar como acontecia com a água do chuveiro. Ben nasceu em uma segunda-feira do mês de junho, enchendo a casa de amor. A minha barriga redonda ficou vazia e o dia se tornou cheio de novos cuidados, voltados para meu bebê cabeludinho.

Nas primeiras semanas, ficamos tão inebriados e flutuantes na nova rotina que escovar os dentes e tomar um banho demorado – tarefas básicas do cuidar da gente, afinal – já nem estavam mais em primeiro plano. Lembrei-me de uma conversa com a Ana Holanda, um tempo antes de ele nascer. Ela me disse: “não se cobre estar bem arrumada nem nada do mundo da vaidade. Acolha a pessoa que você está sendo naquele momento”. Eu percebi que aquele olhar generoso que tinha comigo e com a nova rotina – e as minhas roupas manchadas de leite – era o maior ato de autocuidado que eu poderia ter.

Cuidar de si é tudo

práticas

Crédito: Kevin Laminto | Unsplash

Sinto que aproveitei aquela fase, sabendo que tudo se ajeitaria, e foi bem aos poucos que comecei a olhar para mim de novo e a (re)lembrar como eu me tratava. Respeitar o nosso tempo é um ato de amorosa coragem. Pois investigando mais sobre o que é autocuidado para compartilhar aqui, entendi que ele é uma necessidade de todos nós, sem exceção. Das mulheres, dos homens, de quem cuida e é cuidado. É um olhar amoroso que temos com a gente, e isso nos abastece de uma energia capaz de viver com mais saúde física e emocional. “Autocuidado é uma disponibilidade de olhar para si na relação consigo e com o mundo a partir da gentileza, focando leveza”, me diz a psicóloga Myrna Coelho, enquanto fazia uma viagem com o marido e o filho.

Permito que suas palavras encontrem eco em minhas ideias e penso que ser gentil com a gente mesma é poderoso. “O autocuidado é revolucionário em seu poder curativo e transformador – quando nos nutrimos, nos tornamos o tipo de pessoa que aspiramos ser, revolucionando as próprias vidas”, me escreve Suzy Reading, autora do livro Self-Care Solution: Smart Habits & Simple Practices to Allow You to Flourish (Solução de autocuidado: hábitos inteligentes e práticas simples para permitir que você floresça, em tradução livre).

Práticas de autocuidado

Psicóloga, instrutora de ioga e mãe de dois, ela vive na Inglaterra e compartilha suas ideias para que cada um possa cuidar mais de si. E quais práticas são essas? Não há regra. Cada um é que vai descobrir as suas formas de se abastecer. “Cuidar de si é tudo o que fazemos por nós mesmos. Permitir-se ver um filme com uma amiga é um autocuidado. Escolher os alimentos que vai cozinhar também. Assim como fazer uma massagem nos pés. A cultura de cuidarmos da gente vem se perdendo e a tendência é delegarmos isso aos outros.

Mas não precisa ser assim. Nos cuidarmos é também uma forma de autorresponsabilidade”, me diz Maíra Duarte, doula, terapeuta ayurvédica e cofundadora do Coletivo Cuida, que oferece cursos de práticas para o bem-estar físico e emocional.

Cuidar é se conhecer

Se cada um de nós é quem vai dizer o que nos faz bem, essa jornada de autocuidado é também um caminhar no autoconhecimento. “Quando nos cuidamos, conseguimos perceber o que conversa melhor com o corpo, mente, estados emocionais. Às vezes, cuidados simples geram resultados impressionantes. Práticas que funcionam para alguns podem não funcionar tão bem para outros”, diz Maíra. “Então, conforme vamos praticando, conseguimos abrir um canal de escuta mais aguçado com o corpo.”

Assim, escrever sobre meus sentimentos se torna uma ferramenta valiosa para mim, enquanto, para você, correr pode ser uma maneira mais eficaz de organizar os pensamentos, e tudo bem. E em cada momento também podemos estar atentos sobre o que é que nos fará bem. “O autocuidado é uma arte porque nossas necessidades estão sempre mudando e é preciso uma percepção real para checar, perceber e depois tomar a ação apropriada e amorosa que nutre não apenas no momento, mas também a pessoa que estamos nos tornando”, diz Suzy. “Então pense em como você gostaria de se sentir e encontre uma atividade que o ajude a cultivar esse estado de ser”.

Porta de entrada

É por meio dessa escuta atenta sobre nossas reais necessidades que podemos conduzir o dia a dia com práticas que nos mantêm em equilíbrio. Gustavo Tanaka, colunista de Vida Simples, percebeu que mora em si uma necessidade de estar perto da natureza. E é lá que ele encontra seu refúgio quando quer se sentir mais energizado. “Também não consigo ficar muito tempo em ambientes lotados. Se isso acontece, me sinto cansado, sei que minha vibração vai baixar demais. Para mim, autocuidado é uma jornada diária de tentar entender cada vez mais o que me faz bem e mal. E sinto que faz muita diferença quando consigo respeitar minhas necessidades.”

Nesse sentido, olhar para o que precisamos muitas vezes está além de algo prazeroso de se fazer, é refletir sobre aquilo que também nos esgota. “A convocação do mundo é sempre para fora, para as necessidades do outro, ou com o que o mundo vai dizendo que a gente precisa”, observa Myrna. “Então acho que preciso de um spa, de comprar algo novo, e muitas vezes não é isso. A gente está precisando de silêncio, de poder chorar, de fazer uma faxina, seja no sentido concreto ou mesmo no subjetivo: faxinar relações, limpar pessoas, reciclar encontros, conexões. O autocuidado vira uma porta de entrada para nos conectarmos com quem somos e olhar nossas verdadeiras necessidades.”

Ganhando consistência

práticas de autocuidado

Crédito: Roman Kraft | Unsplash

Para construir a sua mala de ferramentas, é essencial que você deixe a culpa no lado de fora. É que, muitas vezes, vamos achar que não damos conta de fazer o melhor, ou de manter o ritmo de atividades que julgamos mais adequado. Ou, ainda, que deveríamos adotar práticas que, no fundo, não conversam com a nossa essência. “É importante a gente dizer não para todo tipo de opressão, independente se vem nomeado pela ciência como algo da ordem do cuidado. Porque se preocupar com alimentação para uma pessoa pode ser muito interessante enquanto, para outra, pode ser um lugar de opressão”, observa Myrna.

O que ela me diz, sabiamente, é que o verdadeiro cuidar não pode se tornar tarefas que nos geram cobrança. “A cobrança e a culpa não estão produzindo gentileza. Portanto, não estão produzindo autocuidado nem encontro, conexão.

Olhar o possível

Esse lugar do débito, da dívida, tira a conexão com a gente e nos coloca numa relação contábil com o mundo na qual sempre estaremos no prejuízo. Isso é um estratagema do nosso momento histórico. E dizer não a isso é uma prática fundamental.” Não só fundamental, mas também libertadora: estar em paz com aquilo que é possível ser feito nos traz muito mais satisfação e proveito.

Olhamos para o que é possível e não para o que falta. Assim, se praticar ioga é algo que nutre sua alma, mas atualmente não é possível e dedicar todos os dias, comece com apenas uma postura, e foque em como você foi capaz de se colocar em movimento e desfrutar daquele momento. Assim, o autocuidado não entra naquele desconfortável e frustrante lugar de lista de tarefas, mas, sim, práticas que realmente cuidam da gente com leveza.

Conexões profundas

Pergunto para Suzy por que temos tanta dificuldade em fazer algo que sabemos que nos dá prazer, e justificamos que não temos tempo, ainda que isso tome apenas dez minutos. “Porque somos humanos. Às vezes o autocuidado é a última coisa que estamos com vontade de fazer. Mas, quando nos conectamos com o ‘porquê’, aquilo que faz sentido para a gente, torna-se mais fácil se comprometer”, diz.

Mesmo quem acha que não tem tempo pode descobrir que muitas de suas práticas preferidas não ocupam muito espaço na agenda. “Às vezes dizemos que não temos tempo porque não queremos encarar aquilo. Penso que de maneira geral é mais uma falta de motivação”, observa Fernanda Cannalonga.

Ela se dedica a colocar mais atenção sobre suas escolhas, buscando cada vez mais consciência sobre o impacto delas para si e para o mundo. “Quando resolvemos parar e olhar para dentro, estamos indo contra o sistema. Sinto que as formas de autocuidado mais produtivas são aquelas em que a gente nem colocaria esse rótulo. De repente, o que você precisa é pedir ajuda, é deixar o telefone de lado para ver como o tempo passa, ou simplesmente parar. Autocuidado é algo que a gente incorpora nos pequenos espaços”, diz. E Myrna complementa: “A gente vive num mundo que nos chama o tempo todo. E uma dica é visitar a solidão, que traz uma conexão mais profunda e delicada com a gente mesma”, diz.

Desafios do cuidar

Crédito: Roman Kraft | Unsplash

A prática do autocuidado pode ser um pouco mais desafiadora para quem cuida de alguém, mas é também valiosa e necessária. Suzy Reading já trabalhava com cuidados pessoais quando o primeiro filho nasceu ao mesmo tempo que seu pai enfrentava uma doença terminal. Foi ali que percebeu que cuidar de si seria o que a salvaria. “Como mães, quando mais precisamos de cuidados pessoais é quando eles menos se tornam acessíveis”, diz. “Temos tão pouco tempo e energia que precisamos de um kit de ferramentas novo, sem esforço e rápido.”

Quem cuida de outra pessoa em um momento de doença também se vê, muitas vezes, sem nenhum cuidado. “É um envolvimento de tanta entrega, que esses cuidadores acabam esquecendo quem são”, me conta Milena Buccianti, psicóloga e terapeuta familiar. Ela coordena, em Curitiba, um programa terapêutico de grupos para cuidadores de idosos, com a proposta de promover o autocuidado entre eles, e recuperar sua autoestima. “Muitos chegam tão concentrados e misturados aos cuidados do outro que não respeitam seus limites. Não dormem nem se alimentam bem e não se percebem emocionalmente”, diz.

No trabalho em grupo, cada cuidador começa ganhando uma percepção corporal e um reconhecimento de suas emoções. Ao longo dos encontros, é convidado a se enxergar, enquanto também troca experiências com os colegas. “Em qualquer relação de cuidado, também temos que perceber a gente no processo. E podemos procurar nas pequenas coisas do dia a dia essa presença. Então você escova os dentes, toma banho ou faz uma automassagem prestando atenção àquilo. São pequenas pausas para se perceber e não entrar no automático”, observa.

Uma jornada

Tradicionalmente, na nossa cultura, os homens também costumam não valorizar o quão valioso é cuidar de si. Gustavo Tanaka, que também coordena o Brotherhood, um círculo de homens que se reúnem para trocar experiências e falar sobre suas emoções, sente que há uma crença na qual eles não precisam de cuidados. “Há uma pressão social para manter uma ‘brutalidade masculina’ que influencia muito a noção de se olhar e se cuidar. Dá a ideia de que ele vai ser mais homem se precisar menos de cuidado”, diz. “Quando um homem vai buscar alguma prática ou mesmo procura respeitar seus limites, ele é sacaneado pelo grupo. E isso desestimula essa troca de experiências. Além do desafio de ter rituais como banhos, massagens, escalda-pés e coisas vistas como ‘de mulher’, há a dificuldade em pedir ajuda. E se cuidar também é aceitar a vulnerabilidade.”

Cuidar de si é uma jornada de se enxergar, de nutrir um amor por você. “O que a gente precisa vai sendo desvelado para nós a cada momento. E que a gente possa se conectar a partir desse lugar de amorosidade, de leveza e de gentileza conosco”, observa Myrna. Dá para entender que nossas práticas, afinal, não são o ponto de chegada, mas o caminhar. Quando sentir que não tem feito o bastante, primeiro seja gentil. Repare nas boas escolhas que já fez. E retome aquela lista que não te deixa esquecer o que é mais valioso nesse reparo. Porque a vida vai acontecendo no agora e cuidar de si não é fazer um checklist. Ao final, é você.


Débora Zanelato acredita que encontra na escrita sobre seus sentimentos o lugar preferido para cuidar mais de si e também do outro.


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