Tudo o que você fizer terá utilidade na vida

  • Reinaldo Polito
  • FOTOGRAFIA: Jason Rosewell | Unsplash

Desde muito cedo exercitamos competências que iremos usar ao longo da vida, seja para moldar a nossa personalidade ou para uma carreira profissional.

Há pouco tempo eu conversei com o consultor de carreiras Max Gehringer sobre as nossas primeiras experiências no interior de São Paulo. Concluímos que algumas das atividades juvenis que realizamos tiveram muita importância em nossa vida profissional. Uma delas, bastante curiosa, foi o fato de termos trabalhado como locutores nos serviços de alto-falante.

Éramos ainda meninos. Esse tipo de atividade podia ser considerada apenas um passatempo, e tinha tudo para terminar ali, sem nenhuma consequência para a nossa vida profissional. Afinal, o nosso papel era bastante simples — fazer a chamada para atrair os moradores do bairro a participar da quermesse, ler as mensagens dos patrocinadores, anunciar as músicas e comunicar as dedicatórias.

Passadas tantas décadas, ainda me lembro das frases: “Este é o serviço de alto-falante que abrilhanta as festividades da quermesse da Igreja Nossa Senhora das Graças. O rapaz de camisa azul oferece esta música para a moça de vestido rosa como prova de sua admiração”. E a música Babalu, interpretada por Ângela Maria, era das mais requisitadas. Nem acabava de tocar e lá vinha outro pedido para que fosse reproduzida. E, dá-lhe Babalu. Nem sei como o disco de vinil não furava de tanto girar debaixo daquela agulha.

Moças tímidas e recatadas

As moças faziam o footing. Os rapazes ficavam perfilados dos dois lados, e elas, de braços dados, passavam no meio, dando intermináveis voltas. Elas olhavam para eles apenas com o rabo de olho, com um jeito tímido e recatado. Algumas, porque eram assim mesmo. Outras, porque interpretavam, pois sabiam que esse comportamento poderia ser ainda mais atraente para os pretendentes. Afinal, não queriam dar a impressão de que fossem “fáceis”.

Como alguns dos moços também eram tímidos, não tomavam a iniciativa de pedir a quem eles estivessem interessados para levá-las para casa. Assim, o serviço de alto-falante resolvia esse problema. Ao oferecer a música, demonstravam claramente o seu interesse. E, se fossem correspondidos, na próxima volta recebiam um cumprimento, ou um sorriso mais significativo.

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Crédito: Ardian Lumi | Unsplash

Levantar a autoestima da audiência

Eu ficava ali observando a reação da turma. Quando as moças ouviam o recado do rapaz interessado, quase todas grudavam firmes no braço da colega como se estivessem comemorando um feito. Contudo, havia aquelas que não eram paqueradas, nem lembradas. Chegavam cedo e ficavam até próximo do horário em que as atividades se encerravam. Retornavam para casa cabisbaixas, frustradas, com mais uma noite solitária.

Assim, não foram poucas as vezes em que, com intenção de dar uma levantada na autoestima, eu inventava um rapaz que fazia a dedicatória para algumas delas. Imaginava que assim iam para casa não tão desanimadas, com o coração mais esperançoso – quem sabe na próxima vez poderia dar certo.

Aprendizado para a vida

O Max e eu, que vivemos da comunicação oral, proferindo palestras, ministrando aulas, gravando vídeos, tivemos ali um intenso treinamento com nossa atuação diante do microfone nos serviços de alto-falante. Aprendemos a respirar e a colocar a voz de forma adequada. Aprimoramos a dicção.

Por fim, descobrimos como falar com bom ritmo e cadência. Ampliamos o vocabulário. Exercitamos o uso correto das pausas.  E, mais do que isso, soubemos como explorar o humor e a presença de espírito na medida certa. Ou seja, ainda novinhos, sem que nos déssemos conta, estávamos nos preparando para uma profissão que um dia iríamos abraçar.

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Crédito: Clem Onojeghuo | Unsplash

Projetar a personalidade

Só o fato de aprendermos a ouvir o som da própria voz foi extremamente importante. Assim, trabalhávamos na modulação e na entonação adequadas a cada circunstância. Eu me lembro que depois das primeiras experiências, no dia a dia, já falava “para fora”, projetando bem a personalidade.

Nesse sentido, nós dois tivemos a oportunidade de perder a inibição e saber como enfrentar as situações com firmeza e segurança. Não tínhamos tanta consciência de que estávamos nos aprimorando para a vida. Porém, hoje sabemos que, de todas as escolas que frequentamos, essa passagem por aquele microfone rudimentar foi uma das mais importantes que tivemos.

Expectativas e sonhos são os mesmos

Hoje, quando vejo a meninada trocando mensagens pelos aplicativos para encontros em um shopping, penso que, com todas as mudanças da vida, as expectativas são basicamente as mesmas. As mensagens que uns enviam para os outros guardam muita semelhança com os recadinhos dados no serviço de alto-falante. A diferença é que agora não são apenas os homens que tomam a iniciativa, pois as mulheres também agem quando ficam interessadas.

As músicas também são outras. A maioria já não sabe quem foi Ângela Maria. Muito menos quais as músicas que ela cantava. Mesmo assim, há pouco tempo, assistindo à reprise de um antigo programa de televisão, quem eu vejo? Ângela Maria cantando Babalu. Olhei do lado para confirmar se estava sozinho, abri um largo sorriso, estalei os dedos e soltei a voz: dá-lhe, Babalu!


REINALDO POLITO é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente é“Os Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo”. @polito

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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