Sobre o esforço de não focar na história única

  • Suzana Vidigal

Alimentar a alma é fundamental neste momento. Filmes são um presente. Vamos alimentado a alma e a mente, porque logo mais será o tempo de sair nas ruas e prestigiar o cinema

 

Em tempos assim, é preciso fazer esforço de todos os lados. Nada escapa. Nem ninguém. Quem não cozinha, tem que se virar nos 30 porque é preciso pilotar o fogão todos os dias; quem nunca fez home office, vai ter que organizar (e muito!) pra ter privacidade e concentração; e quem nunca teve tempo livre, vai ter que ter critério pra escolher o que fazer, com qualidade, porque essa também não é uma tarefa fácil.

Em tempos normais de temperatura e pressão, já temos uma avalanche de conteúdo nas redes socais e na mídia de modo geral. Agora, em tempos de #ficaemcasa, esse virou nosso maior e mais precioso recurso. O conteúdo. E para que consumamos conteúdo benéfico, fico pensando o quanto temos que nos policiar para não cairmos em roubadas.

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Por roubada, entende-se ser improdutivo, entrar em pânico, estressar a família, deixar o medo contaminar nossa mente e nosso corpo. A situação é grave, exige cuidados, atenção e responsabilidade. Mas, mesmo trabalhando no modo #ficaemcasa, podemos contribuir para disseminar conhecimento e entretenimento de qualidade, sim!

O lugar do cinema

Tudo isso pra dizer que, mais do que falar de um filme hoje, resolvi falar do que o cinema pode nos trazer nessa situação tão inusitada. Já de cara, eu diria que ele é a saída para o perigo da história única. Evidente que quando Chimamanda Ngozi Adichie falou sobre essa questão, estava falando sobre literatura, sobre ser africana e não se identificar com os personagens das histórias que lia quando criança. Eles “eram “brancos, comiam maçãs e falavam sobre o tempo” e ela, na África, não imaginava que negros, que comiam mangas e nunca tinham visto neve poderiam compor uma outra história. Chimamanda, escritora de sensibilidade humana ímpar, estava querendo falar do poder do diverso, da pluralidade, das narrativas que nos transportam para outras realidades, que despertam outras reflexões, que transbordam outras emoções.

Estamos vivendo uma história única. É única no duplo sentido: porque foge completamente do modo ordinário de vida e porque afeta o mundo todo, de uma só vez. Narrativas diversas podem nos tirar momentaneamente desse panorama monotemático, que de várias maneiras nos consome, nos preocupa, nos deixa inseguros. Informar-se é fundamental, mas manter a mente sã, tem igual valor.

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O cinema entra aqui. Narrativas, temas, linguagens cinematográficas, idiomas diversos são capazes de driblar esse perigo de sentirmo-nos amarrados à pandemia no estado de espírito, no humor, na lida com as pessoas, no preparo da refeição, na perspectiva de futuro.

Mergulhe no que te faz bem

Alimentar a alma é fundamental neste momento. Filmes são presentes. Pensando nisso – e pensando em não bombardear ninguém com listas e mais listas de conteúdo (afinal, nem temos tempo pra tanto – é preciso dormir, cozinhar, conversar, estudar, trabalhar, dar atenção) – achei que poderia ajudar se falasse de um filme por dia, de maneira informal, num vídeo sem produção, com naturalidade, de cara lavada mesmo – e coração aberto. Todo mundo pode acompanhar: é só entrar no perfil do Cine Garimpo no Instagram (@cinegarimpo) e me seguir. Cada dia escolho um filme, garimpando nacionalidades, gêneros, estilos diferentes, e publico um vídeo bem curtinho. Assim vamos nos aproximando, escolhendo o que fazer no tempo livre, com qualidade e calma.

Nada de avalanche de conteúdo – isso gera mais ansiedade. Tudo que não precisamos é aumentar a sensação de impotência. Tem gente dizendo que “não vai dar conta de tudo que estão oferecendo nas redes sociais” – isso quer dizer: aulas, cursos, yoga, ginástica, culinária, museus, workshops, meditação, e por aí vai.

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Escolha sua área de interesse e mergulhe nela. Se cinema estiver no radar, você terá um por dia no modo #ficaemcasa do Cine Garimpo. Para assistir quando quiser, se quiser. Vamos alimentado a alma e a mente, porque logo mais será o tempo de sair nas ruas e prestigiar o cinema que certamente virá com força total, com histórias plurais pra contar!

Beijo virtual carinhoso a todos! E bom garimpo!

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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