Na vida, sem roteiro

  • Rodrigo Vergara
  • FOTOGRAFIA: Kyle Head | Unsplash

Percepções em câmera lenta do tempo e da mente, enquanto improviso.

 

Estou no palco, sentado ao fundo. À minha frente, atores interpretam uma cena que se encerrará a qualquer instante. Atento a uma possível deixa para entrar, tento evitar que uma insegurança insidiosa atrapalhe minha concentração. Antes que a dúvida ganhe corpo e paralise minhas pernas, percebo uma rápida oportunidade e me levanto. Estou em cena. 

Caminho para o centro do palco. Pelo canto do olho, à margem dos meus óculos de grau, noto que estou acompanhado. À nossa frente, na platéia, 150 pares de olhos acompanham cada passo que damos. Cada pessoa na audiência sabe que nem eu nem meu colega de cena temos a menor ideia do que vai acontecer daqui a alguns poucos instantes. 

Mais do que isso. Eles sabem que, a esta altura, enquanto percorremos os poucos passos que nos separam da frente do palco, aquele ponto onde brilha o único foco de luz neste salão lotado, não sabemos onde estamos, que personagens representamos nem qual a relação entre nós. Vamos criar tudo juntos, diante do escrutínio de todos, a partir do que um oferecer ao outro. Voluntariamente caminhamos rumo ao desconhecido.

Companhia do tempo

Desde que entrei em cena, sinto como se tivesse emparelhado com o tempo. Foi ele que deu mole? Ou fui eu que me acelerei? Não sei, mas não posso perder a chance. Laço-lhe o braço e vamos assim, codo a codo. Bem melhor do que correr esbaforido no seu encalço, como sempre. 

A companhia do tempo me acalma. Sinto como se estivesse numa daquelas calmarias que dizem haver no centro dos furacões, no olho dos tornados. Um redemoinho que só existe na minha mente, erguido pela espiral das infinitas possibilidades suspensas que rugem à minha volta. Sei que esse equilíbrio é frágil, mas é tudo o que eu tenho agora.

Acompanhando o compasso dos segundos, tenho tempo para observar a mim mesmo. Meu corpo atento caminha tentando manter um balanço dinâmico entre as diversas intenções que me habitam, disponível para qualquer eventualidade. 

Os poucos segundos que me separam da boca do palco se estendem, se alongam e se abrem, num abismo. À beira do precipício, saboreio a sensação de medo e morte. Enquanto ninguém disser nada, enquanto ninguém fizer escolhas, não há erro, não há risco, não há fracasso. E, ao mesmo tempo, se nada acontecer, a única certeza é o fracasso, a morte, o fim. Temos que fechar esse portal a qualquer momento.

ator em cena

Rodrigo Vergara: “A companhia do tempo me acalma”.                                                                       Crédito: Joshua Hanson | Unsplash

E então acontece.

  • Pai…

Sem mexer um músculo, sorrio internamente. Num piscar de olhos, o redemoinho de possibilidades estaca e em seguida evapora. As palavras causam um colapso na incerteza e criam uma plataforma. Meu colega de cena tomou a dianteira e começou a criar um mundo para nós.

Atento, noto uma irritação na minha barriga. Não sei de onde ela brotou nem do que se alimenta. Foi a posição do corpo do colega que me causou incômodo? Seu tom de voz? Não há tempo ou propósito em tentar entender. Movido por um instinto, acolho o sentimento e me apóio nele.

  • Filho, já disse que não posso te ajudar. Depois que eu voltar da viagem, talvez.

Relaxo ao notar a contrariedade nascer no rosto do meu colega de cena. Intuo pela sua expressão que o personagem que ele escolheu para ser meu filho é alguém insistente, que vai reclamar da minha falta de empatia e criar uma relação baseada em antagonismo. Essa constatação me deixa seguro. Por alguns segundos, ao menos, estaremos em território seguro e conhecido. 

  • Tudo bem, pai. Se você acha que a mamãe não vai ligar de saber com quem você vai viajar…

Um frio me cruza as tripas e eu me pergunto de quem é essa sensação. Será minha, diante do desafio inesperado lançado pelo colega, que nos empurra novamente rumo à incerteza? Ou será do personagem esse calafrio, pela ameaça grave (e desconhecida até aqui) do próprio filho?

Sem resolver a dúvida, é da minha boca que saem as palavras do personagem. E só depois de dizê-las é que eu percebo seu tom amedrontado.  

  • De quanto você está precisando?

Não sei o que meu filho vai querer de mim. Mas ele sabe que eu estou derrotado.

Na plateia, as pessoas se remexem na cadeira e pendem para a frente de seus assentos, interessadas. Sinto um regozijo pela decisão de ceder. Quando meu personagem perde, é como se toda a cena se agigantasse. Sua capitulação é como uma afirmação de que a vida é curta demais para evitar a dor, para escamotear as derrotas, para dourar nossos egos. Assumimos escolhas, corremos riscos, a vida avança, ganhamos todos.


RODRIGO VERGARA é ator e improvisador. Criador do PlayGrounded, a ginástica do humor. Fundador da RIA, consultoria a serviço da alta performance em equipe.


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