Meu sonho era fazer crochê…

  • Lu Gastal

Talvez meu sonho não fosse apenas fazer crochê. Era poder fazer o que me faz feliz, onde me sinta bem

 

Considerado um ofício “da vovozinha”, o crochê consiste na arte de produzir objetos e peças, com apenas uma agulha, mãos e coração. Derivado da palavra francesa “croc” (gancho), a mágica do crochê acontece com o entrelaçamento de apenas um fio.

Minhas avós o faziam lindamente. A vó materna adorava as linhas de fina espessura, e com um par de mãos pequenas e delicadas dava graça os panos de cozinha. Já a avó paterna crochetava muitos blocos em lã – colchas muito coloridas nasciam dali. Enfim… Talvez a maioria das mulheres daquela geração teciam fios com alguma técnica, talvez o crochê fosse a mais acessível e popular. Mas desconstrua a persona associada ao crochê, se você imagina uma senhora de cabelos brancos, embalada no vai e vem de uma cadeira de balanço com uma cesta de fios coloridos aos pés, apenas esqueça!

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As vovozinhas atuais que me perdoem, mas o crochê tomou conta dos mais diversos espaços; independente de gênero, idade ou estilo, ele se faz presente a qualquer hora, em qualquer lugar – da moda no mercado popular aos desfiles de grifes descoladas, dos detalhes presentes em lares populares ao design dos ambientes assinados.

O acerto do ponto

Mas não foi com minhas avós que aprendi a crochetar, e aceito o fato de que há uma espécie de “desarmonia” entre eu e a técnica de tecer lindezas com uma agulha só. Na verdade, minha dificuldade sempre foi segurar a agulha como reza a lenda, mais precisamente, como ensinam os especialistas da técnica. Ok, sabemos que cada pessoa tem suas preferências, suas dificuldades e vulnerabilidades, e, no caso, por ser alguém com pessoais restrições em seguir técnicas específicas, assumo o fato de que aprender um novo ofício a certa altura da vida tem lá suas dificuldades. A realidade é que sempre preferi o tricô – método um pouco diferente, onde são usadas duas agulhas e um fio, que aprendi quando menina.

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Mas não quero perder o fio da meada… há algum tempo tento gostar de fazer crochê… insisti em fazê-lo com prazer, mas desistia… tentava, parava, tentava, parava, por sucessivas vezes, até quase desencantar frente à esse desejo. Me sentia tensa, as mãos doíam, e eu não entendia o porquê – vejo pessoas crochetando a qualquer hora, em qualquer lugar, de maneira tão leve e gostosa. Só que além de brasileira, sou ariana e não desisto facilmente. Segui tentando, errando, cansando, insisti até que acertei.

O crochê à minha maneira

No exato dia em que entendi que há situações em que devemos escutar o coração e deixar fluir da forma que for possível. Foi no dia em que assumi que o meu crochê seria feito à minha maneira, que eu segurar a agulha de maneira diferente da maioria não faria diferença no resultado. No dia em que entendi que o prazer em vê-lo nascendo era muito maior do que qualquer comentário criterioso (talvez a dificuldade fosse exatamente essa – um excessivo auto olhar ou a busca por fazer como todos fazem); no dia em que passei a carregar “um crochezinho” na bolsa pra qualquer lugar, e ele passou a ser uma gostosa companhia, tudo mudou!

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Talvez meu sonho não fosse apenas fazer crochê. Era poder fazer o que me faz feliz, onde me sinta bem. Não poucas vezes recebi olhares curiosos em aeroportos, salas de espera de consultórios, por onde andava, sem restrições. Talvez por trás desses olhares houvesse o questionamento “crochê é coisa de vovozinha”, talvez alguém super expert na técnica observasse meu ir e vir do fio com uma só agulha e achasse inaceitável tal “pecado”. Fato é: ao assumir a minha maneira de fazer e ver o crochê como algo especial, que me remetia à presença de duas mulheres tão importantes na minha formação, que me proporcionava frações de amor, entendi que sim, vale a pena insistir em algo quando acreditamos valer a pena!

O Dia Mundial do Crochê

Hoje é um dia, para mim, especial – Dia Mundial do Crochê! Muito mais que uma data comercial, é um dia de celebrar aqueles que tecem suas histórias entre cores, fios de variadas espessuras, com as mãos, a emoção e o coração, seja com uma colcha de quadradinhos, com um tapete de banheiro; seja com o jogo americano que decora a sua refeição ou com o sapatinho do bebê que vai nascer. Se a pandemia já tivesse nos abandonado, certamente você encontraria hoje algum grupo crochetando e comemorando a data em alguma praça, calçada ou espaço coletivo; mas cá estamos ainda sob cuidados, então daqui celebro com você, e peço que celebre com seu vizinho, a amiga, inclusive com a avó. Que bom que, em tempos tão digitais, o fazer manual reassuma um espaço tão especial!

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P.s: se você, que nunca fez nem pretende fazer nenhum crochezinho na vida mas já ganhou uma peça feita por alguém – tenha certeza: ali tem muito amor envolvido, o que significa que você é especial para esse alguém!

Beijos meus!

 

Lu Gastal trocou o mundo das formalidades pelo das manualidades. Advogada por formação, artesã por convicção. É autora do livro “Relicário de afetos” e participa de palestras por todos os cantos. Desde que escolheu tecer seus sonhos e compartilhar suas ideias criativas, não parou mais de colorir o mundo ao seu redor. Seu Instagram é @lugastal.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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