“No meu tempo não era assim”

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: Istock

A frase “no meu tempo não tinha disso” costuma me arrepiar os cabelos. Trabalhando com parentalidade, eu estudo as infâncias anteriores, nossos antepassados, e posso afirmar com alguma certeza que, apesar de termos tido comida com menos agrotóxico e brincado mais nas ruas e campos, não dá pra dizer que isso foi suficiente para formar pessoas mais ou menos equilibradas, que sabem resolver conflitos pacificamente, que sabem ouvir, que têm empatia e autorresponsabilidade.

Claro que algumas coisas devem ser celebradas: a necessidade de movimento da criança é real, e sim, nossa geração teve isso livremente. Correr na rua, empinar pipa ou papagaio, pega-pega, pique-bandeira, pião, esconde-esconde, transformar um papel amassado em bola, brincar de adoleta, fazer do chão uma lousa para escrever com giz, pegar fruta da árvore da vizinha, isso tudo foi muito maravilhoso e não quero diminuir seu valor – inclusive precisamos que tudo isso volte a acontecer.

As crianças de hoje estão emparedadas, presas em minúsculos apartamentos ou condomínios, com um apelo ao eletrônico e às telas que nunca antes existiu. A necessidade de movimento, de exploração livre, de mexer na terra e criar, imaginar, escalar, descer e subir, está seriamente prejudicada.

Porém, a primeira necessidade de qualquer ser humano é pertencimento. Se sentir acolhido, capaz, importante. Importante para quem? Primeiramente, para os pais. É na nossa primeira infância que as crenças sobre nós mesmos são formadas.

Quem sou eu, o que o mundo pode me dar, em que tipo de mundo estou inserido, se devo temê-lo, o que esperam de mim, o que eu preciso fazer para me sentir bem, como posso ser amado?  Os significados que damos a essas respostas é o que nos leva a agir como agimos na vida adulta.

Nenhuma geração antes da que estamos criando teve esse acolhimento incondicional na primeira infância, acolhimento esse que cria crenças positivas sobre si e sobre o mundo. Tudo se resumia a: colo estraga, amor demais mima, precisa preparar para a dureza da vida sendo duro com a criança logo cedo.

Nós, adultos, estamos colhendo hoje os frutos dessa sensação de incapacidade, não pertencimento e de que a felicidade está lá fora, nas mãos de algo ou alguém que me diz o que eu preciso fazer para ser aceita e amada. Essa educação dura tirou das crianças a ideia de que já são boas o suficiente, que podem ser amadas pelo que são, mesmo que errem.

A romantização da infância passada precisa ser discutida, para que a gente possa continuar com o que foi bom e mudar o que não foi tão bom assim, para que o mundo se torne mais leve, mais colaborativo e mais acolhedor. O mundo somos nós, afinal.

Thais Basile é mãe da Lorena, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental, eterna estudante. Apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz. Escreve nesta coluna às segundas-feiras.


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COMENTÁRIOS

  • luciana

    Não concordo tanto, crianças hoje são pressionadas desde muito cedo fazer várias atividades, participações em eventos infantis( que são enomes- de “festinhas de aniversário até “bailinhos de carnaval) ter redes sociais…
    Se dizia: colo estraga: hoje vejo criancas que não saem dos seus carrinhos que já tem o suporte para o celular. Sim, hoje olhamos mais para o que as crianças nos dizem, acabou a ditadura da palmada e faça assim porque estou mandando.
    Mas acho que nossas crianças atualmente são fábrica de expectativas. Acho alarmante o número de crianças em consultório de psicologia porque são ansiosas.
    Sim, é verdade já existe um movimento diferente de alguns pais com uma educação diferente, mas ainda é muito pouco e para poucos, diante de um rolo compressor chamado: competitividade. que nós, todos nós colocamos na cabeça de nossos filhos, e que colocaram nas nossas e continuamos ainda nesse processo de medir nossa vida pelo do outro. Apenas observo como minha mãe foi criada, como criei meus filhos e como faria diferente hoje com as informações e a formacao que tenho. Sem dúvida minha avó teve mais tempo para minha mãe e seus 09 irmãos, minha mãe para mim e minhas duas irmãs e eu gostaria de ter tido mais para meus 02 filhos, mas estava competindo ou estudando por um salário melhor, para pagar melhores escolas.
    Mamãe vive mais bem resolvida que suas filhas e seus netos. A nós, restou fazer terapia e ressignificar as relações com o tempo. (pelo menos os que jjá a se deram conta disso).

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  • Daniela

    Artigo maravilhoso e sinto o mesmo arrepio ao escutar a frase “ no meu tempo” era desse ou daquele jeito . Pagamos e gerações mais novas também , com o encantamento e liberdade de podermos testar nossas habilidades , mas sem dúvida , muito melhor do que o impedimento das potencialidades e limites .

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