Tudo de novo

  • Rodrigo Vergara
  • FOTOGRAFIA: Ashley Batz (Unsplash)

Um insight de 17 anos atrás ressurge para iluminar meu caminho hoje, como se fosse novidade.

“Sou um sujeito ansioso. Sempre fui. Basta aparecer uma tarefa que eu considere importante para que eu me encha de expectativas e sofra por não alcançá-las. A última vez que isso me ocorreu faz… deixa eu ver… uns 30 segundos, quando sentei à frente do computador para escrever a você, leitor de Vida Simples.”

Esse parágrafo acima foi escrito há 17 anos. Foi com ele que eu abri a Carta ao Leitor da edição 14, em fevereiro de 2004. Era minha estreia como editor da revista. Eu adoraria dizer que, nos 20 meses seguintes, transformei a revista tanto quanto ela me modificou… mas eu estaria superestimando minha influência e/ou subestimando os efeitos que a revista teve sobre mim. Uma transformação que começou naquela Carta ao Leitor. O texto continuava assim:

“Queria causar boa impressão, queria que meu texto agradasse a você e meus colegas de redação. Enfim, queria produzir a melhor Carta ao Leitor já escrita. A tarefa era enorme e meu corpo todo estava se preparando para essa batalha.”

Tudo de novo

David Travis (Unsplash)

Eu tinha 34 anos, 14 anos de jornalismo e até então só tinha escrito sobre o mundo, sobre as coisas externas a mim. Nunca nada que expusesse minhas escolhas pessoais (hoje eu sei que meu julgamento sobre o mundo diz mais sobre mim do que sobre o mundo). Eu me escondia atrás do “interesse do leitor” para justificar a escolha dos temas de minhas reportagens. Ao encarar a Carta ao Leitor, pela primeira vez me vi diante de um texto em que não havia um caminho dado. Qualquer que fosse a escolha, era minha. E de mais ninguém. Em pânico, tentei me escorar na realidade, mais uma vez.

Vida Simples

“Remoendo sobre o que escrever, passei rapidamente em revista (os trocadilhos são o refúgio do ansioso) os assuntos que estamos lhe oferecendo este mês. Vejamos. Meditação: técnica para nos trazer de volta para o presente e livrar-nos da ansiedade pelo que está por vir. Intuição: sexto sentido que fica embotado quando estamos muito tensos. Maturidade: a arte de ser você mesmo.”

A Vida Simples sempre foi isso: uma publicação que inclui o mundo interior. Um universo que importa, mas que raramente é levado em consideração no jornalismo: as emoções, a psique, a visão de mundo. Em outras palavras: a subjetividade. E a revista sempre enveredou por esse tema para acolher o leitor em suas impressões, para empoderar sua intuição, para dizer em letras maiúsculas: O QUE VOCÊ SENTE EXISTE E IMPORTA. Os temas daquela edição não me permitiram desviar o olhar desse fato. E então eu enxerguei a mim mesmo como parte do processo.

tudo de novo

Ashim Silva (Unsplash)

Descoberta

“De repente, me dei conta da ironia. Relaxei os ombros, respirei fundo, resolvi ser sincero. E a verdade apareceu. A verdade é este texto.”

Ao narrar aqui neste texto esse último parágrafo que você acabou de ler, percebo com um certo regozijo que empilhei ali quatro episódios distintos, cada um deles com um significado.

A descoberta — Quando percebo que eu sou parte do processo jornalístico. Não há um mundo lá fora e eu aqui, falando sobre ele.

A decisão — Quando decido escrever sobre minha descoberta. Um ato de vulnerabilidade e de coragem (porque não há coragem onde não há vulnerabilidade, disse Brené Brown).

A narrativa da narrativa — Quando o texto finalmente chega ao trecho que descreve a decisão de descrever, uma metalinguagem que rompe alguns cânones do jornalismo e foi importante para mim naquele momento.

O resgate — Quando você lê o mesmo parágrafo neste texto, o que dá nova vida a essas histórias e, para mim, é uma homenagem a um momento marcante da minha trajetória profissional e pessoal.

Porque aquele texto inaugural foi uma epifania para mim. Ao assumir minhas dúvidas e ansiedades, me senti leve, liberto de um peso enorme. Eu não tinha mais que sustentar uma imagem de mim que me custava muito esforço e me limitava. De repente, eu podia falar do que não estava certo e perfeito em mim, em vez de fingir. E isso fez muita diferença.

Libertação

Ao longo dos 20 meses à frente da Vida Simples, a cada mês eu procurava alguma coisa que eu não entendia, algum erro, alguma dúvida, algum sentimento não muito nobre, para expor ao leitor. E essa atitude se derramou para minha vida pessoal. Eu vivi um dos melhores períodos da minha vida.

Estou escrevendo sobre isso porque, depois de sair da revista, já vivi muitas vezes essa sensação de libertação e de estar em paz, mesmo não sendo quem minha mente gostaria que eu fosse. Mas também já me perdi muitas vezes. Passando a régua, eu diria que passei mais tempo perdido do que trilhando o caminho preferido.

Tudo de novo

Anthony Tori Unsplash)

Coragem

Com o tempo, me dei conta de que os momentos em que me senti mais vivo e feliz foram aqueles em que eu estive em contato com essa vulnerabilidade. Foi quando não me levei tão a sério. Foi quando fui capaz de rir de mim mesmo, amorosamente, ao me ver cair ou errar. Sem me criticar porque deixei a desejar em relação a algum parâmetro estabelecido pelo meu tirano interno. Quando a querida Margot Cardoso, editora do portal Vida Simples, me convidou para escrever uma coluna, decidi voltar a fazer o que fiz naqueles incríveis meses de 2004 e 2005: praticar o exercício de me colocar vulnerável, de me expor.

E, para não finalizar este texto sem expor as imperfeições do Rodrigo modelo 2021, te digo que, quando a Margot me convidou, pensei logo em utilizar este espaço para falar coisas inteligentes sobre meus temas atuais de trabalho, na busca de pincelar algumas camadas de autoridade sobre minha figura profissional. Demorou algum tempo até que a voz da intuição (que no meu caso é uma voz de mulher) me lembrasse do que importa para mim. E a verdade apareceu. A verdade é este texto.

Assim como em 2004, uma vez liberto da ansiedade, aproveito para agradecer à equipe da Vida Simples pela oportunidade de ocupar esse espaço. Pelo efeito que esta primeira experiência teve sobre mim, a jornada promete ser transformadora.


Rodrigo Vergara (www.ria.works) é jornalista, ator improvisador, facilitador de processos de confiança em equipe e fundador do PlayGrounded — a Ginástica do Humor. Sempre que lembra, tenta não se levar muito a sério.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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