Hoje acordei com a idade que meu pai morreu

  • TEXTO Priscila Chagas
  • DATA: 02/12/2020

Abri os olhos. 35 anos. Papai parou a vida aqui. Gelo na espinha. Quando meu pai morreu eu era praticamente um bebê, infelizmente tenho poucas lembranças. Papai tinha 1,75 mais ou menos, cabelos pretos, sempre brincalhão, cheio de energia e estava aprendendo a ser pai.  Trabalhou muitos anos como enfermeiro e era muito jovem quando um derrame cerebral foi o responsável pela nossa separação.

Muito estranho para não dizer perturbador comparar nossas vidas. Automaticamente faço esse elo, e se eu morresse hoje igual meu pai? Quanta coisa ainda quero ver/conquistar/experimentar.

Na verdade, às vezes passo o dia tentando viver pelos seus olhos, e imaginando como seria. Qual seria seu lugar favorito? Estação do ano? Café, chá ou Coca-Cola ? Qual série estaria assistindo…Com certeza iria amar Jack Ryan.

Sabe pai, queria debater com você minhas inquietações, política, música, livros… Como bons sagitarianos que somos filosofar sobre a vida, comida, sonhar em conhecer o mundo. Puxa pai, eu sou do tipo que faz listas, que risca quando algo é concluído, que anota coisas na mão. Gosto de começar o almoço ou jantar pela sobremesa, conto com o seu apoio! Nossa pai tenho tanta vida dentro de mim, que parece que ás vezes vou me sufocar.

Papai trabalhou muitos anos em um hospital e sempre que vou doar sangue, pergunto para as enfermeiras se alguém o conhecia, se trabalharam juntos. É sempre uma oportunidade de ouvir uma nova história, me sinto em um filme de Almodóvar em que vou juntando os frames “Tudo Sobre o Meu Pai”.

Fico imaginando como seria chamar PAI vem cá ver isso, PAI pega aquilo pra mim, PAI, PAI… e ser respondida.

Sei que gostava de piscina e futebol. E festa junina. Isso eu dou um jeito de te honrar, todo ano passo pelas quermesses da cidade, não há um milho verde, cachorro-quente e bolo de fubá que não me reconheça de longe. Esse ano, poxa pai ano difícil, pandemia…então não teve festa junina na rua, mas fiz meu arraial aqui em casa com todas guloseimas e banderinhas. Foi bão demais sô!

Pai, vi sua letra em um documento do seu antigo trabalho, muito peculiar o jeito que você assinava o I. Eu até hoje não tenho assinatura, escrevo meu nome completo desde a primeira série. Foram anos treinando minha assinatura com canetas coloridas na aula de matemática, mas continuo assinando documentos importantes igual a  Priscila da primeira série B. Uma pena não ser mais de caneta colorida.

Sua falta pai reverberou em minhas escolhas, poderia ser tudo tão diferente do que vivo hoje. Sua partida manifestou vários sentimentos em mim, já chorei muito, esbravejei , questionei porque você, já fiquei com muita, mas muita raiva de você. Como você vai embora e me deixa aqui? Esse jogo aqui da vida deve ser jogado em dupla pai, tipo Mario e Luigi.

Muita gente fala que somos parecidos, e assim sigo minhas lutas, meus ideais com orgulho de minhas escolhas e conquistas.
Por aqui são saudades, de um cara que eu ia amar conviver. Ah! De domingo gosto muito de ir no cinema, combo pipoca, Coca-Cola e M&Ms ao leite, não o de amendoim hein?

Vai anotando aí…

Um beijo pai, até o nosso encontro


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