Glamping: um lugar para renascer

  • Clô Azevedo
  • FOTOGRAFIA: Susan Yin (Unsplash)

A experiência de ter vivido alguns dias em uma bacana — mistura de barraca com cabana — construção que remete ao passado, trouxe um sentimento de renovação e reflexão sobre meu futuro.

Era a primeira vez que acordava em uma bacana. Ao abrir os olhos naquela manhã deitada em minha cama, senti os raios solares sorrateiramente entrando pela janelinha de madeira entreaberta, permitindo que a luz dourada se misturasse com o rosado das paredes rústicas. Uma claridade morna que no seu caminho encontrou a minha pele, e sutilmente, tocou os meus sentidos cansados da viagem longa que eu tinha feito no dia anterior para chegar até ali.

Minha mente já desperta, anunciava sua primeira sensação. Vasculhei dentro de mim uma pista que pudesse ajuda-la a traduzir a percepção de acordar dentro daquele ambiente. Juntas, formulamos a primeira palavra: útero. Uma comparação metafórica que encontramos no momento para expressar a agradável sensação de acolhimento e conforto, misturada com algo de familiar e genuíno que senti no meu corpo ao despertar em um ambiente feito a mão.

Feito a mão

As  bacanas —  misturada de barraca com cabana — foram construídas pelo Alê e pela Dani, meus amigos e proprietários do Canto de Jurema, um glamping, ou camping de luxo, eco responsável, localizado no meio da natureza intocada da Ponta do Corumbau. Além de confortáveis, surpreendentemente nos transmitem a energia que foi utilizada ao serem construídas de terra crua! E gente, é verdade, eu senti essa conexão! Embora eu já tivesse ouvido depoimentos de pessoas que habitam casas feitas a mão, confesso que nunca tinha realizado tão de pertinho a experiência de dormir em uma das formas ancestrais de construção sustentável mais antigas do mundo, a qual inegavelmente, mexeu comigo.

Com paredes feitas de tijolos de adobe — uma composição que mistura terra crua local com água, palha e fibras naturais — além da energia doada por cada pessoa que os amassou no pé, são moldados artesanalmente em fôrmas, e logo depois cozidos ao sol. Com esta receita cheia de afeto, as bacanas nos acolhem, e nos fazem sentir abraçados pela força da natureza que pulsa da terra em um ambiente que respira saudavelmente. No teto, telhas de caixinhas de leite recicladas que oferecem conforto acústico e térmico, regulando não só a temperatura interna do ambiente, como também a do coração. Uma bioconstrução assentada com o propósito de nos conduzir para uma temperança naturalista e energética que sacudiu meus sentidos e tocou em cheio minha percepção.

glamping

Alain Wong (Unsplash)

Na natureza

Quem me conhece  sabe que sou bem urbana, e sempre adorei viver na cidade grande. Porém de uns tempos para cá tem sido diferente. Dormir naquele lugar, tão longe da minha zona de conforto, me trouxe a necessidade de momentos a sós, a fim de me conectar com o que havia de mais profundo em mim mesma. Aceitei o convite de me renovar em um lugar que foi gerado e construído intuitivamente com o objetivo de nos guiar para nossa casa interna. Assim, seguindo minha intuição, revirei minhas energia, e passei a observar meus próprios ciclos, buscando respostas, sentidos e verdades.

Literalmente me entreguei para uma natureza que há muito tempo não enxergava. Encantei-me com o brilho dos reflexos das pequenas ondas do mar. Entrei em águas calmas e profundas chegando pertinho dos animais em suas tocas. Vi marés que sobem e descem. Fogueiras que nascem a noite e morrem ao amanhecer. E um sol poente que se vai, deixando a lua nascer. Um ciclo de vida e morte ali escancarado, dentro e fora de mim, me deixando vulnerável e fazendo brotar o amor pelas coisas simples, trazendo luz aos meus sonhos ao mesmo tempo que me conduzia a desapegar do que já foi.

Hoje, depois de um tempo já aqui na cidade grande, paro e penso no ciclo de limpeza e cura pelo qual eu passei. A cada despertar na minha bacana, renasci todas as manhãs através de uma energia viva de ancestralidade que paradoxalmente me jogou para o futuro onde quero estar. Encontrar o meu lugar neste mundão para poder acordar a cada manhã perto da natureza e da simplicidade, na observação das pequenas coisas. E como cantou Elis, “onde eu possa plantar meus amigos, meus livros e discos e nada mais”.

Clô Azevedo é arquiteta e acredita que a casa é uma extensão das vidas que a habitam. Desenvolve projetos de design de interiores afetivos para conectar pessoas com suas histórias, inspirando a reinventar seu próprio espaço, morar bem e viver melhor. Seu site é designafetivo.com.


*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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