Os homens e a relação com o pai 

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  • FOTOGRAFIA: Kelli Mcclintock | Unsplash

Todos os seres humanos buscam pelo amor dos pais e se pudermos preparar os homens para serem pais mais conscientes, podemos ter uma geração de crianças mais amorosas e cuidadosas.

Masculinidade e paternidade são dois temas que caminham juntos. Nem todos os homens são pais. Porém, todos os homens são filhos de algum pai. Alguns cresceram com uma figura paterna presente e essa relação certamente influenciou como esses meninos se desenvolveram. Outros cresceram sem essa figura, ou com um pai ausente, mas esses também são influenciados por essa situação.

Nossas referências masculinas

A relação com o pai é um dos temas que mais aparecem nos Círculos de Homens. Lembro-me de um dos primeiros encontros que realizamos, onde guiei uma visualização e pedi para que cada homem pensasse em quem eram as referências positivas de homens que tiveram em suas vidas. Para minha surpresa, quase todos os homens presentes disseram que não conseguiram pensar em ninguém. Ou que pensaram em alguns homens com ressalvas. Frases como “não me veio ninguém em mente”, “eu pensei no meu pai, mas ele era muito violento”. Ou “pensei no meu avô, mas era um cara muito machista”. Foi neste momento que comecei a refletir mais profundamente sobre as referências que temos de homens em nossa sociedade.

Quando refletimos sobre a nossa sociedade e sobre o papel dos homens, acabamos percebendo que somos guiados por aquele padrão de homem que não chora, que é o provedor e dá conta de tudo. E se olharmos para os homens mais velhos, é bem provável que a maioria deles se enquadre neste tipo. Meninos aprendem a ser homens observando outros homens. E se as referências são majoritariamente de homens que não se vulnerabilizam, como eles vão crescer achando que isso é possível?

A ausência da figura paterna

Mas a influência do pai no desenvolvimento de um menino vai muito além da permissão para ser vulnerável. É a base para a construção de uma personalidade. Muitos homens aparecem nos encontros do Brotherhood e dizem que estão lá porque cresceram sem a figura de um pai e buscam nos grupos reflexivos de homens ressignificar essa criação. Meninos que cresceram educados pela mãe, pelas tias, ou pelos avós. E que em algum momento perceberam que algo faltava em suas vidas.

relação com o pai

Crédito: Kelly Sikkema | Unsplash

No documentário O Silêncio dos Homens, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi uma parte em que é retratada a realidade das periferias e comunidades. E os meninos se referem àqueles que têm um pai como “playboy”. “Você é boy porque você tem um pai”. É forte pensar que algo que deveria ser comum se torna um privilégio de alguns. No Brasil, 5,5 milhões de crianças não têm nem o nome do pai registrado na certidão de nascimento.

É da psicologia humana a busca por se sentir parte ou aceito por seus semelhantes. No caso dos meninos, se sentirem pertencentes ao mundo dos homens. Quando não existe essa referência em casa, eles buscam fora. Seja nos ídolos do esporte ou da música. Ou fazendo de tudo para se sentirem parte do universo masculino ou tendo dificuldade para tanto. E essa tentativa de ser aceito e fazer parte muitas vezes leva ao desenvolvimento de comportamentos violentos.

Refletindo sobre a relação com meu pai

No meu caso, eu sempre tive esse privilégio de ter um pai super presente. Meu pai sempre foi uma grande referência para mim e o meu desafio foi como atender às expectativas de um homem realizador e com muitas habilidades. O caminho que escolhi, talvez inconscientemente, foi o de competir com meu pai e buscar ser diferente dele. A competição acontecia a todo momento. Fosse nas brincadeiras e jogos, onde queria vencê-lo. Nos esportes, onde tentava ser melhor que ele e nas minhas escolhas profissionais, negando a todos os conselhos que ele me dava.

Depois de muitos anos numa caminhada de autoconhecimento, fui percebendo como muitos dos meus comportamentos eram baseados numa relação pouco saudável que eu tinha com meu pai. Era como se o tempo todo eu ficasse tentando me provar bom o suficiente, para inconscientemente conquistar sua aprovação e admiração. Ressignificar isso e cultivar uma relação de respeito, carinho e amizade com meu pai tem sido uma das grandes dádivas da minha vida.

relação

Crédito: Nathan Anderson | Unsplash

Relações melhores

A maioria dos pais não refletem muito sobre paternidade e sobre o tipo de pais que querem se tornar e como querem que seja sua relação com seus filhos. A maior parte simplesmente reproduz o que compreende por paternidade fazendo como seu pai fazia. Ou fazendo o contrário, no caso daqueles que não tiveram uma boa relação com eles. Cada pessoa somente consegue oferecer aquilo que recebeu e só sabe demonstrar aquilo que conhece. A geração dos pais na faixa dos 50, 60 a 70 anos provavelmente não teve demonstrações de afeto e carinho dos seus pais. E assim, acabam desenvolvendo relações de pouco afeto com seus filhos.

Algumas pessoas podem dizer que é assim mesmo e que não há nenhum problema nisso. Nós acreditamos que todas as relações podem ser aperfeiçoadas e que todos podemos ser melhores. Todos os seres humanos buscam pelo amor dos pais e se pudermos preparar os homens para serem pais mais conscientes, podemos ter uma geração de crianças mais amorosas e mais cuidadosas. E para preparar esses pais, precisamos começar sendo melhores filhos e ressignificando nossas relações. Isto é: aceitando nossos pais como são e enxergando a beleza do esforço de cada um, podendo assim honrá-los. E quem sabe assim a gente possa seguir aquele conselho bíblico de “honrar pai e mãe” para ter uma boa vida na Terra.


GUSTAVO TANAKA, escritor e fundador do Brotherhood. Escreve mensalmente numa coluna da Revista Vida Simples e compartilha histórias de masculinidade quinzenalmente nesta coluna, junto com os amigos de caminhada nesses estudos sobre masculinidades. @gutanaka @brotherhoodbrasil

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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