O tempo redescoberto

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Chove lá fora. A internet anda instável. Meu feed de notícias, no momento, é a janela lateral de um casarão no Centro Histórico de Paraty. A cidade colonial fluminense é dos poucos lugares em que carro ainda não entra.

Aqui, quase tudo se faz a pé. No labirinto de casas brancas e portas coloridas, três turistas se equilibram nas ruas de pedras molhadas. A velhinha passa com sua sombrinha amarela. Uma carruagem puxada por cavalos (o “táxi” local) vira a esquina, e penso: nada mais justo do que essa cidade ser candidata a patrimônio da humanidade. Para que, com o título, mais gente possa sentir o tempo passar devagarinho.

Em São Paulo, embora tenha organizado minha vida para trabalhar em casa e levar minha filha à escola a pé, o dia acaba logo. De qualquer forma, sou das poucas privilegiadas que, a essa altura, não vai gastar 45,6 minutos para chegar ao trabalho – tempo que o paulistano leva, em média, no carro ou no transporte público. O carioca demora ainda mais: 47 minutos, e lidera o ranking dos que levam mais de uma hora no trajeto casa-emprego.

Os números da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) reforçam o quanto é atual e urgente repensar o tempo e os deslocamentos nas grandes cidades. “A vida, como está organizada hoje, não cabe em 24 horas”, diz a escritora Rosiska Darcy de Oliveira, autora de Reengenharia do Tempo (Editora Rocco). O livro propõe um novo layout do cotidiano como uma saída para a angústia contemporânea de dedicar a maior parte do dia ao trabalho, em horários engessados. “Esse é um desafio não só das empresas, mas do governo e da sociedade. Por mais que o trabalho seja fonte de prazer, não pode ser o maior consumidor da energia das pessoas”, pondera Rosiska.

Flexibilizar os horários seria o primeiro passo para resolver os problemas de mobilidade. “Por que diabos todo mundo tem de entrar às 9h e sair às 18h?”, questiona a escritora. É óbvio que vivemos, ainda hoje, cumprindo jornadas definidas na época da Revolução Industrial. Algo nonsense, já que boa parte do trabalho atual não é mecânico e dispensa a presença física. Um estudo da revista Business Week com o Center for Work and Family, da Universidade de Boston, realizado com mil empresas de médio e grande porte, mostra que modulações no tempo resultaram em empregados mais produtivos, criativos e até mais comprometidos.

Por outro lado, o tempo livre no mundo decresceu 37% nas últimas duas décadas – e o efeito disso é um planeta em que crianças, aos 5 anos, têm agendas tão lotadas quanto a dos adultos, e recebem cada vez menos atenção direta de seus pais. As escolas também obedecem aos mesmos horários generalizados, que se sobrepõem aos dos adultos no trabalho. O que se vê são babás no leva e traz dos pequenos, e até mesmo nas reuniões de pais.

As propostas curriculares também são similares, com raras exceções. Uma delas é a escola Amorim Lima, em São Paulo, que cindiu com o currículo tradicional e a organização das séries por faixa etária. “Os alunos escolhem temas de seu interesse e, em grupos de diferentes idades, e um tutor, elaboram percursos investigativos sobre o tema escolhido”, conta a coordenadora educacional Vanessa Marques.

Diante do cenário mais comum, há quem invente um formato único, como aconteceu com a empreendedora social Sabrina Bittencourt, no dia em que seu filho, aos 8 anos, pediu para deixar a escola formal. O menino alegou que queria ser chef de cozinha e “salvar as crianças do mundo” por meio da alimentação saudável. O que estudava na escola, ele dizia, parecia não ter nada a ver com isso.  A mãe aderiu. Hoje, o minichef Biel Baum, aos 12 anos, tem um vídeo no Ted-X em que conta sua aventura como unscholler – experiência que levou Sabrina a criar a Escola com Asas, uma rede de aprendizagem itinerante, para inspirar outras famílias.

“As pessoas estão começando a despertar para um estilo de vida menos escravo dos sistemas pré-estabelecidos”, diz Sabrina. Com os três filhos, todos unschoolers, (além de Biel, ela tem Raquel, 5 anos, e David, 3), Sabrina se define como nômade, alternando moradas na casa de amigos e de  “estranhos” que viram amigos. No momento da entrevista, ela estava em Brasília, com planos de ir a Cabo Verde. Sabrina chama a atenção para as campanhas publicitárias, querendo mostrar que seus produtos e marcas “entendem” essa demanda pelo domínio do tempo. Slogans como “marcas para pessoas de verdade”, “banco para gente feliz” e “carro mais sustentável” deixam transparecer que desejo por mais tempo livre é uma tendência.

“Despreocupa-te” é um conselho típico do astrólogo Oscar Quiroga. Observador dos astros e do mundo, Quiroga recomenda, em especial nos períodos de lua vazia (momento astrológico em que reina a subjetividade), que as pessoas se entreguem ao “ócio criativo” propagado pelo filósofo italiano Domenico De Masi. E também pelo poeta Mario Quintana, em sua coletânea de textos A Preguiça como Método de Trabalho. “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda”, escreveu Quintana. “Não há como produzir de bom humor com horários pré-fixados. Em vez de fingir que está trabalhando, melhor dar uma pausa e retomar em outro momento. A lua vazia é o antídoto!”, diz Quiroga.

Dentro do aspecto da mobilidade, adotar a bicicleta como meio de transporte pode trazer caminhos mais livres e mais bonitos. Foi preciso ficar sem carro para a videomaker paulistana Rachel Schein descobrir uma nova relação com o tempo e a cidade. “Percebi que o mesmo trajeto que eu fazia em 50 minutos a pé podia ser percorrido em menos de 15 de bike”, diz ela. Rachel até mudou de bairro para ficar perto da ciclovia e poder levar o filho Gabriel, de 10 anos, para a escola, na garupa. “Pedalando, você vê a cidade por outros ângulos. Meu filho sabe mais sobre cidadania do que muito adulto”, diz Rachel.

Entre iniciativas recentes, há a Bliive, rede colaborativa de troca de tempo. O app mantém um banco de horas e serviços. A ideia é trocar, por exemplo, aulas de violão com um usuário que venha cozinhar na sua casa, ou cuidar de um idoso em troca de alguém que conserte seu computador, e por aí vai.

Trabalhar perto de casa, reinventar os horários, criar cidades com transporte público eficiente – e suficiente – são ingredientes do mundo ideal, em que não se corre contra o relógio. Enquanto a mudança não acontece no coletivo, o caminho para a “reengenharia do tempo” é individual: procurar escapar das expectativas alheias, redefinir o que é bom para si mesmo e retomar o controle da própria vida.

“A reengenharia do tempo terá um impacto tão grande quanto o fim da escravidão”, ensina Rosiska. O meu projeto de reengenharia, no momento, é partir de Paraty de volta para São Paulo e tentar colocar em prática o que escrevi aqui. Mas não sem antes ganhar um tempinho de bobeira, olhando o balanço dos barcos no cais.

ROSANE QUEIROZ é jornalista freelancer e adora viver sem horários fixos. Pode ser vista trabalhando aos domingos e comprando tomates às terças.


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