Para muitos, o fim de semana é um período que deveria ser para descansar, mas acaba se tornando uma fonte de culpa. Pessoas que se dedicam intensamente ao trabalho, aos estudos ou à rotina diária, frequentemente se sentem mal por simplesmente parar. Mesmo quando não têm mais tarefas a realizar, a sensação de “não estou fazendo o suficiente” invade seus pensamentos.
A cultura da produtividade, a pressão pela alta performance e até a ansiedade de não estar aproveitando o tempo da melhor maneira possível criam um cenário em que descansar se torna sinônimo de fraqueza ou ineficiência.
Essa pressão é especialmente intensa quando o descanso ocorre em um período que seria esperado estar “produzindo”, como os fins de semana, onde muitos se sentem obrigados a realizar atividades, se engajar em projetos pessoais ou estar ocupados para não se sentirem improdutivos. Muitos ainda ficam presos naquela sensação de que descansar é perder tempo onde quem mais produz, mais valor tem. No entanto, isso afeta a saúde mental e traz uma sensação de estar mentindo para si mesmo por querer abraçar tudo e todos.
Por que é difícil descansar sem culpa?
Para o psicólogo e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas, Jair Soares dos Santos, a sensação de ser difícil descansar sem culpa tem raízes tanto em influências culturais quanto psicológicas. “Vivemos em uma sociedade que glorifica a produtividade e associa o descansar à improdutividade. Isso influenciou as políticas capitalistas de produção e consumo, onde quem não se encaixa nesta ideia é uma pessoa preguiçosa”, afirma.
Isso impacta principalmente as pessoas com traços perfeccionistas ou aquelas que se identificam fortemente com seu trabalho. Esse comportamento é muitas vezes alimentado pela síndrome do impostor, em que o indivíduo acredita que precisa estar sempre ocupado para justificar sua posição ou sucesso.
“Algumas pessoas colocam toda a sua identidade em um trabalho específico e se param, sentem-se sem valor pessoal e ansiosas. Tudo porque nosso cérebro é programado para buscar recompensas através da dopamina, um neurotransmissor liberado quando realizamos tarefas produtivas. Quando paramos para descansar, esse sistema de recompensa não é ativado da mesma forma, criando uma sensação de vazio ou improdutividade”, esclarece.
Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal, área responsável por julgamentos e decisões, internalizou mensagens culturais que associam produtividade a valor pessoal, gerando um conflito com nosso sistema límbico, que naturalmente busca repouso. O resultado é uma resposta de estresse, com liberação de cortisol, como se o descanso fosse uma ameaça.
Descanso ou procrastinação?
Muitas pessoas confundem descanso com procrastinação. A principal diferença, segundo Jair, está na intenção. “O descanso é uma pausa consciente, com a intenção de recuperar energias. A procrastinação, por outro lado, é um adiamento impulsivo de tarefas por medo, ansiedade ou falta de foco”.
A procrastinação, muitas vezes, resulta em sentimentos de culpa e aumento do estresse, pois, ao contrário do descanso, ela não traz sensação de renovação. “Quando se rola as redes sociais sem propósito, maratona séries para fugir das tarefas a espera da motivação que nunca chega, isso piora o estresse e acumula pendências. O verdadeiro descansar não deixa rastro de culpa. Ou seja: o cérebro sabe a diferença. Basta observar se, após a pausa, você se sente revigorado (descanso) ou ainda mais ansioso (procrastinação)”.
Por isso, é preciso mudar a narrativa e a “culpa” sobre o descansar. Descansar não é luxo, é uma necessidade. “Em vez de achar que está perdendo tempo ao descansar, pense que está investindo na sua saúde e na sua eficiência. Se um celular precisa ser carregado para funcionar bem, por que eu não?”.
Ele sugere incorporar hábitos que ajudam a ressignificar esse conceito, como bloquear horários na agenda para pausas e criar rituais que sinalizem a transição entre o trabalho e lazer. “Essas pequenas ações ajudam a estabelecer limites saudáveis para que o trabalho não invada o tempo de descanso”.
Estratégias para incorporar o descanso
“Quando começamos a descansar intencionalmente, ocorre um paradoxo interessante: passamos a render mais em menos tempo. A mente descansada é mais criativa, toma decisões melhores e resolve problemas com mais facilidade”. Segundo o psicólogo, algumas práticas garantem que o descanso seja uma parte saudável da rotina.
- Pausas regulares: a cada 50-90 minutos de trabalho, programe 5-10 minutos de pausa. Levante-se, alongue-se e hidrate-se;
- Agende o descanso: trate seus momentos de descanso como compromissos inadiáveis. Programe pausas para o almoço e momentos de relaxamento no final do dia. Um exemplo seria 12h às 13h (almoço longe da mesa de trabalho), 15h30 às 16h (pausa para café sem telas) e 19h em diante (horário livre sagrado);
- Desconexão digital: utilize o modo “não perturbe” no celular e evite redes sociais ou e-mails de trabalho durante os momentos de lazer;
- Rituais de transição: crie rituais que marquem o fim da jornada de trabalho, como lavar o rosto, trocar de roupa ou uma leitura leve. Isso ajuda a sinalizar ao cérebro que é hora de relaxar;
- Descansar não significa necessariamente ficar parado: caminhada em contato com a natureza, alongamento consciente, meditação guiada, são formas poderosas de recarregar as energias;
- Substitua pensamentos como: “Não deveria estar parando agora” por “Estou investindo na minha capacidade de produzir com qualidade”.
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– O precioso tempo do descanso
– Quando a mente sossega, é a calma que nos invade
– Hábitos para tornar a rotina mais leve e equilibrada
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