Sua profissão e seu trabalho coincidem?

  • Fabio Gandour
  • FOTOGRAFIA: Sam Moqadam | Unsplash

Antes era assim. O trabalho tinha forte relação com a profissão. Consequência direta, um do outro. E a profissão era desenhada durante a educação. Faculdade de engenharia para ser engenheiro. De direito, para ser advogado. Isto mudou. E ainda vai mudar mais.

Quando me preparava para escrever esta coluna, entrei em um processo de vou-não-vou. É assim que chamo aquela indecisão que bate na hora de construir um conteúdo, questionando se ele vai ser, de fato, útil para o leitor.  E parecer elaborado no seu melhor interesse.

Claro que boa parte dos nossos leitores podem já ter definido as suas profissões seguindo a trilha descrita na introdução aí em cima. Mas nem por isto, sua trajetória profissional é invulnerável. Ao contrário, neste mundo de mudanças, atividades produtivas são todas muito suscetíveis a reorientações. Além disso, você pode ter pessoas mais jovens no seu entorno. Assim como, também temos leitores que podem estar atravessando, neste momento, uma fase de encaminhamento profissional.

Por tudo isto, no vou-não-vou, decidi ir. Um aspecto que me ajudou nesta decisão, foi verificar que conteúdos dedicados ao futuro do trabalho e ao mundo pós-pandemia são cada vez mais abundantes. Então, vamos !

Profissões que ainda não existem

Imagine uma conversa entre pai e filho, entre professor e aluno. Ou apenas entre alguém mais jovem e alguém mais velho, onde o mais velho pode dizer ao mais jovem que a profissão que ele um dia irá praticar no seu trabalho ainda nem foi criada. Certamente, vocês já ouviram esta afirmação rolando por aí. E, ainda que possivelmente verdadeira, ela mais agrava o problema de decisão do que cria uma solução para quem precisa decidir. Este contexto foi mais um elemento que me empurrou na direção do “vamos”, para tentar atenuar a angústia da decisão que os mais jovens sempre enfrentam quando precisam decidir o que ser para, então, decidir o que fazer.

trabalho profissão

Crédito: Leon Oalh | Unsplash

Eu mesmo segui uma trajetória em educação que me levaria a uma profissão bem definida e exercida ao longo de uma década. Porém, ela  mudou de direção por conta de acontecimentos ocorridos na trajetória profissional. Em palavras mais claras, me graduei em Medicina e depois de 11 anos trabalhando como médico. Entretanto, o desafio da informática me atraiu e mudei de área, para trabalhar com computadores e sistemas aplicados ao setor saúde. Até hoje, passados mais de 30 anos da mudança, ainda me perguntam como ela aconteceu. E vale notar que quanto aconteceu, a área de informática em saúde mal tinha nascido.

Conhecimento criado hoje para ser usado amanhã

É nesta frase que se esconde uma boa alternativa para o encaminhamento do que você vai ser e do que você vai fazer. O que você vai ser é a sua profissão. E o que você vai fazer é o seu trabalho. Até hoje, pensa-se no que ser para fazer apenas aquilo que você estudou para ser. Estuda-se arquitetura para ser arquiteto e trabalhar com arquitetura. Estuda-se medicina para ser médico e trabalhar em clínicas e hospitais. Estuda-se propaganda e marketing para ser publicitário(a) e trabalhar em uma agência de publicidade. Mas a observação dos tempos atuais mostra que o encaminhamento profissional não acontece mais apenas desta forma. Sim, quem cursou enfermagem tem boas chances de trabalhar como enfermeiro. Porém, o encaminhamento profissional exige, cada dia mais, a mistura de conhecimentos de áreas nem sempre relacionadas. Misturas são cada vez mais bem-vindas !

Mas misturar o que com que? A melhor resposta a esta pergunta é bem ampla: vale misturar qualquer coisa com qualquer coisa. Enfermagem com música? Vale. Engenharia civil com psicologia? Vale! Tudo vale.

trabalho profissãoHistória real para ilustrar o parágrafo anterior

O personagem desta história formou-se em jornalismo. Foi aluno dedicado, estudou e aprendeu os fundamentos da profissão de jornalista. Decidiu que iria exercer a profissão com afinco, sem se afastar dos princípios que aprendeu durante a formação. Um deles era apenas relatar a verdade, sempre baseada em fatos. Durante a faculdade, conseguiu um estágio em uma empresa de comunicação. E, ao se graduar, foi contratado como funcionário da empresa.

De repente, nota que o interesse das publicações que a empresa produzia era mais em torno de fakenews do que em fatos reais. Aí, o descompasso entre a profissão e o trabalho gerou uma crise.  Até que descobriu outra empresa que se dedica a verificar a veracidade do que se informa. Em outras palavras, uma empresa que se dedica exatamente a combater a divulgação de fakenews. É lá que ele trabalha hoje.


FÁBIO GANDOUR é formado em Medicina e dedicou-se à pesquisa científica, em um ambiente de alta tecnologia. Sua mudança profissional foi uma manobra radical. Por isto, decidiu compartilhar detalhes da experiência nesta coluna.


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